terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Considerações sobre os pronunciamentos de Francisco (o papa)

"Habemus novus papam popem"

Sim, amáveis leitores! Uma coisa é inegável: depois do "popíssimo" João Paulo II, não há dúvidas de que o papa Francisco é pop.

Por pop, todos os pronunciamentos altissonantes desse papa (de fancaria, bien entendu!) Francisco são amplificados de maneira ensurdecedora e quase sempre positiva pela mídia.

Os discursos efeminados de Francisco, com foco puramente secular ou abertamente contra-mão dos ensinamentos da Igreja, soam como música aos ouvidos da mídia (predominantemente esquerdista). Uma leitura atenta desses discursos leva inescapavelmente à conclusão de que Francisco procura nivelar os ensinamentos da Igreja às tendências pagãs e politicamente corretas de hoje.

Esse simples fato já seria causa justíssima para que os verdadeiros católicos se afastassem do papa, com pesado voto de desconfiança. No entanto, a esmagadora maioria dos sedizentes católicos se pela de medo de se afastar do tacão do Vaticano, preferindo acovardar-se e mostrar complacência ante a face externa de Francisco.

Sendo certo que a mídia é pródiga em disseminar tudo o que há de mais imundo sobre a Terra (como campanhas socialistas, ecumênicas, pró-aborto, casamento gay etc.), como pode Francisco aceitar alegremente as calorosas loas dessa mesma mídia?

Something is rotting in the State of Vatican City.

De tanto defecar pela boca, Francisco conseguiu uma proeza: ser destaque de capa de um fortíssimo veículo de comunicação da militância gay, a The Advocate, para escândalo e horror dos católicos com um mínimo de honestidade moral e intelectual.

Entretanto, os católicos vêm discutindo muito pouco (por pura desonestidade ou até falta de preparo) a respeito do teor desses pronunciamento à luz da doutrina tradicional da Igreja, ou seja, a doutrina milenar que se estabeleceu com sólidas raízes antes de ser solapada pelos heresiarcas do Concílio Vaticano II.

Esses católicos de fachada preferem entoar cânticos de boiolices na Jornada Mundia da Juventude, fazer vistas grossas às declarações papais, ou, pior ainda, defender despudoradamente essas declarações, com um sem-número de acrobacias hermenêuticas e citações doutrinárias, tentando provar o impossível: que Francisco é católico, não um títere de uma seita abertamente anti-católica.

A verdade, meus caros, é que - apesar de eu me referir a Francisco como papa no início do texto, para facilitar a referência - Francisco não é papa, além de não se comportar como tal. A rigor, ele se comporta como uma espécie de líder de ONG de direitos humanos. Ele carece de qualquer preocupação legítima em ensinar o que é o verdadeiro catolicismo e, assim, converter os demais povos.

Da igreja de Francisco (que de católica só tem o nome) emanam lições e pronunciamentos com roupagem religiosa, mas cujo conteúdo consiste em propostas que andam de braços com o marxismo cultural.

Na conjuntura de hoje, faz muita falta a autoridade de um Papa com todo o peso da doutrina cristã, mas o cartão de visita de Francisco é apresentar-se como chefete de uma rasteira ONG de direitos humanos. Após as perturbadoras declarações sobre os ateus e gays (declarações essas que não fazem nada além de expor os católicos ao ridículo), não demora para que Francisco recomende o uso da camisinha e condene o fumo e o uso do álcool.

Francisco e seus capangas conseguiram reduzir a Igreja de Cristo a uma miserável caricatura. É preciso ser um asno juramentado e com antolhos, mas com pomposa pose católica, para não perceber o que está meridianamente claro à sua volta.

O problema de Francisco não está propriamente em suas amizades com integrantes de outras religiões e seitas, e sim em flexibilizar a própria religião que finge representar em virtude dessas amizades, em desabrido ato de traição, digno da tra(d)ição inaugurada pelo “apóstolo” Judas contra Jesus.

Ora, amáveis leitores, não é preciso renunciar às próprias convicções para se relacionar com o mundo. A religião cristã pede exatamente o inverso: renunciar a tudo o que for do mundo (inclusive às falsas religiões) para se unir de corde totaliter et ex mente tota com Cristo.

Francisco faz exatamente o contrário: ele abre uma larga avenida em direção ao Anticristo, e os idiotas católicos de fachado o seguem sem sequer questionar a si mesmos.

Pensemos bem, meus caros: se os sedevacantistas julgassem incorrer em erro, então teria a Igreja errado miseravelmente durante quase dois mil anos até o malfadado Concílio Vaticano II?

Afinal de contas, quem está com a razão?

domingo, 12 de janeiro de 2014

Uma história de ficção e uma advertência

Esta é uma história fictícia que anda circulando pela Internet. O professor mencionado na história não existe (infelizmente), e a brilhante estratégia para ensinar como o socialismo é perigoso e absurdo não foi colocada em prática (até onde eu sei).

Seja como for, a história é excelente como advertência.

* * * * *

Um professor de Economia de uma faculdade local afirmou que nunca havia reprovado um aluno sequer, mas recentemente havia reprovado uma turma inteira. A turma insistia em dizer que o socialismo funcionava, pois ninguém seria pobre nem rico. Seria um ótimo nivelador.

Então, o professor disse “Muito bem, vamos fazer uma experiência com o socialismo nesta turma. Vou tirar uma média de todas as notas as notas e todos receberão a mesma nota, assim ninguém será reprovado e ninguém vai receber nota 10”. [Podemos substituir as notas por reais, algo mais perto da experiência cotidiana e compreendido mais facilmente por todos].

Depois da primeira prova, foi tirada a média das notas e todos receberam nota 7. Os alunos que estudaram a sério ficaram perturbados e os alunos que não estudaram quase nada ficaram satisfeitos. Quando a segunda prova foi realizada, os alunos que não estudaram quase nada na primeira prova estudaram ainda menos na segunda, e os que haviam estudado a sério decidiram que também queriam uma folga e, portanto, estudaram pouco.

A média da segunda prova foi 4. Ninguém ficou satisfeito.

Quando a terceira prova foi realizada, a média foi 1.

À medida que as provas se sucediam, as notas nunca melhoravam, pois os bate-bocas, os xingamentos e a troca de acusações levavam a ressentimentos, e ninguém estudava em benefício dos outros.

Para surpresa de todos, TODOS FORAM REPROVADOS e o professor disse a eles que o “socialismo” também acabaria sendo reprovado porque, quando a recompensa é muito boa, o esforço para ter sucesso é muito grande, mas quando o governo acaba com toda e qualquer recompensa, ninguém vai tentar nem querer ser bem-sucedido.

Mais simples que isso, impossível.

O professor escreveu na lousa estas cinco frases para encerrar a lição:

1. Não se pode fazer os pobres prosperarem por decreto fazendo com que a lei tire a prosperidade dos ricos.

2. Para uma pessoa receber sem trabalhar, outra pessoa precisa trabalhar sem receber.

3. O governo não pode dar a ninguém nada que antes não tenha sido tirado de alguém.

4. Não se pode multiplicar a riqueza dividindo-a.

5. Quando metade das pessoas se der conta de que não precisam trabalhar porque a outra metade cuidará delas, e quando a outra metade se der conta de que não adianta trabalhar porque alguém vai receber aquilo pelo que ela trabalhou, esse será o início do fim de qualquer país.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Salgadinhos em geral (e em inglês)

Como os amáveis leitores já devem (ou deveriam saber), sou tradutor profissional desde 1997 (com pré-estréias em 1993 e 1995). E, sim, sou o que se chama de native speaker, mesmo tendo nascido cá no Brasil. Ocorre que fui criado com inglês, alemão e português falados diariamente em casa.

De vez em quando, encontramos em textos para verter do português ao inglês (e outros idiomas) coisas sobre as quais nunca paramos muito para pensar. Nesses casos, às vezes a memória (ou o conhecimento) nos trai com um ou outro termo e acabamos recorrendo ao "Pai Gugo", ao mal-afamado Proz.com, a fóruns de tradutores e outras fontes menos cotadas.

Hoje me deparei com um desses casos: como dizer "coxinha de galinha" em inglês? Vejam bem, não me refiro ao desairoso epíteto do qual lançam mão abundantemente os "pogreças" para se referir aos "reaças", e sim ao brasileiríssimo salgadinho.

A questão parece trivial, mas me leva a uma reflexão bastante pertinente, principalmente por estarmos às vésperas de receber quilotons de turistas de todas as partes do mundo para a Copa do Mundo e para os Jogos Olímpicos.

Quase sempre Muitas vezes, os restaurantes que pretendem receber clientes estrangeiros recorrem a "tradutores chutadores" que produzem deliciosos (lato sensu) dislates como este:


Ora, um anglófono que se depare com um cardápio destes certamente morrerá: ou de rir, ou de ódio ou de fome. Juro que eu teria muito medo de um lugar que serve giz de cera (crayon), uma lasanha de meias (stocking "lasanha"), ou páginas viradas de queijo ("turned pages of cheese").

Mas justiça seja feita: nós outros cá em Banânia somos arrogantes e queremos ser levados a sério com essas mal-ajambradas tentativas gastro-tradutórias. Os orientais em geral sabem que traduzem ainda pior, mas se divertem com as reações dos ocidentais angloparlantes ao mais perfeito Chingrish. Vejam isto:


"Garçom, quero uma porção de frango escorregadio em mingau de cogumelos". Bem, comparando lá e cá, não fazemos tão feio.

Eu fico hirto, pasmo e chocado com a tendência de traduzir tudo nos cardápios. Por que, meu Deus? Por que cacetes murchos eu traduziria "samba", "berimbau", "cuia", "pala", "lambada", "vatapá", "acarajé", "churrascaria", etc.? E não venham os "inteliquituais" me dizer que churrascaria é a mesma coisa que steakhouse. Uma churrascaria é mil vezes melhor. Conheço ambos os conceitos. Certas coisas são tão ligadas a uma cultura que é melhor deixá-las sem tradução mesmo. No máximo (e, sim, desejavelmente) deve-se apor uma explicação dos componentes do prato, tout court.

Mas, numa pesquisa rápida pelo Google, procurei saber como andam traduzindo para o inglês os nomes de clássicos da comida de boteco baixa gastronomia brasileira. Encontrei coisas de arrepiar os cabelos do Esperidião Amin.

NOTA AOS LEITORES MAIS DESATENTOS: Esta lista NÃO se trata de um glossário. Trata-se, sim, de como NÃO TRADUZIR para o inglês os nomes dos salgadinhos e outros acepipes.

Bolinhas de queijo > Cheese balls
Este foi o único caso em que a tradução parece aceitável. Para ser absolutamente correta, eu acrescentaria deep fried (fritas).

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Coxinha de galinha > Chicken drumstick
Bem, até o Google Translate embarca nessa canoa furada. Experimentem. Seja como for, explico a confusão. Um drumstick é uma coxa de frango (ou galinha, para os não-paulistanos) com o osso. O salgadinho, como todos sabem, é feito com frango moído ou desfiado, ou seja, não é uma coxa de frango e muito menos tem osso. A diferença é brutal. O mais correto é manter a palavra "coxinha" no item do cardápio. A explicação entre parênteses embaixo do item poderia conter algo como chicken thigh-shaped... Melhor explicar do que inventar.

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Patê de atum > Tuna spread
Pode-se até argumentar que a tradução está correta. Nos Estados Unidos, os tuna spreads levam aipo, picles picados, pimenta, etc. Mais uma vez, há diferenças - não tão brutais, mas a mensagem é transmitida de maneira errada.

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Ovo empanado > Coated egg
Esta foi um chute nos meus ovos peludos! Coated egg se refere a uma coisa totalmente diferente em inglês. "Ovo de casaca" ou, mais tecnicamente, "ovo revestido" é de um primarismo atroz. Eu até aceitaria breaded egg. O melhor, mais uma vez, é manter o nome em português e apor uma explicação do tipo "Brazilian-style breaded egg".

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Batata frita > Deep-fried potato, French fries
French fries eu aceito toto corde*. O problema está em "deep-fried potato", que se refere àquelas batatas cortadas em cunha. O que faz uma French fry ser uma French fry é mais do que o modo de preparo. A maneira de cortar a batata é fundamental.

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Quibe > Bulgar wheat meat balls
Para início de conversa "Bulgar" (1) se refere a uma pessoa que nasceu ou mora na Bulgária, ou ao idioma falando na Bulgária, e (2) é um substantivo, não um adjetivo. Além disso, "quibe" é de origem árabe, não búlgara.

Agora, vamos penetrar fundo (ui!) na psiquê do nosso querido aspirante a tradutor. Ele seguramente confundiu Bulgar com bulgur, que, em português, é "triguilho" (em árabe, برغل burghul). Quanto a meatballs, bem, todos sabem que uma almôndega (al-bunduqa, ou "a bola") não tem nada a ver com um quibe. Por incrível que pareça, a palavra árabe que deu origem a "quibe" é kubbah, cujo significado é "bola". Em inglês, a transliteração dessa palavra é kibbe ou kibbeh. Em espanhol argentino, diz-se quipe. Outros nomes desse prato vêm da palavra persa کوفته kofteh (literalmente "moído [carne]"), como içli köfte (em turco), իշլի քյուֆթա išli k’yuft’a (em armênio) e cafta (em português).

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Salsicha empanada > Coated sausage
Mais uma vez, o tradutor comete um crime tradutório. Breaded sausage é uma tradução muito melhor. E digo mais: a solução "esperta" de aproximar a salsicha empanada do corn dog é outro erro crasso, cometido apenas do tradutor que não tem idéia de como as iguarias são preparadas. Seja como for, coated sausage me remete a uma "salsicha encasacada". 

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De todas as iguarias dessa lista, apenas French fries será reconhecida imediatamente por quem não for lusófono. Minha filosofia de tradução é a seguinte: se não estiver quebrado, não tem sentido consertar. Em outras palavras, repito minha orientação de usar o nome original do prato no idioma em que ele foi criado, mas explicá-lo no idioma de destino (inglês, neste caso).

Vou dar alguns exemplos da minha experiência pessoal. Passei quase um ano na República Dominicana, onde se fala espanhol. Não é raro ir a um restaurante internacional no país e receber do garçom ou maître um cardápio em inglês. Os nomes dos pratos são, muitas vezes, traduzidos para o inglês. Eu sei o que é um "lomito saltado", um "tacu-tacu", etc. O problema é que cada restaurante traduz os nomes dos pratos da sua própria maneira. Seria tão mais fácil se eles usassem o nome original (os pratos dos exemplos que dei são peruanos). Se eles quiserem explicar em inglês, ótimo, mas devem indicar o nome original em destaque para que os clientes saibam de que cazzo estão falando. Em Los Angeles, na Califórnia, eu perguntei num restaurante argentino se eles tinham molho para o asado. O garçom me garantiu que eles tinham um molho feito com azeite, salsinha, cravo, suco de limão, tomilho, orégano, pimentão, etc. Eu me dei conta na hora de que ele acabara de me dar a receita do famoso "chimichurri". Por que ele não disse o nome logo no começo?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pagãos, um papa e a queda de Sauron: como entender o Ano Novo?

Alguns ateus, muçulmanos e cristãos fundamentalistas gostam de reclamar e chiar pelo fato de que as comemorações de Natal e Páscoa são “pagãs.” Eles estão, ao mesmo tempo, certos e errados. Eles têm razão na medida em que a nossa cultura ocidental tem raízes profundas nas culturas pré-cristãs da Europa. Mas eles também estão redondamente enganados, pois os primeiros cristãos, como os judeus antes deles, consideravam sua religião um contraste e uma correção da cultura pagã predominante à época.

Devemos ser iconoclastas culturais e expurgar todos os vestígios de paganismo do mundo moderno? Devemos abandonar nossas árvores de Natal e jogar no lixo os ovos de Páscoa? Se assim for, deveriam os anglófonos, por exemplo, adotar os nomes cristãos dos dias da semana em detrimento da homenagem às divindades pagãs Tiu (Tuesday), Odin (Wednesday) Thor (Thursday) Frige (Friday) e Saturno (Saturday), isso para não falar do culto ao sol e à lua (Sunday e Monday)?

A "purificação cultural" deveria continuar, exigindo que os nomes do meses do ano fossem expurgados de suas absurdas associações demoníacas e pagãs! Fora com Janus, o deus de duas caras de janeiro! Fora com Marte (de março), com a deusa Maia (de maio) e com Juno! Dia de Ano-Novo? O horror, o horror! A comemoração do início do ano em janeiro é pagã "do primeiro ao quinto"!

O conservador nunca deve ser um iconoclasta. Ele afirma que o passado é o alicerce do futuro. Nossa cultura ocidental está profundamente arraigada nas civilizações clássicas da Grécia e de Roma, mas também nas culturas pré-cristãs da Europa. Os costumes ancestrais se fundiram, desenvolveram e adaptaram às mudanças dos tempos, mas não devem ser desprezados simplesmente por serem pagãos ou por serem do passado. Um bom exemplo de como um costume de origem pagã se transformou numa comemoração hodierna é o Dia de Ano-Novo.

Os primeiros registros de uma comemoração de Ano-Novo datam de 2000 a.C., na Mesopotâmia. Depois, na época do patriarca Abraão, o novo ano era anunciado não no meio do inverno (do hemisfério norte), e sim no equinócio de primavera (também do hemisfério norte), em meados de março. Em consonância com esses costumes já ancestrais, o primeiro calendário romano tinha dez meses, e também reconhecia o mês de março como o início do ano. Daí os nomes dos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro: contando a partir de março, eles eram o sétimo, oitavo, nono e décimo meses.

Numa Pompílio, segundo rei de Roma, acrescentou janeiro e fevereiro ao calendário e, em 153 a.C., surgiu o primeiro registro da comemoração do Dia de Ano-Novo no primeiro dia de janeiro. A mudança foi decretada por motivos civis (os cônsules iniciavam seu mandato nessa época), mas muita gente continuava reconhecendo o mês de março como o início do ano.

Quando Júlio César substituiu o antigo calendário lunar em 46 a.C. por um calendário solar, ele também formalizou o início de janeiro como Dia de Ano Novo. Com a queda do Império Romano e a transição da Europa para a nova religião e o domínio do cristianismo, os vestígios da cultura pagã foram expurgados. O Dia de Ano-Novo no início de janeiro foi oficialmente eliminado pelo Concílio de Tours em 597 e, em toda a Europa, o início do novo ano passou a ser comemorado em várias épocas: Natal, Páscoa ou, a data mais significativa, 25 de março.

A data de 25 de março não apenas guardava relação com as comemorações mais antigas do novo ano no equinócio de primavera, mas, no calendário cristão, 25 de março corresponde à Anunciação, ou seja, o anúncio do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria de que ela geraria um filho. A data de 25 de março foi determinada pela crença judaica de que os grandes homens eram concebidos no mesmo dia do ano em que morreriam. Jesus Cristo morreu em 25 de março (segundo reza a teoria), ou seja, ele foi concebido em 25 de março. Por acaso, essa é, também, a origem da data tradicional do Natal – nove meses a contar de 25 de março.

Os cristãos da Idade Média achavam que o início da vida do Filho de Deus no útero da Virgem Maria era o início da obra de Deus entre os homens, a restauração e a redenção do mundo e o início de uma nova Criação. Portanto, era teologicamente adequado que o dia 25 de março, ou o dia da Anunciação da Virgem Maria, fosse comemorado como o Dia de Ano-Novo. E assim foi por mil anos.

Então, em 1582, o papa Gregório XIII reformou o antigo calendário de Júlio César. Em virtude de uma imprecisão de cálculo, a data da Páscoa era móvel, e o papa decidiu torná-la fixa. Uma parte da reforma consistia em restabelecer o dia 1º de janeiro como Dia de Ano-Novo. Por considerar essa reforma uma ousadia do papa, a Igreja Ortodoxa Oriental rechaçou a reforma. Por considerar essa reforma não apenas uma ousadia do papa, mas também a restauração do paganismo, os Protestantes também rechaçaram o novo calendário gregoriano. Os ingleses só adotaram o novo calendário em 1752. Os gregos mantiveram o calendário antigo até 1923. Os monges do Monte Atos ainda mantêm o calendário juliano.

O amável leitor deve estar se perguntando por que eu mencionei no título do artigo a queda de Sauron, inimigo do Senhor dos Anéis? J. R. R. Tolkien foi muito astuto na maneira como urdiu o simbolismo cristão na trama de seu mito épico. Ele registra as datas dos grandes acontecimentos no ciclo do anel, e descobrimos que é em 25 de março que o anel do poder é lançado nos fogos da Montanha da Perdição e, assim, a destruição de Sauron  anuncia um novo começo para a Terra Média. Dessa forma, Tolkien assina embaixo da tradição cristã medieval de que o dia 25 de março é o verdadeiro Dia de Ano-Novo.

Quem comemorou a entrada do novo ano nesta quarta-feira deve ter em mente que, por mil anos, essa comemoração não foi uma simples data em vermelho no calendário, mas sim um acontecimento cultural e religioso que vinculava a renovação da natureza com a redenção do mundo.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Libertários: humanos, sim; humanistas, nunca

Todo mundo conhece os argumentos contra essa noção, mas eu chego à conclusão (relutando um pouco) de que os libertários são, de fato, humanos. Afinal de contas, a nossa espécie contém incontinentes verbais, deficientes mentais, os incuravelmente idiotas e Walter Block.

Walter Block é um acadêmico idoso inspirado por Ayn Rand, Nathanial Branden e Murray Rothbard. Os libertários o consideram agradável e até mesmo animado. Ele é professor de Economia na Universidade Loyola (da mesma ordem religiosa do papa Francisco, ou seja, jesuíta), mas na Louisiana (o centro histórico dos demagogos nos Estados Unidos), então empatou. Ele é adepto da Escola Austríaca (o que não é nada negativo), mas se intitula anarco-capitalista e “ateu praticante” (com 3,3 em 10 dá para passar?).

Em suas palavras (mas com grifo meu, sempre meu), ele “fortaleceu o libertarianismo para torná-lo mais coerente”. Ele pode ter se esquecido da idéia de Ralph Waldo Emerson, de que “uma coerência insensata é o duende das mentes pequenas” pois, ocupado com as grandes questões, ele reafirma o direito das pessoas de vender-se como escravos.

Talvez um contrato voluntário possa prever grilhões confortáveis e a escolha da chibata (por falar nisso, isso pode acontecer bastante no burgo nova-iorquino do Brooklyn, onde Block nasceu, especialmente depois de Cinqüenta Tons de Cinza).

Ele começa falando sobre o aborto, defendendo o direito da mulher de despejar o feto do seu útero como um inquilino indesejável num apartamento alugado (talvez, se o rebento tiver o dinheiro do aluguel, ele possa ficar). 

Ele sustenta que as grávidas podem chacinar os nascituros se (a) o feto for “inviável” fora do útero; depois (b) se a mãe abrir mão do seu direito à “guarda” da pessoinha à espreita dentro dela, e (c) se “ninguém mais tiver ‘reivindicado’ esse direito, oferecendo-se para cuidar do feto”. (Juro que não inventei nada disso). Talvez, com “inviável”, ele queira dizer "se o feto não conseguir um cartão de crédito até o terceiro trimestre. 

Então, se a mamãe publicar um anúncio no jornal dizendo ao seu "bacurinho" não-nascido que o contrato de aluguel venceu e que ele tem que sair, poderia outra mulher “reivindicar a posse”, oferecendo um útero a título gratuito com vista para o mar? Nesse caso, quem paga a mudança? Ou ela pode prometer uma adoção e obrigar a mãe biológica a carregar o nenê até o final? Ou, ainda, precisaria a candidata a mamãe pagar o aluguel do útero à mamãe titular e, nesse caso, com água e luz incluídas? É pra pensar. 

Então, ele explica que se “ninguém mais no mundo” quiser o feto, o nascituro pode ser usado por seu responsável para experiências científicas. Não, meus caros, não estou brincando. Isso é reconhecidamente econômico porque, se forem "extraídos" na época certa, os nascituros comem menos do que os hamsters e os ratos de laboratório. Não sei bem como oito bilhões de pessoas conseguirão o direito de preferência, mas acho que, como amam dizer os libertários, “o mercado se encarregará disso”. 

Talvez o amável leitor ache isso uma loucura, mas peço que você leve isto a sério: a coerência libertária está em jogo neste caso.

Walter Block pode até mesmo ser um tradicionalista. Os Estados Unidos têm uma tradição respeitável de ideólogos "excêntricos", começando pelo cristão-talibã comunista na Pedra de Plymouth, passando pelos jacobinos que havia entre os Founding Fathers, por cada camelô de remédios "milagrosos" do século XIX, pelos malucos racistas eugenistas do início do século XX, e chegando aos retardados aquecimentistas globais de hoje e ao Paul Krugman. O que eles têm em comum é a coerência interna.

O modus operandi de Walter Block pode ser simples. No tempo que corre, dizer qualquer coisa profundamente idiota garante espaço na mídia para ajudar a vender de tudo, até Afrin purgante, ou conseguir um emprego de professor na Loyola. 

Seja como for, ele é um outdoor ambulante que anuncia a bondade de uma sociedade relativamente livre. Vamos pensar: se eu estivesse num avião lotado, sentado ao lado dessa praga, eu pagaria feliz para mudar de classe na mesma hora. Se eu estiver num boteco e ele se sentar numa mesa ao lado da minha, eu pago a conta antes de pedir a primeira cerveja. Mas em vez de curtir uma solidão atroz, em vez de ser enxotado de uma cidade para a outra, ele anda pelos EUA de cidade em cidade, indo a reuniões após o horário de aulas em escolas onde autodidatas tão ideologizados quanto ele, mas menos fedidos, se matam para ouvi-lo. De certa maneira, isso é compaixão. 

Mas a coisa muda completamente de figura quando alguém difama os bengalis, que já estão bastante ocupados difamando uns aos outros. Eu gosto deles. Sim, Bangladesh é um dos países mais pobres, infelizes, corruptos, apinhados de gente, disfuncionais e desorganizados que existem (sim, são piores que o Brasil... mas não muito), mas o povo é gente finíssima (bom, o brasileiro também é, né?). 

Embora sejam muçulmanos, a grande maioria dos bengalis não é fanática; as belíssimas mulheres bengalis usam saris e bindis (aqueles pontinhos vermelhos) porque se trata de uma tradição cultural, não especificamente hindu (usar essas roupas em público pode custar um linchamento às moças muçulmanas em algumas partes da nação islâmica do Paquistão). A riquíssima cultura bengali é tolerante, e a cultura deles vem em primeiro lugar.

Bangladesh é prenhe de alegria e discussões acaloradas; de belíssima poesia e prosa cheia de vida; em média, os jornais passam por onze pares de mãos antes de virar embrulho de peixe na tão bengali e vizinha Calcutá. Eles se parecem com irlandeses bronzeados. Eles também fazem piqueniques artesanais, levando os visitantes em chalupas às suas verdejantes aldeias ancestrais onde parentes os esperam com toneladas de acepipes engordativos; especificamente, os doces bengalis são os presentes de jantar que toda anfitriã do sul da Ásia espera ganhar. Os bengalis podem ser artistas e artesãos talentosíssimos, mas o país pode ser um lugar terrível e cruel. Eu adoraria ir a Bangladesh a passeio, mas agradeço aos céus por não ter nascido e por não morar lá.

É aí que Walter Block entra na história. Há pouco tempo, mais de mil trabalhadores da indústria têxtil de Bangladesh morreram no desmoronamento de uma fábrica caindo aos pedaços em Dacca. Sapassado (os mineiros entenderão), o Wall Street Journal culpou os consumidores americanos que insistem em comprar roupas baratas feitas, supostamente por necessidade, em prédios precários (muito estranho... se eu quero comprar roupas caras, por que não comprar em Paris em vez de Dacca?). Como não poderia deixar de ser, Block culpou quem? Sim, ele, o Estado. O que mais poderia ter vindo de um anarco-capitalista confesso? A ideologia dele associa até a síndrome do refluxo gastroesofágico a tenebrosas conspirações do governo. Não seria ele uma espécie de Sakamoto libertário?

Ele diz que os códigos de segurança e edificações do governo induzem todos a acreditar que as construções (por assim dizer) são seguras. Isso implica que ele nem conversou com um bengali nem pôs as patas no país em que fazer piada de político e dos burocratas, assim como no Brasil, é uma arte. Ele poderia ter se "rebaixado" a falar pessoalmente com um bengali antes de escrever o artigo, mas isso poderia ter estragado o prazer dele.

Depois (surprise, Shanghai!”, já diria Fausto Fawcett) ele afirma que eles só precisam de um Estado libertário que não governe, em que seus custos de produção sejam tão baixos que todos prosperarão. 

Quem quiser vender chiclete, caneta ou cadarço pelas ruas de Dacca precisa pagar uma "semanada" por esse privilégio. Esse dinheiro vai para bandidos "avantajados" que atuam em nível de quarteirão ou até mesmo meio-quarteirão, e que fazem parte de redes maiores de malandros bem maiores. As construtoras "miguelam" no material, a menos que o cliente seja especialista e tenha recursos para fiscalizá-las 24 horas por dia. Os quitandeiros sempre "batizam" o leite com água de rio; a farinha, eles "batizam" com serragem. Remédios falsos letais passam despercebidos até pelo farmacêutico mais honesto e atento. Famílias e até aldeias inteiras morrem pela ingestão de óleo de cozinha contaminado. Qualquer pessoa que não seja ideologicamente contaminada verá que, no meio dessa bagunça toda, um governo é necessário.

O governo de lá atua na repressão de badernas que queimam carros e lojas e espancam pessoas até a morte nas ruas. Os bandidos partidarizados que promovem as badernas não deixariam de promovê-las se o governo e os partidos fossem abolidos; eles simplesmente continuariam sob outra roupagem. Então, quem poderia detê-los? Talvez “o mercado tomasse conta do problema” e os pobres subornariam os "tubarões", e assim por diante.

Segundo Walter Block, os problemas de Bangladesh se resolveriam com a eliminação do governo, administrando ao organismo social uma dose cavalar e catártica de óleo libertário aromatizado com pitadas de Ayn Rand e Murray Rothbard. Ele prega a anarquia. Mesmo assim, o safado do dono da construtora não tem praticamente nada a ver com o governo, além de pagar uma propinazinha para escapar dos impostos. O vendedor de cadarços também vive num estado de anarquia, e ele paga bem caro para que seu produto não seja usado (e lentamente apertado) em volta do seu precioso pescocinho. As cidades de Bangladesh já estão em relativo estado de anarquia, e não do tipo fictício teorizado pelos seguidores de Ayn Rand e pelos débeis mentais contumazes, mas do tipo real, o Estado da Natureza “com dentes e garras sujos de sangue” retratado por Hobbes.

Quem teve paciência de ler este artigo atentamente até agora pode ter tirado quatro conclusões. Primeiramente, nossa moral e nossa ética formam as circunstâncias nas quais vivemos, mais do que o governo ou a falta dele. Um holandês, um canadense ou um japonês podem ter uma visão mais consciente de trabalho, comunidade e cidadania do que, talvez, um grego, um brasileiro ou um bengali. Que o governo seja reduzido de maneira prudente, concordo, mas reduzi-lo em excesso pode acabar com uma série de problemas e, ao mesmo tempo, piorar outros.

Em segundo lugar, estejamos nós falando de Economia, Política ou cuecas, não existe "tamanho único". Cada cultura é diferente e muda muito devagar, isso se mudar. O amável leitor pode argumentar que os cambalachos e a brutalidade cotidianos de Bangladesh decorrem da superpopulação do país, ou do desemprego, ou da pobreza opressora, ou da frouxidão moral nas áreas de comércio e política, ou de uma cultura que oprime os fracos, ou de famílias gigantescas que sempre exercem uma pressão atroz para se portar mal em favor de primos pobres ou gananciosos. Ou pode ser por tudo isso junto. Não importa. Embora um dia seja possível que ocorra uma mudança, nem mesmo um século inteiro de disciplina draconiana ou incentivos ao mercado derrubarão hábitos milenares. Desencanem. Vamos amá-los por seus piqueniques e alimentar seus famintos, e ponto final.

Em terceiro lugar, sentar a rotunda bunda numa cátedra polpudamente financiada confere ao seu ocupante uma licença para falar "groselha" (fundamentada numa quantidade enorme de ignorância e vaidade) para qualquer um que seja suficientemente idiota para ouvir. No entanto, ser um ideólogo ajuda bastante. Daí, é só engolir as próprias merdas e acreditar que sua visão de mundo bem maquinada, prazerosa e de conto-de-fadas ainda merece um tiquinho e credibilidade por causa da... coerência intelectual. Marx, como alguns de vocês devem saber, foi coerente sem nunca se rebaixar a passar um tempinho que fosse com seu amado proletariado, ficando com seu furunculoso cuzinho confortavelmente alapado numa cadeira estofada da Biblioteca Britânica, e suas "brilhantes" idéias mataram mais de 100 milhões de pessoas. Se algum lugar deste mundo fosse idiota o bastante para seguir as instruções cretinas (mas bem urdidas) de Walter Block, o caminho da ruína estaria escancarado. 

Em quarto e último lugar, devemos perceber que a maioria das pessoas que se dizem libertárias é formada por conservadores normais que estão ou confusos ou humilhados pelos ilustres fascistas que falseiam o significado do conservadorismo. Mas se o amável leitor for como eu, às vezes encontrará verdadeiros libertários tão arrogantes quanto o Lúcifer da obra "Paraíso Perdido" (do poeta inglês seiscentista John Milton); tão sombrios quanto a noite; e tão malcheirosos quanto o enxofre dos infernos. 

Esses são pessoas como o "festivo" Walter Block. Embora eles sejam humanos, passam longe de serem humanistas.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Caixinha? Não, Obrigado!



Oito e vinte da noite. Estava eu ao telefone no meu home office quando meu sossego foi quebrado pela campainha. Era o coletor de lixo pedindo a famigerada "Caixinha de Natal".

Creio que a maioria dos meus amáveis leitores é importunada por abundantes toques de campainha de vários profissionais pedindo caixinha de Natal. São coletores de lixo, varredores de rua, entregadores de gás, carteiros, leituristas de água e luz, guarda noturno (falo mais sobre essa "espécie" em outro artigo), et caterva.

Eu fico desgraçado da cabeça com a atitude dessa gente. Todos trabalham com carteira assinada (exceto os guardas noturnos), recebem seus salários religiosamente todo mês e, mui provavelmente, ganham décimo-terceiro no final do ano, como qualquer assalariado.

Então, por que saem de porta em porta, qual pezzenti, se prestando a esse papel? Por que essa gente se esforça tanto por convencer a todos que seus empregos são mais importantes? O que eles fazem de tão especial para se acharem diferentes dos outros profissionais?

Voltando ao episódio de 20 minutos atrás: o coletor de lixo apareceu impávido diante de mim pedindo a caixinha. Respondi de bate-pronto: "Você tem um minuto para me convencer a dar caixinha. Quero um único motivo para que eu dê dinheiro a você". Ah, sim. Tem que ser em dinheiro, porque longe vão os tempos em que os pezzenti natalinos se contentavam com um panetone. Se der panetone, tem que dar dinheiro também.

Sabem o que aconteceu? Fui fuzilado com os olhos, ele virou as costas e foi embora encher os pacová do vizinho. A mim não me convencem! Ah, sim! Também usam tática intimidatório-terrorista, com frases como: "Pois é, imagine se o lixo ficasse acumulado na porta da sua casa!", ou "Imagine se a correspondência não fosse mais entregue!". Há quem se intimide. Eu não. Minha resposta é idêntica para todos, sempre "na agulha": "Pois é, se isso acontecesse, você perderia o seu emprego". Tout court.

Ora, porra! Imagine se o operário que trabalha na fábrica de vassouras se arrogasse o direito de pedir caixinha de Natal aos varredores de rua. "Ah, seu varredor, imagine se eu parasse de fabricar vassouras, o que seria do senhor?". E pensem se o gráfico que trabalha na Casa da Moeda imprimindo selos, se o operários da refinaria da Petrobrás, se o operário de Itaipu, se os funcionários das estações de tratamento da Sabesp, se todos eles fizessem o mesmo?

Vocês precisam largar mão de ser hipócritas com demonstrações de pena desses trabalhadores!

Gerador de Comunicados à Imprensa da Coréia do Norte

"Pobrezinho do Elmo! É tão fofo!"

(Leia aqui o artigo original de Rob Beschizza)

Na semana passada, a Coréia do Norte anunciou o julgamento e a execução de Jang Sung, tio "traiçoeiro" de Kim Jong Un, através de um vigoroso comunicado à imprensa repleto de insultos grotescos e descrições floreadas dos malfeitos de Jang.

Mas você sabia que, no mesmo, dia, a República Popular condenou o Elmo à morte?


"Elmo é bonzinho, num mata o Elmo, não!"

É só brincadeira, crianças! Apresento a vocês o gerador de comunicados à imprensa da Coréia do Norte, que gera [em inglês] acusações totalmente fundamentadas no anúncio oficial da semana passada e várias outras declarações feitas ao longo dos anos pelos órgãos de imprensa oficiais da Coréia do Norte. Dá até para acusar seus amigos e publicar no Twitter e no Facebook a "notícia" da iminente execução deles! Atualize a página para gerar uma acusação oficial novinha em folha.

E tem mais: recentemente, a BBC publicou um artigo explicando por que os insultos oficiais da Coréia do Norte são tão exagerados. Eu também seria negligente se não mencionasse o pioneiro Gerador de Insultos Aleatórios da Coréia do Norte, criado pela NK News em 2005.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Arrogante? "That's my middle name, sir!"

Edvard Munch - A Montanha da Humanidade com o Sol de Zaratustra (1910)
Sei que elogio em boca própria é vitupério, amáveis leitores, mas, sou um tradutor extremamente competente, elogiado em verso e prosa por quem contrata meus serviços. Extremamente competente (e, por que não dizer, genial) que sou, me dou o direito de exigir o mesmo nível de competência de outras pessoas que se dizem tradutores, além de esculhambar quem se dispõe a assumir um trabalho de tradução e, excuse my French, cagam e sentam em cima.
Meu excesso de competência me põe a pensar por que cargas d'água as pessoas em geral se regozijam em tachar pessoas como eu de arrogante.

Como a verdade etimológica é libertadora, vamos buscar no latim clássico o significado de "arrogante". O adjetivo vem de arrogans, -antis, particípio presente do verbo arrogo (-as, -are, -avi, -atum). No sentido próprio, "pedir a mais", donde, na linguagem jurídica, temos o significado de "ajuntar", "associar". Esse sentido é abonado em Tito Lívio, Ab Urbe Condita, 7, 25, 11: cui unico consuli, (...) dictatorem arrogari haud satis decorum uisum est patribus ("ao cônsul único... os pais não julgaram conveniente associar um ditador"). Já no sentido figurado, temos "tomar (indevidamente) algo para si", abonado em Cícero, Brutus, 292: (...) (sapientiam) sibi ipsum detrahere, eis tribuere qui eam sibi adrogant. ("recusar a si mesmo (a sabedoria) e atribui-la àqueles que a tomam para si."). A base de arrogo, -are é o prefixo ad- ("para", "ao lado de", "junto") somado ao verbo rogo ("pedir", "propor").

O sentido figurado foi o que prevaleceu na linguagem popular, ou seja, seja, arrogante é o sujeito que se sente superior aos outros.

Mas qual é o problema de uma pessoa ser superior aos outros num aspecto ou vários da vida e ter plena consciência disso? Salvo melhor juízo, admitir é o primeiro passo para a redenção. Então, faria eu melhor em elevar aos píncaros a estultícia e incapacidade dos medíocres (ou seja, daqueles que estão no meio, que não se destacam)?

A amável leitora pode argumentar que, com essa atitude, busco narcisisticamente diminuir a concorrência que porventura crie alguma dificuldade honesta. Mas existe uma pequena falha nessa argumentação: excesso de humildade também faz mal.

"Humildade" vem do latim humilitas, -tatem, cujo sentido próprio é "pouca elevação", "baixa estatura" (cf. César, De Bello Gallico, 5, 1, 3), e por extensão, "mais próximo da terra" (humus, da raiz proto-indo-européia *dhghem-. Por outro lado, o termo húmus (que passou ao vernáculo por via erudita), é a matéria orgânica resultante da decomposição de animais e plantas para adubar o solo. O húmus libera vários nutrientes, além do nitrogênio.

O nitrogênio é um gás que ocupa 78% da atmosfera, ou seja, a grande maioria. Entretanto, o ser humano não respira nitrogênio!

Aproximadamente 20% da composição da atmosfera consistem em oxigênio. Em regiões muito poluídas, essa proporção diminui. Portanto, o oxigênio é relativamente raro, mas sua importância (ou seja, "competência") em relação aos outros gases é muito maior.

Então, vemos que o oxigênio é o competente, o destacado, o importante; já o nitrogênio é o medíocre. Se os gases falassem, o nitrogênio assacaria contra o oxigênio a pecha de de "arrogante", tendo, assim, uma excelente desculpa.

A inveja é o sentimento de ódio e ressentimento pela alegria e prosperidade do outro. Uma dorzita de cotovelo pode não ser de todo má, mas usá-la para passar recibo da própria incompetência denota um sentimento muito abaixo da humildade, um sentimento subterrâneo, infernal (etimologicamente falando) até.

A individualidade é uma conquista do ser humano. Procurar ser igual a todos, não se destacar "para não levar martelada" é atitude de comunista. A ambição é o único fator que promove as possíveis vitórias.

Portanto, quem impinge a outra pessoa o rótulo ed "arrogante" não passa de um péssimo jogador e um perdedor pior ainda.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Oportunidade para quem?

Tenho pensado bastante ultimamente sobre a idéia de “oportunidade”, e uma interação no Twitter hoje me levou a escrever sobre o assunto. Algumas pessoas da direta tentam defender o capitalismo argumentando que ele promove a “igualdade de oportunidades”. Esse argumento é péssimo. Explico.

Certos esquerdistas afirmam que, embora exista um abismo entre os "progressistas" e os conservadores sobre a questão da desigualdade de renda, é opinião unânime que não existe igualdade de oportunidades suficiente. Chegam aos píncaros de dizer (como já vi no Twitter tempos atrás): “Difícil entender como alguém pode discordar da vontade de igualar as oportunidades para todos”.

ORA, PORRA! Uma coisa é certa: a idéia de “igualdade de oportunidades” foi aceita por todos, desde Arthur Brooks até Milton Friedman.

Como é soez, serei voz discordante. Pensem como as coisas seriam se essa idéia fosse levada a sério:

  • Eu tenho as mesmas oportunidades que os filhos do Steve Jobs? Negativo. Pela premissa esquerdista, o governo tem a obrigação de tomar deles uma parte de sua herança e dá-la a mim.
  • Eu tenho as mesmas oportunidades que as filhas do Barack Obama? Negativo. Pela mesma premissa, o governo tem a obrigação de me proporcionar a mesma rede de relações que elas têm e terão.
  • Os filhos de uma parelha de imbecis têm as mesmas oportunidades que os filhos de um casal de gênios? Mais uma vez, negativo! Então, o que o governo deveria fazer? Não há como fazer com que uma criança fique mais inteligente por decreto. Exigiria o princípio da “igualdade de oportunidades” que ela roubasse o cérebro da criança inteligente? 
A “igualdade de oportunidades” é incompatível com a liberdade. A rigor, na prática, não há diferença entre a tentativa igualitarista de igualar os resultados e a tentativa de igualar as oportunidades. O que uma pessoa consegue na vida é a oportunidade de outra. O sucesso do pai é a oportunidade do seu filho. O sucesso de um empresário é a oportunidade de um futuro contratado. A única maneira de tentar igualar as oportunidades é igualar os resultados.

A triste ironia de tudo isso é que oportunidade decorre diretamente da liberdade. Quando um país é livre, todos têm a oportunidade de conquistar o sucesso. Embora algumas pessoas inevitavelmente enfrentem dificuldades maiores do que outras, ninguém pode impedir outra pessoa de conquistar o sucesso.

Quanto mais se promove a "igualdade de oportunidades", menos oportunidades cada um terá.

Mas tudo isso deixa uma questão sem resposta: o que é "oportunidade"?

Oportunidade se define como uma série de circunstâncias que possibilita que algo seja feito. Dou um exemplo: se um treinador ou professor de tênis estiver assistindo a um jogo meu e achar que tenho potencial para ser treinado e me tornar profissional (digamos que isso fosse possível na minha idade já avançada), isso será uma oportunidade. Entrar em uma determinada escola pode criar a oportunidade de estudar com um excelente professor. Herdar um milhão de reais pode ser a oportunidade de investir numa nova empresa.

Mas vejam só que interessante: a pessoa precisa ter uma determinada índole para aproveitar essas oportunidades. É necessário que a pessoa adote as habilidades, as práticas e os hábitos que conduzem ao sucesso numa determinada área da vida.

O treinador de tênis não faria nenhum bem para mim porque eu não estou em forma (minto: estou em forma... de quibe do Habib's). E mesmo que eu estivesse em forma, o resultado seria pífio porque eu não passei anos treinando tênis a sério (embora jogue todo fim de semana). Estudar na melhor escola do país não adiantará nada para um aluno relapso, primeiramente porque provavelmente ele não consiga a vaga e, mesmo que consiga por milagre, ele não terá como aproveitar ao máximo o que os bons professores ensinam se não se esforçar para melhorar como aluno. Andem pelos colégios de elite deste país e entenderão o que estou dizendo. Finalmente, nem mesmo herdar um milhão de dinheiros fará bem algum para uma pessoa que não consegue gastar 10 reais de maneira responsável.

Gosto de pensar no Bill Gates. Há quem diga que a maior parte do sucesso dele se deveu à sorte, por exemplo, à sorte de ter freqüentado uma das poucas escolas do seu tempo com computadores à disposição dos alunos. Mas o Bill Gates não era o único aluno dessa escola. A oportunidade só teve valor para ele porque ele escolheu, dia após dia, dedicar seu tempo a aprender a usar o computador, em vez de ficar largado na frente da televisão ou indo a baladas.

Certa vez, o Steve Jobs comentou que o sucesso da Microsoft se devia ao fato de Bill Gates ser um oportunista (cito de memória, não me lembro das palavras exatas). A questão é que o Steve Jobs usou o termo "oportunista" como elogio.

O Bill Gates enxergou um "conjunto de oportunidades" que “possibilitou fazer algo” e, então, agiu de acordo com essa avaliação. Outras pessoas foram expostas ao mesmo conjunto de circunstâncias e não viram uma oportunidade e/ou não fizeram nada com ela.

Uma oportunidade só tem valor para quem se prepara para tirar vantagem dela. Além disso, esse tipo de pessoa cria muitas das oportunidades que encontra na vida, quando não a maior parte delas.

Quem leu o livro Atlas Shrugged (A Revolta de Atlas) entenderá: não importa quantas oportunidades caiam no colo de um James Taggart: ele não vai conseguir aproveitá-las. Já uma Dagny Taggart transformará em oportunidade praticamente qualquer circunstância que encontrar.

Não, amável leitor, você não é responsável por todas as oportunidades da sua vida. E, é claro, algumas circunstâncias externas podem ser favoráveis e outras, desfavoráveis. Mas quem diz que é necessário redistribuir a riqueza para criar oportunidades está redondamente enganado. Num país verdadeiramente livre, o que essencialmente importa não é quantas oportunidades são dadas a uma pessoa, e sim se essa pessoa escolhe se tornar o tipo de pessoa capaz de aproveitar e criar as oportunidades.

Por outro lado, não faz sentido dizer que todos devem ter as mesmas oportunidades. "Oportunidade" é um conceito relativo, ou seja, é uma relação entre os objetivos da pessoa e uma circunstância que pode ou não ocorrer. Além disso:
  • nem todos têm os mesmos objetivos 
  • nem todos têm o mesmo conhecimento para reconhecer as oportunidades 
  • adquirir conhecimento é um ato voluntário 
  • o indivíduo só se preocupará em se destacar numa área de que goste muito, e nem todos gostam das mesmas coisas 
A idéia de igualar as oportunidades exige uma visão integral/sobrenatural/ditatorial da sociedade e das pessoas. É exatamente isso o que os esquerdistas pretendem quando falam em (re)distribuir isto ou aquilo.

Outro aspecto raramente abordado da "oportunidade" é que, para aproveitar uma oportunidade, é necessário reconhecer o "conjunto de circunstâncias" como algo que se possa aproveitar. É fácil ser "engenheiro de obras feitas" depois que algum gênio aproveita essas circunstâncias.

Para concluir, quero que vocês entendam que a grande virtude do capitalismo não é proporcionar “oportunidades iguais” às pessoas (seja lá o que isso signifique), e sim criar o melhor ambiente possível para aproveitar as oportunidades (quero dizer, para quem fizer a opção por aproveitá-las).

Mandela, o comunista

Nelson Mandela era comunista. Isso está fora de discussão. Embora a maioria das pessoas ache que essa inclinação ideológica não importa, ela está na própria essência de quem ele foi. Ele nunca criticou o comunismo. Ele nunca se desculpou por adotar o comunismo. Ele nunca pôs a nu a natureza destruidora de almas do comunismo. Nesse aspecto, Mandela foi como Robert Mugabe, o hediondo dirigente marxista do Zimbábue, mas não essencialmente ruim como Mugabe.

Mandela se tornou comunista porque precisava do comunismo para pôr fim ao domínio branco dos africâneres na África do Sul? Não. O comunismo não era necessário para combater o realíssimo legado racista do colonialismo europeu.

Na ex-colônia britânica da Rodésia, o bispo Muzorewa foi eleito, em 1979, primeiro ministro do que se tornaria a nação independente do Zimbábue, e esse religioso metodista negro foi aceito por negros e brancos. Em 1980, o comunista Mugabe, mediante o uso de violência exacerbada e intimidação, forçou a realização de novas eleições, vencidas por ele. O carniceiro Mugabe está no poder há 33 anos.

O bispo Muzorewa representava tudo o que se pode querer de um líder político negro. Ele foi a Israel em 1983 e conclamou o Zimbábue a estabelecer relações diplomáticas com aquele país. Muzorewa começou uma greve de fome quando Mugabe começou a eliminar toda a oposição política.

O comunismo é, ainda, uma das piores coisas que já aconteceu à África, e, como Muzorewa demonstrou, era claramente desnecessário à libertação dos negros. Na verdade, a esmagadora maioria das vítimas dos gangsteres comunistas negros africanos consistia em seus opositores negros que não eram comunistas, fato sobejamente comprovado pelos exemplos de países como Angola, Etiópia e Moçambique.

Ainda mais perverso no comunismo de Mandela é o fato de que o Partido Nacional, dos africâneres holandeses (paladino do racismo e da intolerância contra a minoria branca inglesa e seu Partido Unionista) era composto por bolcheviques fervorosos. O fato histórico é que os africâneres supremacistas brancos apoiaram o bolchevismo desde o início.

general James B.M. Hertzog, líder do Partido Nacional, afirmou, num discurso de novembro de 1919 em Pretoria (noticiado aqui):
"O bolchevismo, digo eu, é a vontade do povo de ser livre, governar a si mesmo e não se submeter a um invasor estrangeiro. Por que as pessoas querem oprimir e acabar com o bolchevismo? Porque a liberdade nacional significa a morte para o capitalismo e o imperialismo. Não temamos o bolchevismo. A idéia em si é excelente". (1)
Seu vice, Daniel F. Malan, afirmou, em 23 de janeiro de 1920, em Vryburg: "Os bolcheviques representam a liberdade, assim como o Partido Nacional" (2). Em 1922, o Partido Nacional formou uma "Frente Unida" com o Partido Comunista e o Partido Trabalhista. No Congresso do Partido Nacional em 1924, que ratificou o pacto entre o Partido Trabalhista e o Partido Nacional, Malan afirmou novamente que ambos "se opunham diametralmente ao domínio capitalista e monopolista e à exploração do povo".

Em 1989, Walter E. Williams escreveu um excelente livro, South Africa's War Against Capitalism ("A Guerra da África do Sul Contra o Capitalismo"), que demonstra amplamente que os dirigentes brancos africâneres do país haviam aceito em grande parte os princípios do socialismo radical. O comunismo, adotado por Mandela, era compatível com a odiosa supremacia branca dos africâneres, e, embora pouca gente tenha se dado conta, o comunismo sempre considerou a intolerância racial atraente.

O próprio Karl Marx era anti-semita e racista. Numa de suas cartas a Engels, ele escreveu sobre seu colega socialista Lassalle: 
"Agora está bem claro para mim (como também provam o formato da cabeça dele e a maneira como seu cabelo cresce) que ele descende dos negros que acompanharam a fuga de Moisés do Egito (a menos que sua mãe ou avó paterna tenham cruzado com um preto*). Agora, essa mistura de judaísmo e germanidade de um lado, e a estirpe negróide de outro, devem inevitavelmente gerar um produto peculiar. A impertinência do sujeito também é típica dos pretos*".
Carta de Marx a Engels em Manchester, 30 de julho de 1862.
Marx/Engels Collected Works, Volume 41, p. 388;

A maioria russa que dominou a União Soviética exterminou milhões de minorias, transformou o Cazaquistão num enorme aterro radioativo e instituiu o anti-semitismo que deixou toda uma classe de judeus, os отказник ("otkazik", rejeitados) implorando o direito de partir e se instalar em Israel. A China comunista é igualmente perversa, como bem podem dizer os tibetanos e os uigures.

O comunismo é a pior fé que já encontrou abrigo nos corações humanos. O fracasso da descomunização após a queda do Império Soviético, o esmagamento do levante dos estudantes na Praça Tiananmen e o peso esmagador das provas sobre os milhões assassinados pelos comunistas (hoje em dia, 100 milhões é uma estimativa conservadora, ainda muito pior do que o Holocausto) são os crimes morais mais destacados de nossa época.

As pessoas podem pensar em Nelson Mandela como um "bom comunista" e, talvez ele tenha sido, mas isso não é melhor do que chamar Albert Speer de "um bom nazista", Ambas as coisas são oxímoros perfeitos.

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(1) Hertzog, J.B.M. Die Hertzogtoesprake. Vol. 4. du Toit Spies; F.J., Krüger; D.W.; e Oberholster, J.J. Perskor (Org,), 1977, pp. 141-142. Tradução direta do africâner pelo autor deste artigo.

(2) Budlender, Geoff. "Civil Rights and the University", Pro Veritate, 15 de abril de 1973, p.21.

(*) No original, "nigger".

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Vamos definir o termpo "Capitalista"?

Você é a favor do capitalismo ou contra ele? Não dependeria a resposta da definição do termo? Se você, amável leitor deste blog, acreditar que o capitalismo consiste na corrupção maléfica, gananciosa e marginal da sociedade, assim como os abusos vistos na Argentina do papa Francisco, então será contra o capitalismo. O conservador não tolera o capitalismo-amigo, ou seja, a intervenção do governo na iniciativa privada.

A maioria dos eleitores (que anula o voto ou se abstém) tem idéias muito diferentes da sua. Pressupostos arraigados e definições muito variadas estão sendo expostas por um recente debate a respeito do Cristianismo, socialismo e capitalismo. A Exortação Apostólica do papa Francisco e a crítica feita por Rush Limbaugh revelaram diferenças gigantescas na percepção das pessoas sobre o significado real das palavras "capitalismo" e "socialismo".

Este pobre chelá das letras afirma, desde já, que a verdadeira definição de um capitalista é qualquer pessoa que põe em risco o seu capital (dinheiro, ferramentas, equipamentos, imóveis, etc.) sem nenhuma garantia de que fará dinheiro*, nem sequer de que conseguirá recuperar o capital investido, esperando conseguir dinheiro suficiente para pagar o custo do investimento e, depois, seguir em frente para conseguir lucrar. "Capitalista" também pode significar um defensor desse comportamento como seu sistema econômico preferido.

O capitalismo é a única abordagem capaz de fazer com que a humanidade prospere, especialmente os pobres e desvalidos, porque, num sistema de livre iniciativa, as empresas não podem obrigar ninguém a comprar seus produtos ou serviços. As empresas devem oferecer produtos ou serviços que levem benefícios à sociedade além do preço de compra. Caso contrário, o capitalista fechará as portas. Essa disciplina do mercado explica por que os planos de socorro do governo são nefastos (lembram do PROER?).

Apenas as operações que gerem um benefício líquido para a sociedade ocorrerão. As outras serão frustradas pela escolha dos consumidores. A liberdade é o ingrediente essencial dessa "mão invisível" mágica. Quando o governo sai em socorro de empresas incompetentes ou privilegia seus amigos, ele põe por terra o fator crucial do voluntarismo na compra. Naturalmente, se as empresas mentirem ou cometerem fraudes, as operações voluntárias e transparentes também cairão por terra.

Embora o observador inocente veja apenas o dinheiro batendo às portas do empresário, o empresário precisa fazer muito dinheiro apenas para recuperar o investimento inicial antes de conseguir algum "retorno'. Depois disso, qualquer "lucro" pode ser apenas uma renda modesta de que o empresário precisa para pôr comida na mesa da sua família, se vestir e ter um teto sobre a cabeça.

Portanto, a definição deste escriba do que é capitalismo faz com que o "capitalismo-amigo" não seja capitalismo coisa nenhuma. Ele é um problema grave e um mal terrível em si. Dizem que se a vitória é certa, então não há jogo. Se os políticos corrompem o mercado para favorecer seus cupinchas, estes não estão arriscando seu capital, porque o jogo é de cartas marcadas.

De acordo com vários mitos arraigados no inconsciente coletivo, a esquerda cristã e outros críticos do capitalismo acreditam que:

(1) Os capitalistas são (sempre) barões podres de ricos. Ou seja, pequenos empresários não podem ser capitalistas. Apenas as grandes empresas, apenas os muito ricos, são capitalistas. Uma pessoa bem próxima de mim investiu todas as suas economias para abrir uma loja de conveniência "sem bandeira" no interior de São Paulo muitos anos atrás. A família dele nunca teve muito dinheiro, mas, de repente, ela começou a ganhar dinheiro feito água, principalmente porque ela tinha idéias brilhantes de marketing e trabalhava com afinco, "dormindo tarde e acordando cedo". Os filhos ajudavam. Acontece que uma tempestade brava veio e o teto da loja desmoronou porque a construção não era das melhores. Os defeitos, imperceptíveis pela aparência externa, venceram. Normalmente, nenhuma construção de alvenaria decente desmorona por causa de uma tempestade, que é algo esperado. Essa pessoa ficou financeiramente arrasada. Ela processou o ex-proprietário do imóvel, mas perdeu, numa decisão judicial ridícula. Ela arriscou suas economias, trabalhou com dedicação, mas, mesmo assim, perdeu tudo. Entretanto, essa pessoa não era um capitalista segundo a esquerda cristã, pois tinha uma pequena empresa, não era um magnata com jatinho, mansão, iate, "e a porra toda".

(2) Os capitalistas são gananciosos. Essa definição de "capitalista", o conceito em si, exclui qualquer possibilidade de doar aos pobres ou a instituições beneficentes. Um capitalista não procura apenas conseguir riqueza, mas também acumulá-la sem finalidade alguma. Milhões de brasileiros (eleitores) acreditam que fazer doações aos pobres é algo completamente incoerente com o fato de ser um capitalista. Naturalmente, a maioria das instituições beneficentes destepaiz foi financiada por capitalistas muito ricos. Querem um exemplo, Antônio Ermírio de Morais.

(3) Muita gente acredita piamente que um capitalista é alguém que contrata funcionários. Karl Marx acusava os capitalistas de explorar os trabalhadores, e muitos brasileiros aceitam uma análise marxista da Economia. Eu sou um tradutor autônomo que trabalha em casa. Invisto em equipamentos de informática, software, dicionários (online e em papel), tenho despesas altas para manter uma estrutura de apoio que me permita dedicação total ao trabalho, etc., e ofereço meus serviços a clientes particulares e agências de tradução. Eu não posso ser considerado um capitalista porque não exploro nenhum trabalhador. Preciso virar madrugadas de vez em quando para manter toda essa estrutura, que posso perder se não conseguir um volume de trabalho suficiente. Eu sou meu único funcionário. Mas um capitalista é só aquele que explora os trabalhadores.

O primeiro papa, Pedro, tinha um empreendimento de pesca com André e os filhos de Zebedeu. Eles precisavam pescar muitos peixes apenas para empatar o custo de vários barcos, redes, etc. Mas o cristão esquerdista argumenta que, se eles não exploravam trabalhadores contratados, não eram capitalistas. Na verdade, já houve quem me dissesse que apenas a maneira como Karl Marx define um capitalista é válida, porque Karl Marx fez uma crítica ao capitalismo.

(4) Os capitalistas são "malvados". Muitos eleitores consideram o personagem Tio Patinhas, de Walt Disney, como o parâmetro cultural de um capitalista, mercê, principalmente, de um livrinho nojento dos "intelequituais" Ariel Dorfman e Armand Mattelart, intitulado Para leer al Pato Donald. Essas impressões são, obviamente, imprecisas, indefinidas, nebulosas e irracionais. No entanto, as pessoas pressupõem que ser um capitalista significa, obviamente, ser uma pessoa má.

Na verdade, vários pressupostos impulsionam comportamentos e votos do público, especialmente de eleitores que prestam muito pouca atenção à política (às vezes chamados de "eleitores alienados"). Entender o que esses eleitores não entendem é o primeiro passo para tentar recuperar uma certa racionalidade nos debates e na política do Brasil.

(*) Eu uso a expressão "fazer dinheiro" não como um decalque semântico-lexical da expressão correspondente making money em inglês, e sim por considerar que "ganhar" é um verbo que, usado nesse contexto, não pressupõe o componente "esforço". Nem funcionário público nem o assalariado mais inepto "ganham" dinheiro. Food for thought.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Momento Musical - Led Zeppelin - Led Zeppelin III


Neste começo de noite, sou surpreendido com um tuíte avaliando o disco Led Zeppelin III como "certamente o melhor álbum do universo" Não me levem a mal. Este disco de 1970 não foi o começo do fim, apenas um monte de experiências que não deram certo.

A melhor música do disco, sem dúvida, é Since I've Been Loving You, seguida por Immigrant Song. A pior, de longe, é Hats Off To (Roy) Harper.

Bem, vou ser bastante chato (como sói acontecer)! Dois anos depois de gravarem Babe I'm Gonna Leave You, eles pegaram o jeitão folk dessa música e usaram em todo este disco, que acabou se tornando um favorito dos "fãs de elite", para meu desgosto. Provavelmente a dupla Page e Plant estava ficando de saco cheio de precisar tourear o tempo todo os processos movidos pelos antigos bluesmen. Não é que esses processos tenham curado P&P da mania de se apropriar dos créditos das composições (tenho quase certeza de que aquele empresário gordo deles, o Peter Grant, teve muito a ver com a idéia), mas talvez eles tenham incentivado a dupla a compor mais material próprio: o disco Led Zeppelin III é, sem dúvida, maduro nesse aspecto, apenas com algumas picaretagens óbvias como Hats Off To (Roy) Harper ou Since I've Been Loving You. Infelizmente, isso só faz o maior problema ficar ainda maior. Os caras simplesmente não tinham a magia para compor e transformar nenhuma das suas composições mais "melódicas" em verdadeiros clássicos eternos. Eles compõem melodias bastante acústicas que já existem (não posso acusar Tangerine nem That's The Way de não serem melódicas), mas não consigo sentir aquela "pegada mágica" nessas músicas. É bem possível que o maior obstáculo não seja nem mesmo a maneira como eles tocam ou a produção, mas sim a voz do Robert Plant, aquela entonação "chorona" e pretensiosa que ele consegue colocar até na mais sensível das baladas. Seja como for, existe, sim, um problema aqui, só é difícil distingui-lo com clareza. É um problema grave que me impede de usar as palavras "baladas místicas majestosas" e substituí-las por "merda folk chata pra cacete". Enfim, acho que até os fãs mais empedernidos do Led Zeppelin não vão discordar de mim neste ponto, porque nada aqui sequer chega perto da potência e da força emotiva de Babe I'm Gonna Leave You.

Para mim, o disco tem um único clássico absoluto: o blues comprido, lento e enrolado Since I've Been Loving You, e devo dizer que a melodia também foi "quibada" (no momento, a música que me vem à mente é Double Trouble, do Otis Rush, mas tenho certeza de que houve músicas anteriores com sonoridade ainda mais parecida). Mesmo assim, as seqüenciazinhas de acordes melancólicas entre as estrofes bastam para redimi-la totalmente. Basta o Robert cantar, em vez de gaguejar ("...working from seven, seven, seven to eleven eleven eleven..." - isso era pra ser realista?) e teremos uma música digna do disco Led Zeppelin I. Porra, eu até gosto da pegada dos solos de blues da música, apesar de ser o tipo de solo roubado pelo hair metal dos anos 80 e que, desde essa época, virou uma massa amorfa e genérica que não vale nada.

Infelizmente, o resto do material vai do "bonzinho" ao "passável", descambando para a "puríssima merda". A única música realmente boa desse resto é o hit radiofônico Immigrant Song, um metal acelerado com vocais que lembram Black Sabbath e uma letra à la viking rock ('Valhalla, I am coming!', pelamordedeus!). O riff é bom, rápido e potente, mas a música em si inspirou tantas imitações "metálicas" de dar enjôo que eu não consigo ouvi-la sem que me venha à mente o hair metal dos anos 80 - de novo! Ouvindo as músicas desse disco, fico pensando como é que tanta gente acha que o Led Zeppelin é uma banda diferenciada porque ninguém jamais tentou (ou conseguiu tentar) copiar seu som. Felizmente, essa faixa só tem uns dois minutos e meio (a parecidíssima Achilles' Last Stand tem 10 minutos, meu saco!). De qualquer forma, se quiser ouvir um bom viking rock, experimente 'No Quarter'. Essa é a única música com um ambiente realmente "nórdico".

O outro rock, Celebration Day, tem uma pegada tão paranóica que me deixa confuso e mexido. A música não é ruim, só não é um clássico: Communication Breakdown é muito mais eficiente na mensagem. Mas não deixo de gostar do estilo do Jimmy Page nesta música, tocando um turbilhão de som como nunca tocou (talvez o riff seja um dos mais complexos da história do LZ, e um dos mais imprevisíveis). E Out On The Tiles não passa de um boogie genérico e descartável, uma porcaria que bem podia ficar para o Aerosmith ou o Nazareth.

O resto do disco é quase totalmente acústico ou de base acústica, e é aqui que o elemento "gosto adquirido" entra em cena. Há quem goste de todas essas músicas, há quem escolha apenas algumas, e há quem simplesmente as desconsidere. Eu fico dividido. Cheguei a um ponto em que nenhuma dessas músicas me desagrada. Talvez a única exceção seja a experiência fracassada de Friends. Essa música não é exatamente uma imitação de As You Said, do Cream, pois a melodia é diferente, mas ela usa o mesmo princípio, ou seja, a interação entre guitarra acústica e violinos com distorção especial (e muito feia, isso para não falar do "choramingo" do Robert Plant o tempo todo). Às vezes eu não me importo com a "feiúra" numa música, mas esse não é nenhum tipo especial de feiúra. É só feiúra "básica" e pronto, e meus ouvidos não suportam.

Há muita gente por aí que se diz fã de Gallows Pole, mas essa música não passa de um folk neutro que chama a atenção por causa de fatores secundários como o arranjo, os vocais e quejandos. Quem gosta do estilo do Robert Plant de cantar vai gostar da música. Se o Bob Dylan cantasse, provavelmente eu também gostasse; do jeito que foi gravada, ela não fede nem cheira pra mim. O Robert Plant canta a letra pessimista e realista como se estivesse cantando sobre o Gollum e o capiroto.

A maior dificuldade é avaliar o valor de That's The Way e Tangerine, as duas baladas obviamente melhorzinhas do disco. Como eu disse, não posso me queixar das melodias, mas alguma coisa nessas músicas me incomoda um pouco. Sintomaticamente (e acho que tem muito a ver com o Robert Plant), eu não acho a voz dele adequada para essas baladas, mas com certeza isso não é lá muito objetivo. Provavelmente eu tenha que concordar com quem acha That's The Way uma música digna de ouvir, ao passo que Tangerine continua pecando pelo excesso de sentimentalismo barato.

Outra coisa que me incomoda de maneira geral é que todas essas músicas mostram o Jimmy Page em sua melhor forma na guitarra acústica, mas todas elas criam o mesmo estado de espírito e o mesmo ambiente de "majestade sombria", e isso faz com que o disco seja muito monótono. As melodias são, em geral, boas, mas todas levam ao mesmo lugar: "reverenciai as majestades das trevas". Ah, sim: os vocais do Robert Plant ficam cada vez mais desagradáveis (o final de Gallows Pole, por exemplo, é simplesmente insuportável). Mesmo os fãs precisam admitir que o estilo vocal imutável dele pode encher muito o saco de vez em quando. Funcionou bem da primeira vez, mas por que ele precisa repeti-lo ad nauseam?

O aspecto realmente desagradável do disco é a última faixa, Hats Off To (Roy) Harper. Até hoje não consegui atinar para o que o verdadeiro Roy Harper (um respeitável cantor de blues/folk) tem a ver com a música. Talvez ele tenha sido convidado a cantá-la, como Roger Waters fez em Have A Cigar, quem sabe? Por falar nisso, talvez ele tivesse feito bem em aceitar, porque a música em si é uma cópia bastante fiel de Bring It On Home, com os mesmos vocais afetados e a produção confusa. É um blues, claro, mas um blues muito ruim, talvez um dos piores de todos os tempos.

Mas tenho uma nota positiva sobre o disco. Por muito melhor que o disco seguinte viesse a ser, Led Zeppelin III pelo menos é melhor no fator "inteligência". Por um lado, ele não tem nenhum "hino do rock" óbvio como Black Dog; por outro lado, ele dá uma abaixada no aspecto pseudo-místico da carreira da banda, pois todo o material é bastante realista, musiquinhas de hobbits. Ele é berrante e pretensioso, logicamente, mas tenho de dar algum crédito à banda por escrever algumas letras decentes e conseguir se apresentar como uma banda "pensante", racional e positiva, não como um bando de seguidores drogados de Aleister Crowley em busca de uma foda.