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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pagãos, um papa e a queda de Sauron: como entender o Ano Novo?

Alguns ateus, muçulmanos e cristãos fundamentalistas gostam de reclamar e chiar pelo fato de que as comemorações de Natal e Páscoa são “pagãs.” Eles estão, ao mesmo tempo, certos e errados. Eles têm razão na medida em que a nossa cultura ocidental tem raízes profundas nas culturas pré-cristãs da Europa. Mas eles também estão redondamente enganados, pois os primeiros cristãos, como os judeus antes deles, consideravam sua religião um contraste e uma correção da cultura pagã predominante à época.

Devemos ser iconoclastas culturais e expurgar todos os vestígios de paganismo do mundo moderno? Devemos abandonar nossas árvores de Natal e jogar no lixo os ovos de Páscoa? Se assim for, deveriam os anglófonos, por exemplo, adotar os nomes cristãos dos dias da semana em detrimento da homenagem às divindades pagãs Tiu (Tuesday), Odin (Wednesday) Thor (Thursday) Frige (Friday) e Saturno (Saturday), isso para não falar do culto ao sol e à lua (Sunday e Monday)?

A "purificação cultural" deveria continuar, exigindo que os nomes do meses do ano fossem expurgados de suas absurdas associações demoníacas e pagãs! Fora com Janus, o deus de duas caras de janeiro! Fora com Marte (de março), com a deusa Maia (de maio) e com Juno! Dia de Ano-Novo? O horror, o horror! A comemoração do início do ano em janeiro é pagã "do primeiro ao quinto"!

O conservador nunca deve ser um iconoclasta. Ele afirma que o passado é o alicerce do futuro. Nossa cultura ocidental está profundamente arraigada nas civilizações clássicas da Grécia e de Roma, mas também nas culturas pré-cristãs da Europa. Os costumes ancestrais se fundiram, desenvolveram e adaptaram às mudanças dos tempos, mas não devem ser desprezados simplesmente por serem pagãos ou por serem do passado. Um bom exemplo de como um costume de origem pagã se transformou numa comemoração hodierna é o Dia de Ano-Novo.

Os primeiros registros de uma comemoração de Ano-Novo datam de 2000 a.C., na Mesopotâmia. Depois, na época do patriarca Abraão, o novo ano era anunciado não no meio do inverno (do hemisfério norte), e sim no equinócio de primavera (também do hemisfério norte), em meados de março. Em consonância com esses costumes já ancestrais, o primeiro calendário romano tinha dez meses, e também reconhecia o mês de março como o início do ano. Daí os nomes dos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro: contando a partir de março, eles eram o sétimo, oitavo, nono e décimo meses.

Numa Pompílio, segundo rei de Roma, acrescentou janeiro e fevereiro ao calendário e, em 153 a.C., surgiu o primeiro registro da comemoração do Dia de Ano-Novo no primeiro dia de janeiro. A mudança foi decretada por motivos civis (os cônsules iniciavam seu mandato nessa época), mas muita gente continuava reconhecendo o mês de março como o início do ano.

Quando Júlio César substituiu o antigo calendário lunar em 46 a.C. por um calendário solar, ele também formalizou o início de janeiro como Dia de Ano Novo. Com a queda do Império Romano e a transição da Europa para a nova religião e o domínio do cristianismo, os vestígios da cultura pagã foram expurgados. O Dia de Ano-Novo no início de janeiro foi oficialmente eliminado pelo Concílio de Tours em 597 e, em toda a Europa, o início do novo ano passou a ser comemorado em várias épocas: Natal, Páscoa ou, a data mais significativa, 25 de março.

A data de 25 de março não apenas guardava relação com as comemorações mais antigas do novo ano no equinócio de primavera, mas, no calendário cristão, 25 de março corresponde à Anunciação, ou seja, o anúncio do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria de que ela geraria um filho. A data de 25 de março foi determinada pela crença judaica de que os grandes homens eram concebidos no mesmo dia do ano em que morreriam. Jesus Cristo morreu em 25 de março (segundo reza a teoria), ou seja, ele foi concebido em 25 de março. Por acaso, essa é, também, a origem da data tradicional do Natal – nove meses a contar de 25 de março.

Os cristãos da Idade Média achavam que o início da vida do Filho de Deus no útero da Virgem Maria era o início da obra de Deus entre os homens, a restauração e a redenção do mundo e o início de uma nova Criação. Portanto, era teologicamente adequado que o dia 25 de março, ou o dia da Anunciação da Virgem Maria, fosse comemorado como o Dia de Ano-Novo. E assim foi por mil anos.

Então, em 1582, o papa Gregório XIII reformou o antigo calendário de Júlio César. Em virtude de uma imprecisão de cálculo, a data da Páscoa era móvel, e o papa decidiu torná-la fixa. Uma parte da reforma consistia em restabelecer o dia 1º de janeiro como Dia de Ano-Novo. Por considerar essa reforma uma ousadia do papa, a Igreja Ortodoxa Oriental rechaçou a reforma. Por considerar essa reforma não apenas uma ousadia do papa, mas também a restauração do paganismo, os Protestantes também rechaçaram o novo calendário gregoriano. Os ingleses só adotaram o novo calendário em 1752. Os gregos mantiveram o calendário antigo até 1923. Os monges do Monte Atos ainda mantêm o calendário juliano.

O amável leitor deve estar se perguntando por que eu mencionei no título do artigo a queda de Sauron, inimigo do Senhor dos Anéis? J. R. R. Tolkien foi muito astuto na maneira como urdiu o simbolismo cristão na trama de seu mito épico. Ele registra as datas dos grandes acontecimentos no ciclo do anel, e descobrimos que é em 25 de março que o anel do poder é lançado nos fogos da Montanha da Perdição e, assim, a destruição de Sauron  anuncia um novo começo para a Terra Média. Dessa forma, Tolkien assina embaixo da tradição cristã medieval de que o dia 25 de março é o verdadeiro Dia de Ano-Novo.

Quem comemorou a entrada do novo ano nesta quarta-feira deve ter em mente que, por mil anos, essa comemoração não foi uma simples data em vermelho no calendário, mas sim um acontecimento cultural e religioso que vinculava a renovação da natureza com a redenção do mundo.

sábado, 30 de novembro de 2013

Reações ao artigo sobre união entre pessoas do mesmo sexo, ou "o curralzinho nunca descansa".

Eu sabia! Era só eu tocar num assunto mais "sensível" (e menos técnico) que o curralzinho esquerdista se abespinhou. Sim, caros, estou falando do meu artigo de quarta-feira passada sobre união entre pessoas do mesmo sexo.

Precisei gastar o que restou do meu parco salário açambarcando o estoque de aguarrás, creolina e Q-BOA™ do mercadinho do bairro para higienizar minha caixa de comentários destrutivos. É ÓBVIO que não vou dar palco pra maluco esquerdista dançar no meu blog. Que vão fazê-lo lá no blog da "Sylmara Melendez", do Saka e quejandos.

Contudo, um comentário bem-educadinho (mas não menos mal-intencionado) que chegou merece esmagamento coram populo. O busílis da questão é que a pessoa me "acusa" de ter embasado boa parte da minha argumentação no estudo do Mark Regenerus sobre o assunto em questão. No início, para me refutar, ela lança mão de uma crítica da Amy Davidson ao estudo, publicada na esquerdíssima New Yorker em junho de 2012.

Eis o trecho que ela pinçou (devidamente traduzido, com grifo meu. Quem quiser, leia o original):
“(...) se este estudo mostra alguma coisa, não é o efeito da criação de filhos por gays, mas o efeito da ausência de criação. Os números são tão toscos que é difícil generalizar, mas é possível imaginar de modo lógico que existem, enterrados neles, história de pais que se foram ou que foram separados de seus filhos, ou lares que foram desfeitos, porque, 18 ou 39 anos atrás, a primeira experiência de alguém na vida adulta envolveu um relacionamento heterossexual, mesmo que ele fosse insustentável. Segundo Saletan, o estudo “não documenta o fracasso do casamento entre pessoas do mesmo sexo, e sim o fracasso de lares reprimidos, desfeitos e instáveis que antecederam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já sabemos que há vantagens na estabilidade, e isso é o que sempre disseram os defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Se a única questão for a maneira de ajudar os filhos, casamento entre pessoas do mesmo sexo continua sendo uma resposta sólida. Basta olhar por aí: mesmo com ferramentas inadequadas como as que foram usadas nesse estudo, é possível encontrar crianças solitárias e, também, pais solitários. Além disso, podemos encontrar famílias que se mantêm unidas pelo respeito e pelo amor, e merecedoras de ambos”.
O salsinha levógiro prossegue num tom ameaçadoramente tolerante (grifo meu):

"Não tenho esperança de que isso faça você mudar de idéia. Só estou dizendo que talvez não seja muito inteligente confiar tanto assim nos dados do estudo de Mark Regnerus".

Já que "o criaturo" (ué, se "presidenta" pode...) recorreu ao expediente de argumentar com argumentos alheios, vou me dirigir ao texto da Amy Davidson, não a ele.

O trecho que negritei resume bem tudo o que há de errado com os mores contemporâneos. O simples de a autora usar o termo “primeira experiência (...) na vida adulta” para descrever o casamento é lamentável. As gerações mais recentes são tão infantis a ponto de não compreender o significado de seus votos de casamento? Aparentemente, a resposta é "sim".

Quanto ao uso do termo "lares 'reprimidos'" (no original, closeted, ou "no armário"), essa é uma maneira politicamente correta e muito esquisita de dizer “bissexuais e homossexuais que tentaram levar uma vida dupla, portanto prejudicando a si mesmos e às suas famílias”. É a mesma estratégia da novilíngua politicamente correta, pela qual o flagelo dos sacerdotes homossexuais da Igreja é magicamente transformado num “escândalo de pedofilia” em vez de um escândalo homossexual, o que claramente é quando homens violentam homens e meninos.

Vejam este outro mimo do texto da Amy Davidson:
Basta olhar por aí: mesmo com ferramentas inadequadas como as que foram usadas nesse estudo, é possível encontrar crianças solitárias e, também, pais solitários. Além disso, podemos encontrar famílias que se mantêm unidas pelo respeito e pelo amor, e merecedoras de ambos.
Mais uma vez, um caso clássico de moral dupla, pois pressupõe uma definição relativizada de família, amor e respeito. Na nossa sociedade, famílias desfeitas e divórcios passaram a ser tão normais que ninguém mais se envergonha disso. Passamos da empatia e da misericórdia (que pressupõem reconhecer que ocorreu uma tragédia moral) para o incentivo e a tolerância de adultos infantilizados, incapazes de estruturar famílias (o que exige a supressão da consciência moral).

Todos, hoje, podem dizer que conhecem uma família desfeita ou que têm amigos homossexuais, ao passo que as famílias tradicionais rareiam. Em vez de identificar essa situação como uma crise, as pessoas a justificam e incentivam.

Outro trecho do comentário, desta vez de "próprio punho":

Acho que você está confundindo a necessidade dos filhos de ter “papai e mamãe” com aquilo que (sic) eles realmente precisam de seus pais (seja qual for o nome). Num mundo ideal, as crianças precisam, se possível, de dois pais, porque dois, por razões práticas, são normalmente melhores do que um, e as crianças precisam de modelos de gênero, que elas podem encontrar tanto dentro quanto fora da família imediata. Principalmente, as crianças precisam de educação, apoio e amor, que devem existir no dia-a-dia (é claro que disciplina e estrutura também fazem parte). Filhos criados por casais homossexuais (sic!) podem ter tudo isso, o que, ao menos para mim, é muito mais importante do que o fato de que eles terão que abandonar a terminologia tradicional de “papai e mamãe”. Se mães solteiras (ou até mesmo enviuvadas) podem criar e criam muito bem seus filhos, e se pais solteiros (inclusive enviuvados) podem criar e criam muito bem suas filhas, não vejo por que casais do mesmo sexo não podem proporcionar uma boa criação.

Deixando de lado os dados estatísticos que demonstram claramente que lares de pais e mães solteiros são incapazes de criar bem seus filhos (como provam especialmente os índices de criminalidade), há uma razão totalmente lógica para as crianças precisarem de pais e mães presentes, e, sobre o assunto, recomendo a leitura do livro "A Arte de Amar", de Erich Fromm, que é apresenta essa lógica de maneira sucinta e acessível.

Sobre as viúvas e os viúvos, nenhuma pessoa de bem se empenha em viver sozinha, assim como nenhuma pessoa de bem se empenha em se divorciar. A tendência de pinçar lares de pais solteiros e dizer “eles estão se virando bem, portanto esse pode ser um modelo de famílias” decorre da estranha tendência esquerdista de tratar todo e qualquer forma do ideal da família tradicional como um insulto à integridade do amor de uma mãe solteira pelo seu filho.

Acidentes e circunstâncias podem levar as pessoas para mais perto ou mais longe do ideal, mas não adianta nada fingir que essas situações serão o ideal.

Para não me tacharem de inflexível, vamos admitir que, se dois homossexuais achassem um bebê numa ilha deserta, o bebê se sairia infinitamente melhor se fosse criado por eles em vez de ser deixado à míngua, assim como é melhor ter só o pai ou só a mãe em vez de nenhum deles. Mas esses não são ideais pelos quais devemos nos empenhar. Pais solteiros devem tentar encontrar um cônjuge, e os homossexuais, embora possam ser bons tios/tias, não têm como ser bons pais, caeteris paribus.

Percebo que essa discussão toda demonstra o estrago que a propaganda homossexual já causou na sociedade, pois, em termos de família, fomos reduzidos ao debate sobre quem devem ser os pais, esquecendo-nos de que uma das grandes tragédias das famílias desfeitas, das famílias uniparentais, etc. e da vida moderna em geral (mesmo quando pai e mãe estão presentes) é a falta de tios, tias, primos, avós, etc.

Uma família é muito mais do que apenas os pais, e os filhos sofrem se crescerem sem todos os seus componentes. Se os homossexuais não tivessem seqüestrado o debate público, talvez estivéssemos debatendo maneiras de fortalecer a economia para que as famílias não precisassem viver separadas e distantes e pudessem ter contato com maior freqüência do que em datas comemorativas ou velórios.