sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O Problema dos Direitos dos Animais

Eu adoro animais, e me solidarizo profundamente com os argumentos que defendem o tratamento humanitário dos animais. Mas a questão moral de como devemos tratar os animais é uma questão diferente e muito mais ampla do que a questão das obrigações morais que deveriam existir em termos de proteção dos animais. Por exemplo, normalmente é imoral mentir para um amigo, mais isso não implica direitos juridicamente tutelados nem proteções. Da mesma forma, é imoral pregar um gato na parede, mas isso não justifica uma obrigação legal de não cometer uma monstruosidade dessas. Eu acho que as pessoas que apóiam que se conceda algum tipo de proteção jurídica aos animais se baseiam exatamente nessa confusão entre a preocupação com o bem-estar dos animais e uma base sólida para a concessão de direitos.

Na verdade, acho que a base correta dos direitos individuais (e me baseio na teoria dos direitos formulada por Ayn Rand) exclui a extensão dos direitos ou de salvaguardas jurídicas aos animais. Quem tiver curiosidade para conhecer essa teoria, consulte a dissertação de Ayn Rand “Man's Rights” no livro The Virtue of Selfishness. Este meu artigo simplesmente descreverá essa teoria e, depois, a utilizará para refutar os argumentos favoráveis à obrigação moral de estender direitos aos animais.

Argumentos favoráveis à defesa dos direitos dos animais

Os dois tipos principais de argumentos expostos em favor dos direitos dos animais vêm principalmente de dois filósofos: Peter Singer e Tom Regan. Com poucas exceções, os argumentos filosóficos encontrados nos periódicos de Filosofia na Internet seguem mais ou menos os argumentos expostos por Singer ou Regan (por exemplo, o blog “Animal Ethics“ de Keith Burgess-Jackson). Portanto, este artigo se concentrará nas idéias essenciais dos argumentos deles.

Singer é filósofo australiano polêmico e de triste fama que, atualmente, é professor em Princeton. Ele é a inspiração intelectual de muitos grupos de defesa dos direitos dos animais (e de grupos ambientalistas), e escreveu diversos livros e artigos sobre os direitos dos animais, entre eles o livro Libertação Animal, de 1975. Ele também é famoso por seu trabalho em outras questões sobre Ética, inclusive eutanásia, fome e aborto. E sua indicação como docente em Princeton suscitou enormes protestos por causa de suas opiniões favoráveis à morte de certos tipos de recém-nascidos gravemente incapacitados.

Regan escreveu vários livros amplamente usados sobre moral e pensamento social, além de inúmeros artigos sobre direitos dos animais e assuntos correlatos. Seu argumento é longamente exposto em seu livro The Case for Animal Rights, de 1983.

Regan e Singer argumentam para chegar à mesma conclusão: uma mudança radical na forma como os seres humanos tratam os animais, principalmente através da extensão de salvaguardas jurídicas amplas a pelo menos alguns animais. Entretanto, eles chegam a essas conclusões por vias diferentes. O método de Singer tem por base a filosofia moral do utilitarismo e preocupações sobre igualdade, ao passo que a abordagem de Regan concentra-se no tipo de valores que animais e humanos possuem.

O utilitarismo é uma teoria moral que define o bem como o que eleva ao máximo a felicidade ou o prazer geral no mundo e reduz a infelicidade e o sofrimento gerais. Portanto, o mal é o que não consegue aumentar a felicidade o que efetivamente aumenta a infelicidade geral.

Os utilitaristas sempre hesitaram ou não conseguiram apresentar uma defesa dos direitos individuais. Afinal, os direitos, enquanto princípios que protegem certos tipos de ações, podem interferir no aumento máximo da felicidade geral e na redução do sofrimento geral. Por exemplo, proibir tipos perigosos de drogas como o ecstasy ou as metanfetaminas pode ser considerado a melhor decisão de acordo com o utilitarismo porque ela diminui o sofrimento causado pelo uso dessas drogas. Entretanto, essa proibição vai de encontro aos direitos individuais de liberdade e propriedade. Portanto, o utilitarismo põe por terra a noção dos direitos e se concentra no aumento da felicidade geral.

Portanto, como utilitarista, Singer não tem interesse em propor uma teoria dos direitos como tal, preocupando-se principalmente com o tratamento adequado dos animais. Ele se refere à sua posição como “libertação dos animais” em contraponto aos “direitos dos animais”. Contudo, é possível considerar a posição de Singer como a de defesa dos direitos dos animais – mas de maneira abreviada – porque ele não simplesmente expõe recomendações éticas, mas também defende princípios e regras que demarcam as salvaguardas jurídicas adequadas para animais e seres humanos. Por isso, me referirei à posição de Singer como uma posição favorável aos direitos dos animais.


O Argumento dos Humanos Marginais

Como praticamente todos os outros defensores dos direitos dos animais, Regan e Singer dependem do argumento conhecido como “argumento dos humanos marginais”, que começa com a seguinte observação: Existem seres humanos paradigmáticos normais; eles têm características e capacidades nas quais pensamos quando pensamos em um ser humano: capacidade de raciocínio, reações emocionais normais, e assim por diante. Mas existem aqueles que não se encaixam nesse paradigma – os humanos marginais – que carecem de algumas dessas capacidades (ou de todas elas). Entre eles estão os lactentes, crianças pequenas, pessoas com deficiência mental grave, pessoas em estado de coma permanente e, provavelmente, os senis.

O argumento é mais ou menos este: Se os seres humanos adultos normais têm direitos por serem seres racionais, ergo, de acordo com o argumento dos humanos marginais, os lactentes e as pessoas com deficiência mental grave não podem ter direitos porque não são capazes de raciocinar. Portanto, ou a capacidade de raciocínio não é a única base dos direitos, ou esses humanos marginais não têm direitos.

Aparentemente, isso coloca o defensor dos direitos em uma situação complicada. Ele pode refutar a idéia de que os humanos marginais têm direitos e, portanto, devem ser tutelados pela lei contra ações prejudiciais e maus-tratos; ou deve mudar a definição do alicerce dos direitos para que ela inclua os humanos marginais e, de “bônus”, pelo menos alguns animais superiores.

Esse problema fica evidente no seguinte dilema de Singer: “Se não rechaçarmos a crença de que é errado matar seres humanos com deficiência intelectual grave para que sirvam de alimento, então devemos rechaçar a crença de que não há problema em matar animais no mesmo nível de desenvolvimento mental para a mesma finalidade” (Peter Singer, “Animals and the Value of Life”, Matters of Life and Death,Nova York: McGraw Hill, 1993, p. 306).

Ou aceitamos algum parâmetro — como o raciocínio ou a inteligência — como critério para os direitos e aceitamos que os lactentes e os deficientes mentais graves podem ser tratados da maneira como tratamos macacos ou porcos, ou aceitamos que os direitos não se limitam aos humanos e que os direitos também podem ser atribuídos pelo menos a alguns animais. Nil est tertium.

Alguém pode se dispor a engolir sapo a respeito do tratamento dos humanos marginais e aceitar que eles podem ser tratados como tratamos os animais não-humanos. Contudo, a maioria das pessoas não está disposta a dizer isso e, provavelmente, verão essa conclusão como um indício de que algo está errado com a teoria dos direitos que se apresenta. Se a teoria permitir o infanticídio ou algo semelhante, parece ser mais inteligente rechaçar ou rever a teoria dos direitos do que aceitar esse resultado.

Em resumo, a finalidade do argumento a respeito da posição dos humanos marginais é demonstrar que as teorias tradicionais sobre direitos não conseguem estabelecer que todos os seres humanos, inclusive os casos marginais e limítrofes, têm direitos. Isso, então, abre espaço para as novas teorias apresentadas por Regan e Singer, as quais incluirão direitos e proteções para pelo menos alguns animais.

Regan e o Valor Inerente

Regan começa afirmando que cada pessoa, enquanto indivíduo, tem algum valor distintivo, o qual ele denomina “valor inerente”. Ele defende que a base dos direitos é esse valor inerente, e não a capacidade de raciocínio, a autonomia ou alguma outra qualidade.

O “valor inerente” de Regan não se conquista, ou seja, não é possível perder nem ganhar esse valor por suas ações, e nem é instrumental. O valor inerente de uma pessoa não existe só porque ela é “lindinha e fofinha”, nem porque ela escreve belos sonetos. Ela simplesmente tem o valor. Finalmente, o valor inerente é igual entre todos os que o têm. Uma pessoa não pode ter mais valor inerente do que outra; William Shakespeare e Osama bin Laden teriam o mesmo valor inerente.

A justificativa de Regan para o valor inerente se assenta no pressuposto de que esse tipo de valor é a melhor maneira e explicar nossas “intuições reflexas” em relação aos outros seres humanos, inclusive os casos marginais (Tom Regan, The Case for Animal Rights, Berkeley: University of California Press, 1983, p. 247). Eu acredito que é errado escravizar seres humanos ou tratar bebês como alimento, e Regan argumenta que o “valor inerente” é a melhor explicação para essas crenças. Portanto, o valor inerente é, em essência, uma idéia obrigatória para explicar por que temos algumas outras crenças. Isso é semelhante à maneira como um astrônomo pode justificar a afirmação de que um planeta se move ao redor de uma estrela longínqua. O astrônomo pode não ser capaz de detectar diretamente o planeta, mas pode postular sua existência através do raciocínio porque essa massa é obrigatória para explicar algumas outras características conhecidas sobre a estrela e o sistema estelar. Da mesma forma, segundo Regan, o valor inerente é obrigatório para explicar nossas crenças morais consideradas.

Portanto, assim como os seres humanos paradigmáticos, os seres humanos marginais têm valor inerente e, portanto, direitos. Além disso, segundo Regan, não há nenhuma base racional para negar que alguns animais também tenham valor inerente e, portanto, nenhuma base para negar direitos a esses animais.

Como podemos saber se algo tem valor inerente ou não? Regan não apresenta condições claras e diretas que precisariam ser satisfeitas para demonstrar o valor inerente, mas apresenta uma condição que demonstra a existência do valor inerente em alguns seres. Ele chama essa condição de “ser um sujeito integral” (o termo original é subject-of-a-life)

O que significa ser um “sujeito integral”? Primeiramente, é necessário ser um organismo tal que os acontecimentos façam uma verdadeira diferença para ele enquanto indivíduo. Em segundo lugar, é necessário ser um organismo tal que a continuidade da vida importe para ele. Em terceiro lugar, é necessário ser um organismo para quem o que acontece na vida tenha um significado para ele.

Segundo Regan, para ser um sujeito integral, é necessário (entre outras coisas) ter a capacidade de tomar a iniciativa; ter memória; saber que existe um futuro; estar ciente de seu próprio bem-estar, dos seus desejos e dos seus objetivos; e ter a capacidade de sentir prazer e dor. Esses são os tipos de características que garantem que as coisas importarão para um indivíduo e farão diferença para ele.

Regan afirma que ser um sujeito integral significa ter valor inerente. Contudo, uma criatura pode não ser um sujeito integral e, mesmo assim, ter valor inerente. Ele afirma que as pessoas em estado de coma permanente não são sujeitos integrais, mas, mesmo assim, têm valor inerente. Regan reflete, em certo ponto, se objetos naturais como árvores podem ter valor inerente, embora claramente não sejam sujeitos integrais. Portanto, a condição de sujeito integral não explica nem define o valor inerente. Trata-se apenas de uma ferramenta útil para detectar valor inerente em alguns casos.

O pressuposto de Regan é que a maioria dos seres humanos, tanto marginais como os outros, está na categoria de “sujeitos integrais”. Além disso, ele argumenta que a maioria dos animais de ordem superior também está e que, como sujeitos integrais, também têm valor inerente.

Em suma, o argumento de Regan é que os indivíduos (sejam eles humanos ou não) detentores de valor inerente têm direito a serem tratados de uma forma que respeite esse valor inerente e que não prejudique a esse indivíduo. Portanto, seu argumento em favor dos direitos (de animais ou seres humanos) se baseia nessa idéia do valor inerente.

Para qualquer pessoa que já tenha ido a um zoológico ou que tenha tido animais de estimação, não deve ser difícil aceitar que os animais de ordem superior (símios, cães, gatos, etc.) sintam dor e prazer, tenham desejos e objetivos, tomem a iniciativa de atender suas necessidades e seus desejos, têm alguma noção de seu futuro pessoal, e até mesmo sintam, de alguma forma, que a vida seja boa ou má para eles. Além disso, não me parece que atribuir essas capacidades a eles seja “viagem na maionese” nem antropomorfização. Regan tem razão ao dizer que alguns mamíferos superiores possuem essas capacidades. Na verdade, é provável que essa seja uma das coisas que tornem essas criaturas tão atraentes como animais de estimação; isso pode até mesmo ser uma base moral para tratar os animais com certa sensibilidade e certo cuidado. Contudo, isso não prova que essas criaturas tenham valor inerente, nem substancia a argumentação favorável a que os animais tenham direitos.

O fato principal é que o valor inerente subsiste como um conceito inválido. Ele não tem base na realidade – é arbitrário e incoerente com a compreensão mesma do que seja “valor”.

O valor depende da existência de um ser que enfrente a alternativa da continuidade ou da cessação da existência – e de um ser que deva agir para dar continuidade à sua Existência. Portanto, valores são as coisas obrigatórias para a continuidade da vida do ser. Portanto, um valor é sempre um valor por algum motivo (ele é necessário à vida) e para algum organismo (o ser deve agir diante da alternativa entre vida e morte).

Os valores morais são os valores buscados por um organismo capaz de escolher e raciocinar. A racionalidade volitiva gera a necessidade de um sistema que oriente as escolhas e ações. Sem escolhas, não adianta orientar; e sem o raciocínio, não é possível formular nem agir com base nos princípios dados pela moral. Os seres humanos são os únicos organismos capazes de raciocinar por vontade própria e, dessa forma, os únicos organismos capazes de trabalhar com o conceito de moral. E embora os animais seguramente enfrentem a alternativa de viver ou morrer e, dessa forma, busquem um valor, eles não reagem a essa alternativa escolhendo a maneira como agirão nem os valores que buscarão para preservar suas vidas. Eles não buscam nem podem buscar valores morais.

O valor inerente, por outro lado, não é valorizado por nenhum motivo e não exige que um organismo aja ou faça escolhas em busca de valores. A explicação de Regan sobre o valor inerente deixa isso claríssimo. Não importa o que uma pessoa faz nem o que ela é; desde que ela tenha esse valor inerente, ela deve ser tratada como qualquer outra pessoa. É dessa forma que o valor inerente dissocia o valor de suas raízes conceptuais e, portanto, perde a validade.

Mas mesmo para quem não aceita a definição “valores” de Ayn Rand, o valor inerente é problemático. Regan se preocupa com o fato de que as teorias que incluem os casos marginais de seres humanos, mas excluem os animais, o façam de maneira arbitrária. Por exemplo, uma teoria pode tentar estender os direitos aos casos marginais simplesmente porque todos pertencem à espécie Homo sapiens. Regan, além de Singer, argumenta que essa teoria dos direitos é arbitrária porque a espécie biológica é moralmente irrelevante.

Seja como for, a própria solução de Regan (o valor inerente) é arbitrária. Ele não apresenta nenhum motivo além das nossas “intuições refletidas” para crer que os seres humanos paradigmáticos ou marginais ou que os animais tenham, de fato, um valor inerente. Regan argumenta que precisamos do valor inerente para explicar nossas crenças morais sobre como tratar os outros, inclusive os animais. Entretanto, essa afirmação é um tanto incorreta, pois podemos explicar o motivo de tratar os outros com respeito e dignidade, bem como perceber que maltratar os animais sem necessidade é errado, sem recorrer à noção duvidosa do valor inerente. (Uma análise do motivo pelo qual tratar bem as outras pessoas é um valor é apresentada em David Kelley, Unrugged Individualism: The Selfish Basis for Benevolence, Nova York: The Objectivist Center, 1996. Kelley não menciona o tratamento dos animais, mas maltratar um animal sem necessidade indica uma depravação incoerente com os tipos de valores e virtudes necessários à vida).


Singer e a Consideração Igualitária

Singer coloca o princípio da igualdade, ou da consideração igualitária, no centro de sua visão de moral. Segundo ele, todos têm direito a uma consideração igualitária e a ser respeitados. Portanto, o utilitarismo é considerado a melhor teoria moral para cumprir esse princípio da igualdade.

De acordo com Singer, a capacidade de um indivíduo de sofrer basta para que esse indivíduo, seja ele humano ou animal, tenha direito à consideração igualitária. Singer cita o famoso utilitarista inglês Jeremy Bentham: “A questão não é ‘ele é capaz de raciocinar?’, e nem ‘ele é capaz de falar?’, mas sim ‘ele é capaz de sofrer?’”

O importante é saber se a criatura é capaz ou não de sofrer. Se for capaz, então esse sofrimento deve ser levado em conta no cálculo utilitarista da maximização do prazer e da diminuição da dor. A capacidade da criatura de sentir prazer também é relevante, mas o foco mais freqüente está no sofrimento, pois ele é a injustiça visível que exige reparação. Além disso, qualquer criatura capaz de sentir dor e prazer precisa ser levada em consideração quando se decide sobre a melhor atitude.

Segundo Singer, a capacidade de sofrer e de sentir prazer é o principal fator moralmente relevante nesse aspecto, pois se trata da capacidade que define a própria base para se ter interesses de qualquer espécie. Nesse ponto de vista, o fato de não querer se machucar não é apenas mais um interesse que alguém tem além de outros interesses, como, por exemplo, ter alimento ou um abrigo. Essa é a base dos outros interesses de uma criatura. O interesse em ter alimento advém do sofrimento causado pela fome. O interesse em ter um abrigo advém do sofrimento da exposição aos elementos. Sem a capacidade de sentir dor e prazer, não é possível ter interesses, e ponto final.

Uma pedra não tem interesse em não ser chutada (nem qualquer outro interesse) exatamente porque não tem a capacidade de sentir a dor de ser chutada nem de qualquer outra coisa. Por outro lado, eu sou capaz de sentir dor e, portanto, tem interesse em não ser chutado, entre outros interesses.

A maioria das pessoas reage ao argumento de Singer mais ou menos da seguinte maneira: Há uma diferença entre o sofrimento humano e o sofrimento animal. O sofrimento humano é moralmente relevante exatamente por ser humano.

Mas assim como Regan, Singer argumenta que isso é arbitrário e demonstra simplesmente uma inclinação em favor dos seres humanos. Ambos se referem a essa inclinação como “especismo”. Especismo, segundo a definição de Singer, é “[um] preconceito ou uma atitude de inclinação em favor dos interesses dos integrantes da própria espécie e contra os interesses dos integrantes de outra espécie” (Peter Singer, Libertação Animal - O Clássico Definitivo Sobre O Movimento Pelos Direitos Dos Animais, São Paulo: WMS Martins Fontes, 2010, 1ª Ed. traduzida, p. 6). Pense no “sexismo” ou no “racismo”, mas substitua o sexo ou a raça pela espécie. E na medida em que o sexismo e o racismo são errados por ir contra o princípio da consideração igualitária, o especismo também é errado, segundo Regan e Singer. Portanto, ele não pode ser usado para excluir o sofrimento dos animais de qualquer consideração.

O argumento de Singer é que, com o princípio da igualdade e a capacidade em comum de sentir dor e prazer, os interesses dos animais humanos e não-humanos devem ser ponderados de maneira igual ao fazer o cálculo moral do “certo e errado”. Incluindo os interesses dos animais não-humanos no cálculo utilitarista, segundo Singer, descobrimos que as regras e os princípios que demarcam as proteções jurídicas adequadas para os humanos valem igualmente para os animais capazes de sentir.


Dois Problemas Persistentes

É fácil despachar esses dois argumentos de várias maneiras. O “valor inerente” de Regan é um conceito arbitrário e inválido e, portanto, não pode ser tomado como base para direitos. O argumento de Singer tem por base o utilitarismo, uma teoria moral famosa por sua dificuldade de fornecer orientação moral em virtude de suas inclinações contrárias ao indivíduo. Quem rejeitar o utilitarismo – como deve ser feito – fará com que o argumento de Singer perca impulso.

Essa é uma parte importante do motivo pelo qual se deve rechaçar os argumentos de Regan e de Singer. Mas embora seus argumentos devam ser rechaçados, há dois problemas gerados pelos argumentos favoráveis aos direitos dos animais que precisam ser mais avaliados.

O primeiro é o significado moral das variadas e complexas capacidades dos animais. Se os animais são capazes de sentir ou têm uma consciência ainda mais complexa do que a capacidade de sentir, isso constitui base para que os animais tenham direitos?

Em segundo lugar, ainda enfrentamos o argumentos dos seres humanos marginais. Se não houver uma resposta racional a esse argumento, a teoria dos direitos apresenta uma debilidade indiscutível.

Felizmente, esses problemas têm por base noções equivocadas sobre o que são direitos. Uma noção válida deve ser capaz de explicar inequivocamente a verdadeira base dos direitos e seu alcance adequado.

 

 

Capacidades dos Animais

Tanto Regan como Singer dependem intensamente do recurso às capacidades dos animais, estejam eles se referindo ao fato de sentir dor e prazer ou às capacidades mais complexas que constituem o “sujeito integral” de Regan. E quando se fala com pessoas que acreditam nos direitos dos animais, percebe-se que a base de sua crença nesses diretos parece ser sempre alguma noção sobre a capacidade de um animal de sofrer.

Como foi dito anteriormente, Sou muito solidário a essa visão, pois adoro animais. A partir de observações e da minha compreensão da biologia, parece óbvio que animais superiores têm uma consciência robusta e complexa. E é bastante claro que os animais podem sofrer terrivelmente se forem submetidos a maus-tratos e traumas.

Eu não quero que os animais sofram sem necessidade, mas a capacidade de sofrer não constitui base para os direitos dos animais. Na verdade, ela não é a base nem dos direitos humanos.


O Fundamento dos Direitos Segundo o Objetivismo

O modo de sobrevivência de um ser racional é o ato de raciocinar e de agir com base nesse julgamento. Ele terá uma vida tanto mais próspera e bem-sucedida quanto mais agir dessa maneira.

Se uma pessoa vive isolada, ninguém pode interferir nesse processo. Apenas quando ela tem contato com outras pessoas essa interferência passa a ser possível, e disso decorre a necessidade dos direitos.

Temos direitos porque, para conduzir a vida em sociedade por meio da razão (que é a melhor maneira de se viver), o indivíduo precisa ter liberdade de ação e, portanto, estar livre da força.

Respeitamos os direitos dos outros porque vivemos em sociedade e precisamos interagir e fazer trocas com todos os tipos de pessoas: desde aquelas com quem comerciamos bens de consumo básicos até as pessoas com quem “comerciamos” no sentido mais amplo de comunicação, visibilidade e amizade. Para que esses indivíduos produzam da maneira ideal os valores que obteremos deles através das trocas, precisamos garantir que eles tenham a liberdade de pensar, a liberdade de agir com base em suas decisões e, portanto, que estejam livres de coerções.

Isso significa que, em última análise, os direitos têm por base a capacidade de raciocinar. É através dessa capacidade que nós (e outros) somos capazes de fazer julgamentos, agir livremente para contemplar nossas necessidades e nossos valores, e viver em sociedade. Os animais, carecendo da capacidade de raciocinar, não podem participar dessas ações e, portanto, não têm direitos.


Seres Humanos Marginais

Este é o ponto em que um Singer ou um Regan fazem eco com o argumento dos seres humanos marginais. Nem todos os seres humanos são capazes de raciocinar, participar do contexto social ou fazer trocas e, portanto, é arbitrário proteger os seres humanos marginais e, ao mesmo tempo, deixar os animais sem direitos.

Em relação às crianças, há um importante motivo não-arbitrário para protegê-las: as crianças virão a ser racionais um dia. Os animais, não. Deixados à mercê de seu processo normal de desenvolvimento, os animais não desenvolvem a capacidade de raciocinar. As crianças se desenvolverão para trocar e buscar valores, e, portanto, é racional e importante proteger essa capacidade em desenvolvimento. A questão da situação dos fetos é diferente. As crianças são fisiologicamente e anatomicamente independentes, e um feto não é. Do ponto de vista físico, um feto faz parte da mãe, e sua situação está insequapavelmente ligada a ela. A questão sobre se o feto também requer proteção exige uma análise separada que está fora do escopo deste artigo.

O argumento usado em relação às crianças, contudo, não é adequado para outros casos marginais, como pessoas com deficiência mental grave ou em estado de coma permanente. Esses indivíduos não são seres racionais em desenvolvimento nem têm a capacidade de intercambiar valores. Pessoas com deficiência mental grave não podem (com a atual tecnologia médica) desenvolver-se para tornar-se um ser humano racional em perfeito funcionamento.

Podemos, entretanto, indicar uma distinção racional e não-arbitrária entre os animais não-humanos e os seres humanos marginais dentro das seguintes linhas: sob condições normais de desenvolvimento, os seres humanos marginais seriam seres racionais plenamente funcionais. Mas em circunstâncias normais de desenvolvimento, os animais não são seres racionais e conceptuais. Essa distinção não-arbitrária pode criar a base teórica de salvaguardas jurídicas inferiores aos direitos plenos para os seres humanos marginais, mas não para os animais, embora seja certo que essa teoria ainda não foi desenvolvida.

Uma abordagem possível seria observar a história dos progressos da Medicina e a possibilidade de desenvolver curas e tratamentos para deficiências mentais graves e pacientes comatosos, dando a esses indivíduos a capacidade de funcionar como seres humanos racionais. Dessa forma, o potencial de tratamento estabelece um vínculo entre os seres humanos não-racionais e os seres humanos normais e paradigmáticos, criando, assim, um sentido real em que esses casos marginais sejam realmente ‘comerciantes’ potenciais, ao passo que os animais não podem sê-lo. Com base nesse argumento sem nuanças de arbitrariedade, pode ser possível homologar um determinado subconjunto de direitos para os seres humanos marginais.

Portanto, pode ser que os seres humanos marginais tenham determinados direitos como ‘comerciantes’ potenciais, mas isso não se aplica aos animais, pois eles não levam em si a potencialidade de serem ‘comerciantes’.

É possível argumentar que uma pessoa efetivamente estabelece ‘trocas comerciais’ com seus animais de estimação, se não com todos os animais. E não há dúvidas de que eu dou alimento, abrigo e amor à minha gata preta, e recebo em troca muito afeto e divertimento. É exatamente por isso que eu tenho uma gata. Mas o ‘comércio’ é uma troca voluntária de valores, e é apenas a necessidade de que a troca seja voluntária que dá azo aos direitos. Respeitamos os direitos das outras pessoas porque essa é a maneira de obter os melhores resultados do que elas têm a nos oferecer em troca. Obviamente o valor que eu recebo da minha gata não vem de uma troca mutuamente voluntária entre a gata e eu. Na verdade, o prazer que eu obtenho e que a gata obtém ocorre apenas porque eu a trouxe para viver na minha casa e interagir comigo. Deixar minha gata ir aonde quisesse e fazer o que quisesse não geraria os melhores resultados do que ela tem a me oferecer. E o mesmo vale para os seres humanos marginais. A enorme troca de amor que ocorre entre os pais e seu bebê, ou entre um irmão normal e um irmão com deficiência mental grave, não constitui base para esses direitos que as crianças e os deficientes mentais possam ter, pois a troca não é voluntária. Se os seres humanos marginais tiverem de receber algum subconjunto de direitos, a base deve ser seu potencial de troca voluntária.


Conclusão

Em resumo, os direitos são necessários à sobrevivência pacífica de um ser racional e conceptual dentro de um contexto social. Os animais não são nem seres conceptuais nem estão em nosso contexto social e, portanto, nada justifica que animais tenham direitos. Como nosso ordenamento jurídico deve ter por base os direitos, não se justificam salvaguardas jurídicas para os animais. Pode-se argumentar que a maioria dos seres humanos marginais faz parte do contexto social como ‘comerciantes’ potenciais e, portanto, algumas salvaguardas jurídicas podem se justificar.

Os argumentos em favor dos direitos dos animais estão abertos a várias outras críticas. Mais especificamente, é possível atacar o conceito do especismo. Mas quando se demonstra a base correta dos direitos, e quando se argumenta que os casos dos seres humanos marginais podem ser explicados de maneira racional, as bases dos argumentos favoráveis aos direitos dos animais se enfraquecem o suficiente para que seja muito pouco necessário atacar essas questões fundamentais.


Entretanto, mais uma vez, os argumentos favoráveis aos direitos animais se concentram na maneira como os animais devem ser tratados dentro de um contexto jurídico. Embora eu ache absolutamente claro que os animais não têm direitos, não é válido concluir que é moralmente aceitável maltratar os animais. Pode não haver sanções legais contra pessoas que maltratam seus animais de estimação, mas esse comportamento não deixa de ser imoral, e deve haver sanções sociais severas para inibi-lo. Nosso relacionamento moral adequado com os animais, contudo, é uma questão diferente do nosso relacionamento jurídico. O primeiro precisa ser mais elaborado, mas não devemos, com isso, confundir ambos e, portanto, minar o verdadeiro argumento em favor dos direitos individuais.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A voz e as imagens dos ratos pelo mundo

Caríssimos leitores, eis-me cá de volta após duas semanas de intensa turbulência na minha vida pessoal. Espero ter céus de brigadeiro à frente, senão a fuselagem não agüenta!

Bem, no meu último artigo, eu examinei um estudo a respeito da alimentação de ratos propensos à formação de tumores com milho geneticamente modificado. Quase imediatamente após a publicação desse estudo, ele deu margem a todos os tipos de acusações de cientistas e pesquisadores que encontraram falhas crassas nos métodos e nas conclusões do estudo. Mas como a mentira corre meio mundo antes que a verdade tenha tempo sequer de calçar as meias, o estudo e as fotos assustadoras dos ratos anexadas ao estudo foram levados a sério.

Em virtude do estudo, a Rússia proibiu temporariamente a importação de qualquer tipo de milho transgênico. Embora a Rússia tenha anulado rapidamente a proibição assim que percebeu que o estudo era uma farsa, outros países, como o Quênia, ainda citam o estudo para justificar a continuidade da proibição de produtos transgênicos, mesmo um ano depois.

Nos Estados Unidos, outras pessoas, como Jeremy Seifert, diretor de um documentário contra os transgênicoscitou o estudo como motivo para acreditar que os alimentos geneticamente modificados poderiam ser responsáveis pela deterioração da saúde das pessoas. E Michael Hansen, cientista da Consumer’s Union, citou o estudo num depoimento à Assembléia de Nova Iorque em meados deste ano. Ele sustentou que qualquer produto que contenha ingredientes geneticamente modificados deveria ser marcado com um rótulo obrigatório, entre outras coisas, em virtude das possíveis "conseqüências indesejáveis" do consumo de alimentos geneticamente modificados. Referindo-se ao estudo com os ratos nesse depoimento, ele disse: “No último mês de outubro (sic), foi realizado um estudo de alimentação, com duração de dois anos, que concluiu que o milho GE causa tumores e morte prematura”.

Fico preocupado com o fato de esse estudo ridículo continuar sendo levado a sério. Sempre que vejo pessoas recorrendo à pseudociência para argumentar, paro e questiono a motivação delas.

Agora, quero discorrer sobre outra conseqüência perturbadora desse estudo: o uso de imagens com forte carga emocional no debate, sendo algumas delas provenientes do "estudo dos ratos".

Quando, há pouco tempo, parei para ler o estudo para saber a verdade, descobri algumas dessas fotos escondidas na página 5. Lá estavam elas em toda a sua grotesca glória: fotos de mãos enluvadas segurando três ratinhos brancos de laboratório, todos eles incapacitados com tumores enormes. Deixando de lado o objetivo dessas fotos no estudo em si (houve quem argumentasse que elas haviam sido incorretamente colocadas no estudo, principalmente porque nenhuma delas exibia um rato do grupo de controle, e alguns ratos desse grupo também apresentaram tumores), eu me preocupo com a maneira como eu as vi sendo usadas.

Talvez você, leitora, já tenha visto algumas das imagens usadas nos debates sobre transgênicos: fotos de uma espiga de milho ou de um tomate com aspecto apetitoso e uma seringa ameaçadora pairando por cima da hortaliça; pessoas ao lado de uma plantação, envergando roupas próprias para lidar com materiais tóxicos e máscaras contra gases; ou até mesmo essas fotos de ratos "empapuçados" de tumores.

Minha preocupação é que essas imagens (que normalmente pipocam quando alguém está vociferando contra os perigos dos transgênicos) tendem a ofuscar qualquer argumento apresentado, além de deixar a impressão indelével de que não é seguro consumir alimentos geneticamente modificados.

Para quem tentar tomar decidir racionalmente sobre se deve ou não ingerir alimentos geneticamente modificados, essas imagens explícitas distraem a pessoa, impedindo que ela raciocine de verdade sobre o assunto. As imagens têm a intenção de contornar o cérebro, gerando uma reação emocional esmagadora.

Alguns anos atrás, o filósofo Leonard Peikoff deu uma excelente palestra (intitulada "A Picture is not an Argument", ou seja, "Uma imagem não é um argumento") que examina mais detidamente o uso de imagens grotescas e com grande carga emotiva em debates e discussões. Nas palavras dele: “A emoção intensa faz com que seu foco fique mais estreito e cego a todas as outras considerações (...) Em outras palavras, a imagem induz a reagir a um exemplo concreto, e, ao mesmo tempo, ignorar despreocupadamente todas as informações adjacentes que permitem interpretar a imagem de maneira racional”.

A imagem faz com que todas as outras provas e os fatos “se esvaiam em uma aparente insignificância e desapareçam da sua tela mental”, segundo Peikoff. Essa é uma técnica antiqüíssima (procure "apelo à emoção" em qualquer livro didático de Lógica"), e acho que isso diz muita coisa. No caso dos transgênicos, o que as pessoas que usam essas imagens provocativas querem que você ignore? Pensem nisso.

domingo, 29 de setembro de 2013

O ano do estudo com ratos de laboratório

Esta semana marcou um aniversário um tanto ambíguo no mundo dos organismos geneticamente modificados (OGMs). Foi no mês de setembro do ano passado que o professor Gilles-Eric Séralini e um grupo de pesquisadores franceses publicaram o que viria a ser conhecido como o “estudo dos ratos”, de triste fama.

Se vocês acompanham o noticiário sobre esse assunto, certamente leram as afirmações que ganharam as manchetes nas semanas que se seguiram: “Transgênicos aumentam em até três vezes ocorrência de câncer em ratos”, “Ratos alimentados com milho da Monsanto desenvolvem tumores” ou “Pesquisa diz que transgênicos causam tumores”, entre outras. As manchetes, habilmente engendradas para causar temor, foram completamente ofuscadas pelo que as acompanhava: fotografias de ratos de laboratório ostentando imponentes tumores.

Combination image of two pictures featuring rats with tumors after they were fed a diet of genetically modified (GM) maize produced by US chemical giant Monsanto (AFP Photo / Criigen)

Quase imediatamente, o estudo foi condenado pela comunidade científica, que salientou problemas graves de metodologia e interpretação. Alguns, como Mark Tester, professor de fisiologia vegetal do Centro Australiano de Genômica Vegetal Funcional, questionou as afirmações fora do comum feitas no estudo. Afinal de contas, as plantas geneticamente modificadas são produzidas há 15 anos e trilhões de refeições que contêm ingredientes transgênicos já foram consumidas por seres humanos e animais. Ele fez o seguinte questionamento: “Se os efeitos são tão grandes quanto se supõe, e se o trabalho é realmente relevante para os seres humanos, por que os norte-americanos não estão morrendo como moscas?”.

Outros questionaram os métodos estatísticos empregados no estudo. Um grupo de cientistas enviou uma carta ao editor do periódico no qual o estudo foi publicado, pedindo a reconsideração da publicação. Eles criticaram as conclusões, afirmando que “[esse] estudo não apresenta provas sólidas que apoiem suas afirmações. Na verdade, as falhas do estudo são tão óbvias que o trabalho nunca deveria ter sido aprovado após a avaliação”. Até mesmo a Administração Européia de Segurança Alimentar entrou na conversa, dizendo serem “incapazes de considerar cientificamente legítimas as conclusões dos autores”.

Eu li atentamente o trabalho de Séralini et al. e não demorou para sentir cheiro de picaretagem no ar. Acompanhem meu raciocínio.

Os ratos usados no estudo são um tipo específico de rato de laboratório que costuma ser usado em pesquisas sobre o câncer. Eles são conhecidos como ratos “Sprague-Dawley”. Esses ratos podem ser úteis no estudo do câncer por causa de sua propensão ao desenvolvimento de tumores cancerosos. Alguns dos ratos alimentados com milho transgênico desenvolveram tumores (como se espera do tipo Sprague-Dawley), mas alguns ratos do grupo de controle (também ratos Sprague-Dawley) também desenvolveram. Isso não foi surpresa nenhuma. O que me causou espécie foi que os autores não acharam que valia pena indicar que todos os ratos usados se encaixavam nas porcentagens de todos os ratos Sprague-Dawley que desenvolvem tumores, independentemente da sua alimentação.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o fato de terem sido usados muito poucos ratos no grupo de controle: apenas 10 machos e 10 fêmeas. Foi dito que não houve tantos efeitos nocivos à saúde nesses grupos de controle minúsculos quanto nos 180 ratos do estudo. Mas isso não é exatamente surpreendente. Em Estatística, isso se chama “erro de amostragem”. Por exemplo, se eu pusesse uma venda sobre meus olhos e tirasse 10 Confetis™ de um saco, provavelmente não ficaria surpreso se não tirasse nenhum verde. Com uma amostra de apenas alguns docinhos, é impossível saber se aqueles que eu peguei representam a totalidade do saco. Como se diz em Estatística, “o tamanho (da amostra) conta”.

Tom Sanders, chefe da divisão de Ciências da Nutrição do King’s College de Londres, foi um dos tantos que salientaram problemas com o método utilizado. Ele afirmou que “aparentemente, os autores saíram para fazer uma pescaria estatística”. Parece que apenas um estatístico ficou satisfeito com o estudo, “pois ele é um belíssimo caso clássico para apresentar numa aula de Estatística sobre concepção, análise e apresentação incorretas”. Ele acrescentou: “Vou começar a usá-lo imediatamente”.

O estudo dos ratos e suas conclusões de que o milho transgênico causa câncer em ratos ou qualquer outro animal foi condenado praticamente por todos os outros pesquisadores como uma excursão absurda pelo reino da Estatística enganosa. O lugar desse estudo é o fundo da lixeira da pseudociência.

Mas vocês devem estar se perguntando por que eu estou desenterrando esse assunto um ano depois. Explico: é porque acho que o estudo foi significativo por outros motivos. Mas falo sobre isso daqui a alguns dias.

Por falar nisso, vocês leram o meu artigo sobre vacas e milhos? Quem perdeu, pode ler aqui.

sábado, 28 de setembro de 2013

Combater a corrupção não é a solução

Na noite/madrugada de sexta-feira passada, tive um pequeno qüiproqüó, um pequeno quebra-quebra com algumas arrobinhas que freqüentavam timeline do meu Twitter porque fui obrigado a ser extremamente duro e direto com uma criatura que, embora se oponha (e, acredito, com sinceridade) à ditadura vermelha que já se abateu sobre o Brasil, não tem preparo intelectual suficiente para lidar com certas sutilezas de raciocínio.

Essa criatura, apelando ao sentimentalismo mais barato e abjeto, publicou na sua timeline um vídeo sobre um "pai que perdeu a filha no SUS" e, pasmem, responsabilizou diretamente o Min. Celso de Mello por essa morte! Esse rompante contou com a "guarnição" de chavões como "mensalão mata", "esse sangue está em suas mãos", e outros apelos desprovidos de qualquer conteúdo racional.

O vídeo é este:


Bem, quem quiser ler uma análise absolutamente fria e irrefutável de que, com ou sem corrupção, mensalão, Celso de Mello ou Jacozinho caindo pela esquerda, o SUS é um serviço de saúde fadado à escassez e à impossibilidade de atender a todos com qualidade, leia o artigo "Como Mises explicaria a realidade do SUS?".

Mas o que me traz aqui hoje é uma análise um pouco mais abrangente sobre esse ente abstrato chamado corrupção, ao qual todas as mazelas, sem exceção, são atribuídas.

Estou lendo um livrinho (pouco mais de 150 páginas) maravilhoso de Ludwig von Mises, Kritik des Interventionismus (Crítica ao Intervencionismo), publicado originalmente em 1929. Ao discorrer sobre os efeitos nocivos da intervenção estatal na Economia através da restrição direta sobre a produção e dos controles de preços, Mises aborda a questão da corrupção. Lendo a seção V do capítulo 1 (Destruktion als Ergebnis der Interventionpolitik, ou "Destruição resultante da política intervencionista"), fico assombrado ao ver que Mises, enxergando muito longe no futuro, descreve todo o fenômeno da corrupção. Não pude deixar de ter a impressão de que Mises falava sobre o endêmico problema da corrupção no Brasil atual! Ele nos diz que a corrupção por parte dos políticos não é a raiz das moléstias econômicas; que a falta de rigor por parte dos vários órgãos em fazer cumprir o sem-número de medidas intervencionistas não é a causa das más condições da economia. Na verdade, essa falta de rigor é o que mantém a economia funcionando mesmo sob o peso da infinidade de intervenções do Governo! Mises afirma (e concordo inteiramente com ele) que a corrupção faz bem para uma economia de mercado estorvada. Obviamente ele não está dizendo que a corrupção em si é boa e que não devemos acabar com ela na primeira oportunidade que tivermos. Eu abomino figadalmente a corrupção. Também não quero viver numa sociedade corrompida. No entanto, como bem expôs Mises, a corrupção não é a raiz dos nossos problemas econômico e sociais. Ela é apenas um sintoma da intervenção do Governo na economia. O intervencionismo econômico é a raiz da debilidade da nossa economia e, também, da corrupção. Faço, aqui, uma tradução (direta do alemão) de alguns parágrafos do capítulo 1, seção V, do livro para que vocês possam entender claramente a questão.

Antes, um caveat: muito embora o livro Kritik des Interventionismus já tenha sido traduzido para o português e publicado em parceria pelo Instituto Mises Brasil e pelo Instituto Liberal (http://www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=55), não consegui determinar se essa tradução foi realizada diretamente do alemão ou com base em alguma outra tradução (inglês, francês, espanhol...). Como não confio muito nas traduções realizadas ultimamente no Brasil, vi por bem arregaçar as mangas e publicar minha própria tradução do capítulo em questão, "sem aditivos nem conservantes", direta do alemão e, na medida do possível, sem "sotaque".

(...)

"O crítico dos acontecimentos, sem formação em Economia, vê apenas que “partes interessadas” sempre encontram saídas para escapar das prescrições da lei. A culpa de que o sistema funciona mal é atribuída exclusivamente ao fato de que a lei não tem alcance suficiente e que sua aplicação é prejudicada pela corrupção. O fracasso da política intervencionista reforça a convicção [do crítico leigo] de que a propriedade privada deve ser controlada por meio de leis severas. A corrupção dos órgãos encarregados da fiscalização do Estado não abala sua confiança cega na infalibilidade e na impecabilidade do Estado; ela simplesmente o enche de repulsa moral aos empresários e capitalistas.

No entanto, a transgressão da lei não é (como ingenuamente ensinam os estatistas) um transtorno dificilmente erradicável oriundo da fraqueza humana, que deve ser eliminado para criar o Paraíso na Terra. Se as leis intervencionistas fossem realmente cumpridas, não demoraria nada para que elas conduzissem ao absurdo. Todas as engrenagens deixariam de funcionar porque o longo braço do Estado se aproximou muito delas.

Aos olhos dos nossos contemporâneos, as coisas funcionam assim: "os agricultores e comerciantes de leite conspiram para aumentar o preço do leite. Então, para corrigir a situação, entra em cena o Estado benfeitor para lançar o interesse público contra os interesses especiais, e o ponto de vista da economia popular contra o setor privado. O Estado pulveriza o "cartel do leite", estabelece tetos de preço para o leite e processa judicialmente quem descumprir as regulamentações aprovadas. O fato de que o leite não ficará tão barato quanto as pessoas, na qualidade de consumidores, gostariam, passa a se dever à falta de clareza suficiente das leis, o que impede que elas sejam impostas com o rigor necessário. Não é tão fácil se opor à motivação de lucro dos grupos de pressão que prejudicam o público. As leis devem, portanto, tornar-se mais rigorosas e ser impostas de maneira implacável e impiedosa".

Na verdade, as coisas são bem diferentes. Se os preços fossem realmente tabelados, a produção e o fornecimento de leite nas cidades falhariam. A quantidade de leite disponível não seria maior, e sim menor ou até mesmo inexistente. Ainda há leite para os consumidores pelo simples fato de que as regulamentações são contornadas. Se quiséssemos a contraposição totalmente inadequada e perversa dos interesses econômicos públicos e privados, deveríamos dizer o seguinte: o comerciante de leite que contraria a lei age pelo bem de todos; a autoridade pública que tabela os preços está colocando esse bem em risco.

Obviamente, o empresário que transgride as leis e regulamentações das autoridades para produzir independentemente dos obstáculos erigidos pelo Estado não se conduz levando em conta o interesse público, que os defensores do intervencionismo constantemente apregoam, mas sim a intenção de lucrar, ou ao menos o desejo de evitar os prejuízos que lhe seriam causados pelo cumprimento das leis e normas. A opinião pública, que se indigna com a mesquinhez dessa atitude e com um agir tão repreensível, não é capaz de compreender que, sem essa inobservância das leis e proibições, a impraticabilidade da política intervencionista conduziria sem demora à catástrofe. A opinião pública espera a salvação através do cumprimento rigoroso das decisões do Estado adotadas "para a proteção dos fracos" e censura o Estado apenas por não ser suficientemente rigoroso para aplicar todas as medidas necessárias e por não confiar a imposição das normas a pessoas mais capazes e incorruptíveis. Os problemas básicos do intervencionismo não são absolutamente discutidos. Quem sequer timidamente ousar pôr em dúvida a restrição ao poder dos capitalistas e empreendedores será proscrito como um mercenário a serviço de interesses especiais ou, na melhor das hipóteses, será tratado com tácito desprezo. Mesmo em discussões sobre os métodos do intervencionismo, quem não quiser arriscar sua reputação e, sobretudo, sua carreira, deve ser muito cauteloso. É muito fácil atrair a suspeita de servir ao "capital", e quem usar argumentos econômicos na discussão jamais escapará dessa suspeita.

Se a opinião pública suspeita de corrupção em todas as partes no intervencionismo estatal, ela certamente não está errada. A corrupção dos políticos, dos parlamentares e dos funcionários públicos é, na verdade, o fundamento que permite sustentar o sistema; sem ela, o sistema desmoronaria e seria substituído ou pelo socialismo ou pelo capitalismo. Para o liberalismo, as melhores leis seriam as que proporcionassem a margem mais estreita possível aos órgãos encarregados de sua aplicação, a fim de evitar arbitrariedades e abusos. O Estado moderno busca fortalecer o poder discricionário de seus órgãos. Tudo deve ser deixado ao livre arbítrio das autoridades.

Não é possível demonstrar aqui as conseqüências da corrupção sobre a moral pública. Naturalmente, nem corruptor nem o que suborna nem o que recebe o suborno se dão conta de que seu comportamento tende a preservar o sistema que a opinião pública e eles mesmos acreditam ser o certo. Eles infringem a lei e, por isso, estão conscientes de estar prejudicando o bem comum. E como eles estão pouco a pouco adotando o hábito de transgredir as leis penais e os preceitos morais, eles acabam por perder a capacidade de discernir entre o certo e o errado, o bem e o mal. Se praticamente nenhuma mercadoria puder ser produzida ou implementada sem que alguém transgrida alguma regulamentação, pecar contra a lei e a moral será considerado, portanto, um infeliz efeito colateral da "vida", e os que desejam o contrário serão ridicularizados como "teóricos". O comerciante que começar a transgredir as leis cambiais, as proibições à importação e exportação, os tabelamentos de preços, etc., logo acabará por trair a confiança das partes com quem contratar. O declínio da ética comercial, conhecido como "efeito inflacionário", é o efeito colateral necessário das regulamentações adotadas em tempos de inflação, para controlar as transações comerciais.

Às vezes, ouve-se a afirmação de que o sistema do intervencionismo se tornou bastante tolerável em virtude da permissividade da fiscalização. Mesmo as interferências com as políticas de preços deixariam de ser sentidas pela economia como um incômodo excessivo se os se os empresários pudessem ser “orientados” por meio de dinheiro e persuasão. Talvez não se possa negar que as coisas seriam melhores sem essas interferências, mas é necessário amoldar-se à opinião pública. O intervencionismo é considerado um tributo que deve ser pago à democracia para manter a viabilidade do sistema capitalista.

Essa linha de raciocínio deve ser entendida do ponto de vista dos empresários e capitalistas com mentalidade marxista-socialista ou estatal-socialista. Aparentemente, para eles, a propriedade provada dos meios de produção é uma instituição que favorece os interesses de proprietários de terras, capitalistas e empresários em detrimento dos interesses públicos. A manutenção da propriedade provada atende unicamente aos interesses das classes possuidoras.

Portanto, se essas classes forem capazes de manter apenas as instituições que lhes forem úteis, em detrimento do público geral e de todas as outras classes, através de algumas concessões que não lhes imponham grandes sacrifícios, seria tolo de sua parte recusar-se teimosamente a fazer concessões e, portanto, comprometer a continuidade da ordem social que lhes proporciona apenas vantagens.

Quem não comunga desse ponto de vista dos representantes dos interesses "burgueses" não aceitará esses argumentos. Não há motivo aparente para reduzir a produtividade do trabalho da economia por meio de ações incorretas. Se alguém detém a propriedade dos meios de produção para uma instituição em favor de uma parte e em detrimento de outra parte da sociedade, então ela deve ser abolida. Mas se reconhecermos que ela é útil para todos, e que a sociedade humana, com sua divisão do trabalho, não pode ser organizada de outra maneira, será necessário manter a propriedade dos meios de produção para que ela possa cumprir sua função da melhor maneira possível. É desnecessário discutir aqui a confusão sobre todos os preceitos morais que deverá surgir se a lei e os códigos morais rejeitarem, ou pelo menos vilipendiarem, algo que deva ser preservado como base da vida social. Mas de que adiantaria proibir algo esperando que, na maioria dos casos, essa proibição seja contornada?

Como podemos ver claramente, a corrupção não é o verdadeiro problema enfrentado pela economia. O sistema econômico de intervenção estatal É a verdadeira raiz da corrupção e das más condições da economia. Nenhuma lei de combate à corrupção jamais acabará com a corrupção nem saneará a economia brasileira. Se quisermos acabar com a corrupção e melhorar as condições econômicas da população, será necessário acabar, antes, com a intervenção do governo. Precisamos rejeitar todas as regulamentações e os controles que se impõem sobre o mercado. Precisamos debater o problema fundamental do papel do Estado em nossa sociedade. Pôr sobre a mesa a questão da corrupção fará com que o debate comece sobre premissas equivocadas. Fazer as perguntas erradas nunca levará às respostas certas. O governo fica muito satisfeito em viciar as pessoas no debate sobre a questão inútil do combate à corrupção, pois, assim, elas não questionarão a própria existência do sistema do Estado nem sua intervenção sobre a economia.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sobre vacas e milhos: o que significa ser transgênico?

Velaquí, como é xenerosa a cara das vacas!
Neste fim de semana, voltando a São Paulo após sagrar-me vice-campeão num torneio de tênis em Limeira, cruzava o verdejante interior paulistano pela rodovia Anhangüera. É difícil não contemplar a agricultura. Às portas da primavera, já com temperaturas bem elevadas, já está quase tudo verdinho nas plantações. E, é claro, vaquinhas e boizinhos pastando alegremente.

Assistindo a esse cenário pela janela do ônibus, fiquei pensando o que significa para uma planta ou um animal ser chamado de organismo geneticamente modificado (OGM) - popularmente, transgênico. Boa parte do milho nas lavouras pela quais eu passei eram "geneticamente modificadas". Em geral, a modificação genética diz respeito à tecnologia de inserir, retirar, ou "ligar ou desligar" determinados genes do pé de milho. Os cientistas botânicos usam seu conhecimento do DNA para inserir no milho genes que o aperfeiçoam consideravelmente, por exemplo, tornando-o resistente a insetos (falarei disso em outro artigo).

Mas qual é a diferença entre essa "modificação genética" e a que a humanidade já vinha fazendo com os alimentos há milhares de anos?

Pense, leitora, no milho e no gado que eu vi nos campos e nas pastagens. O milho começou sua "carreira" como uma gramínea silvestre que produzia poucos e minúsculos frutos semelhantes a uma espiga. Mais de 5 mil anos atrás, os povos da América Central começaram a selecionar e plantar as sementes das plantas que preferiam, descartando o restante delas. A partir desse momento, depois que o milho começou a viajar pelos continentes, esse cultivo seletivo mudou intencionalmente o formato e o tamanho do milho, lentamente transformando-o nas variedades doce, bicolor e azul que conhecemos hoje.

Pense, também, na bela e generosa vaca. Dóceis produtoras de quantidades abundantes de nutritivos leite e carne, as vacas modernas são o resultado de mais de 10 mil anos de modificações influenciadas pelo homem. As vacas evoluíram do que eram: uma besta selvagem e com cascos chamada auroque. A domesticação do auroque começou há tento tempo que os arqueólogos se referem a esse período por sua denominação geológica, o Holoceno. Foi nessa época em que nossos antepassados começaram a selecionar e criar os animais que fossem mais úteis para eles, alterando, com isso, a conformação genética da prole.

Na verdade, todos os vegetais e animais que vi nas fazendas pelas quais passei passaram por transformações genéticas radicais desde o tempo de seus ancestrais selvagens.

Nossos antepassados, sem saber absolutamente nada sobre DNA ou genes, influenciaram mudanças na conformação genética do seu alimento, tornando-o mais saboroso, nutritivo e fácil de criar e plantar. Hoje, os cientistas sabem como o DNA dos vegetais e dos animais determina suas características. A ferramenta da engenharia genética (ou da modificação genética) é uma maneira de aproveitar esse conhecimento na busca incessante por alimentos melhores.

Os geneticistas descobriram inclusive maneiras de aperfeiçoar os alimentos através da transferência de genes de uma espécie para outra, como os mamões resistentes a doenças, que emprestam um gene do vírus que os ataca, ou os tomates que incorporam genes de uma flor chamada boca-de-leão. Esses métodos trazem reflexos dos nossos antepassados. Eles evocam os povos do Crescente Fértil que cruzavam o capim Aegilops cylindrica com trigo selvagem para produzir um grão mais resistente, ou os faraós do Egito, que cruzavam burros com cavalos para criar as fortes e robustas mulas. A diferença é a precisão, o conhecimento e a velocidade com que, hoje em dia, é possível fazer esses aprimoramentos.

Portanto, para responder à pergunta que fiz no título deste artigo, a moderna modificação genética é simplesmente um método diferente de conseguir exatamente o mesmo tipo de modificação genética que os agricultores conseguem há milênios. Nesse sentido, praticamente todos os alimentos, todas as lavouras e todos os animais domesticados que existem hoje podem ser considerados "transgênicos".

A engenharia genética dos alimentos não é novidade. A novidade está tão somente nas técnicas para realizá-la.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

"Sujar os dedinhos? Má nunca!"

Caríssimos, eu já disse isto alhures (talvez em um dos meus finados blogues), mas vale a pena repetir.

É claro que todos nós queremos que o Brasil se torne uma nação realmente próspera e grande (com  bases sólidas), mas isso jamais vai acontecer se continuarmos aplaudindo essas infelizes iniciativas das ONGs da vida de dirigir as crianças mais carentes para atividades "culturalmente divertidas" ou "divertidamente culturais", como tocar tambor, fazer escultura com bosta de tuiuiú ou dançar de pé pro ar (salve, Billy Blanco!).

Precisamos, cara leitora, de que as escolas concentrem seus esforços em ensinar com solidez Língua Portuguesa (e depois, se sobrar tempo, um idioma estrangeiro), Matemática, Física, Química e Biologia. A isso se chama "ensino com os pés no chão". O resto é perfumaria.

Faço esse já longo intróito porque chega ao meu conhecimento a seguinte notícia do G1 de Santa Catarina (com link): "Olimpíada do Conhecimento reúne 190 participantes em Lages". Já volto.
A Olímpiada do Conhecimento do Senai está reunindo em Lages, na Serra catarinense, 190 participantes de 21 municípios de Santa Catarina. Eles disputam 40 modalidades da etapa estadual da competição. O objetivo principal é fazer com que os alunos desenvolvam atividades relacionadas às profissões que escolheram seguir.
De acordo com a regras, os competidores têm pouco mais 20h pra executarem uma prova proposta no regulamento. O tempo varia de acordo com cada modalidade, assim como a tarefa.
Um dos participantes é Roger Rosa, aluno do curso técnico em Mecânica do Senai de Lages. Ele conta que dedicou oito horas por dia, durante cinco meses, para se dedicar à Olimpíada. Apesar do nervosismo, por ser a primeira vez que participa, ele garante que está preparado pra representar unidade da cidade sede.
Os visitantes acompanham pelos corredores do Senai o desenvolvimento das provas. Até sexta-feira, 8,5 mil alunos de escolas da região devem passar pelo evento. 1,5 mil estudantes de unidades do Senai também irão conferir a edição da Olímpiada do Conhecimento, em Lages. Além das provas, o Senai oferece informações sobre os cursos e palestras.
Um destaque do evento é a mostra Inova, com exposições de 13 projetos desenvolvidos por alunos e professores. Um dos projetos que mais chama atenção é o carro elétrico, desenvolvido pelos estudantes de Jaraguá do Sul. Informações podem ser obtidas pelo telefone 0800 48 1212.

Voltei. (Sim, kibei isto do Tio Rei).

Iniciativas assim são como as "peneiras" das escolinhas de futebol. É daí que vão sair os craques da atividade técnica e científica. É daí que sairão os pathfinders, os que abrirão picadas inovadoras na selva selvaggia do conhecimento científico. Esse é um excelente trabalho de base.

Na Alemanha, quase 60% dos alunos do segundo grau (Ensino Médio é o cacete, sou velho mesmo!) vão em busca de cursos técnicos. Cá em Bananaland, não chegamos a 11%. Por que? Por puríssimas afetação e vaidade.

Podem sair pela aí conversando com pais e mães. A esmagadora maioria inflará as ventas e dirá com orgulho: "Eu não quero que meu filho seja técnico. Isso é degradante". O sonho dourado dos pais é que seus filhos enveredem por caminhos profissionais mais clássicos como Direito, Engenharia, Medicina (e vejam que as duas últimas deste exemplo são atividades extremamente técnicas e, às vezes, bem "mão na massa"), ou sendas mais "moderninhas" como Administração, Jornalismo, Marketing, Psicologia (não clínica, pelamordedeus, mas "voltada para RH") e - oh, glória! - Mídias Sociais (xôxo mídia pros íntimos).

Claro que não podia deixar de citar os pais que almejam para seus filhos a tumba profissional do serviço público. Sobre esses (e seus filhos que acodem ávida e alegremente aos concursos públicos) nem vou tecer comentários. Merecem meu silêncio.

Em resumo, os pais querem que seus filhos sejam "doutores de anel no dedo" (ainda que mal e porcamente remunerados no mercado de trabalho). Estamos em 2013, e estou fazendo a mesma crítica que o Bruxo do Cosme Velho (Google it!) e o argutíssimo Lima Barreto faziam em meados do século XIX e nos albores do século XX. Não avançamos nada em termos de projeto de civilização.

A minha crítica não vai para os profissionais que nutrem e desenvolvem seu talento nas diversas áreas (técnicas ou não), que têm um casamento de sucesso com suas carreiras por amarem o que fazem. Estou esculachando, sim, aqueles que, mesmo sem pendor algum para as atividades "suaves", as buscam para fugir das "minas de sal" nas quais, talvez, lograssem muito êxito. O esculacho é para aqueles que acham que "canudo" resolve tudo e "dá status". Cago em vossas cabeças.

Os alemães estão aí para nos desferir VOLEIOS NA NUCA, mostrando que essa aversão à atividade técnica é uma rematada estultícia. O que interessa é a felicidade e a satisfação oriundas da paixão pela profissão e, more importantly, dinheirinho no bolso.

Para concluir, leitora, essa Olimpíada do Conhecimento do Senai dá a chance de que guris e gurias exalem a água benta do suor na testa e arregacem as mangas para se tornarem criativos, inventivos, felizes e ajudarem a lançar cada vez mais as bases de um desenvolvimento econômico significativo para este ainda banânico país.

O Conto dos Dois Tomates



Depois do furor sobre os produtos transgênicos cerca de uma década atrás, me peguei pensando sobre os "organismos geneticamente modificados" (OGMs, ou, no popular, transgênicos) quando passei em frente da pet shop da minha rua e prestei atenção no "T" preto dentro de um triângulo amarelo (ícone que indica a presença de transgênicos no produto). Voltei a pesquisar o assunto na "internê" e, nas duas primeiras, duas coisas me ocorreram: o enorme potencial da biotecnologia para melhorar os alimentos e o debate incrivelmente rancoroso em torno desses alimentos. Se minha (parca) disciplina e meu extenuante trabalho permitirem, pretendo, nas próximas semanas, me aprofundar bastante na polêmica que envolve os transgênicos. Hoje começo falando sobre alguns temores específicos e sobre a oposição enfrentada pelos alimentos criados pela bioengenharia.

Vou pegar "à unha" esses temores e essa oposição nas próximas semanas e examinar o que eles revelam sobre o movimento contrários aos OGMs. Mas antes de mergulhar nessas águas pantanosas, vamos refletir por alguns instantes para não perder o céu de vista enquanto estamos atolados no lamaçal das paixões argumentativas.

Começo dizendo que está bastante claro que os alimentos criados pela bioengenharia já lograram um êxito estrondoso. A biotecnologia tem sido usada para ajudar os agricultores a aumentar o rendimento de suas plantações e acrescentar vitaminas e minerais aos alimentos. Os avanços da biotecnologia também têm auxiliado na luta contra o inimigo número um das lavouras (as pragas), além de serem usados também para diversão e estética (basta ver o caso dos peixes fluorescentes e das rosas azuis). As lavouras de bioengenharia passaram a ser a tecnologia agrícola mais adotada da história da humanidade, e tudo isso foi feito em menos de duas décadas.

Mas isso significa que eu sou um defensor figadal dos transgênicos?

Vou contar a vocês a história de dois tomates: o Indigo Rose e o "tomate roxo". Ambos foram inventados para produzir um nutriente chamado antocianina, um nutriente normalmente encontrado em frutas como, por exemplo, a amora. Um deles (o Indigo Rose) foi criado pelo antiquíssimo método da hibridação. O outro (tomate roxo) foi inventado pela moderna técnica da engenharia genética, transferindo genes da boca-de-leão (Antirrhinum majus) para ajudar o tomate a produzir a antocianina. Em em ambos os casos, a idéia era criar um tomate que reunisse todos os benefícios do tomate à saúde com os benefícios nutricionais extras da ingestão de amoras, por exemplo. Ambos foram muito bem-sucedidos.

Então, como consumidor de tomates, qual eu escolheria? O tomate roxo se mantém fresco por muito mais tempo, ou seja, é possível deixá-lo amadurecer e desenvolver sabor na planta por um período mais longo. Por outro lado, o Indigo Rose é muito saboroso e ótimo para ser plantado em jardins. Ambos têm a antocianina, que lhes aporta uma coloração profunda e escura, e ambos têm um aspecto suculento e convidtivo. Se eu tivesse que decidir qual deles comprar, minha escolha seria fundamentada num leque amplo de fatores, como paladar, marca, frescor, tamanho, valor nutricional, facilidade de encontrar e preço. A variedade engendrada pela biotecnologia não seria necessariamente melhor, assim como a variedade híbrida. Eu escolheria a que fosse melhor para mim. E se eu achasse que uma era superior à outra, seguramente não defenderia que a outra fosse proibida ou impedida de chegar a qualquer país.

Sabem por que eu não faria isso? Porque sou um defensor empedernido do ser humano.

Quero que as pessoas tenham a liberdade de inventar, desenvolver, cultivar, vender e comprar qualquer alimento que melhore suas vidas. Às vezes isso implica dar tiros no escuro e procurar variações genéticas nunca dantes exploradas. Outras vezes, isso implica realizar uma hibiridação meticulosa do trigo para criar uma variedade robusta ou inserir na banana um gene que aporte resistência a doenças. Cientificamente falando, esses métodos de bio-inovação devem ser julgados com base no fato de melhorarem, prolongarem ou tornarem a vida das pessoas mais feliz; do ponto de vista político, eles devem ser julgados à luz da infração ou não de direitos de propriedade.

Por exemplo, talvez a engenharia genética nem sempre seja a melhor ferramenta para essa tarefa, cientificamente falando. Ela é, por natureza, uma ferramenta muito precisa. Estou falando de transferir ou retirar genes específicos que determinam características específicas. Se eu quiser, por exemplo, mudar a cor de uma rosa, essa pode ser a ferramenta ideal. Mas se eu quiser fazer brócolos resistentes ao calor, provavelmente a engenharia genética não ajude tanto, pois a resistência ao calor é, provavelmente, controlada por um número considerável de genes. Nesse caso, a hibridação pode ser a melhor opção. Se eu preciso derrubar uma parede, não vou atrás de uma lixadeira. Uma marreta seria uma solução mais "elegante".

O objetivo que a engenharia genética pretende atingir é melhorar os alimentos e, por via de conseqüência, as nossas vidas. Essa é uma finalidade digna.

Pelo que tenho visto, a engenharia genética é uma excelente ferramenta que está disponível na caixa de ferramentas identificada como “aprimoramento alimentar”. Do ponto de vista político, é uma ferramenta que os agricultores devem ter o direito de usar da maneira que julgarem conveniente, desde que - é claro - os direitos de propriedade de terceiros sejam respeitados. Se os alimentos geneticamente modificados são úteis para as pessoas ou se são algo que os consumidores querem comprar e preparar no jantar, cabe exclusivamente a elas decidir. Ou pelo menos deveria caber, por motivos que eu apresentarei em artigos futuros.

domingo, 25 de agosto de 2013

Amarildo mártir? Faz-me rir!

Brasil e mundo estão em polvorosa com a morte do tal do Amarildo, e o objetivo é inscrevê-lo no rol dos mártires e heróis da Pátria, com o apoio amplo, geral e irrestrito da mídia. Essa iniciativa tem dois objetivos claríssimos: desestabilizar a polícia militar e encher de mimos e afagos o o narcotráfico.

A campanha para responsabilizar a PM a qualquer custo pela morte de Amarildo, cujo reflexo mais visível são as mobilizações quase diárias nas ruas, está sendo "cozida" por organizações internacionais desabridamente interessadas no fim da corporação, sob o pretexto de que a militarização da polícia constitui violação atroz do que elas definem como “direitos humanos”.

Em 2012, a ONU, sob pressão do lobby dos “direitos humanos”, cuja preocupação se resume ao bem-estar da bandidagem, já recomendou ao Brasil, em flagrante interferência com a soberania do país, que a "desmoralizada" Polícia Militar fosse extinta.

A rigor, esse clima de guerra contra a PM e o governo do Sérgio Cabral uma motivação bastante definida: o modelo adotado de combate ao narcotráfico, que foi um dos seus poucos acertos. Sem sombra de dúvida, no momento azado, esse modelo causaria enorme desconforto entre as alas esquerdas mais radicais no Brasil e em outros países.

Além disso, é incontestável que os policiais militares são defensores da lei e da ordem, defesa essa que, para os esquerdistas, é sistematicamente contestada como instrumento de pura e simples repressão.


A ocupação das favelas através das UPPs obrigou os narcotraficantes e seus parceiros esquerdistas a "apertar o cinto", pois consumo e distribuição foram severamente prejudicados, mas o impacto mais importante se deu nos desdobramentos políticos da medida.

As ramificações dessa rede satânica se encontram em quadrilhas internacionais (como as FARC) e nacionais (por exemplo, Comando Vermelho e PCC). Isso é sabido e consabido de longa data. Leiam o trecho abaixo (o grifo é meu):
Dezoito traficantes da facção criminosa Comando Vermelho, que domina o tráfico de drogas em várias favelas no Rio de Janeiro, vão periodicamente à fronteira do Brasil com a Colômbia para comprar cocaína diretamente com guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Os bandidos são alvo de investigação da Polícia Federal.
Eles ocuparam o espaço que já foi exclusivo de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, até ele ser capturado, há cinco anos. A prisão do megatraficante - que era responsável pela distribuição de drogas na maior parte das favelas do Rio - foi justamente em território colombiano.”
(link da notícia aqui)

Em 2010, uma reportagem d'O Estado de S. Paulo denunciava a ligação entre os interesses políticos e ideológicos do PT e o narcotráfico, intermediados pelo trabalho do Foro de São Paulo, deixando patente a aliança entre o PT e as FARC - denominada pelo PT como um mero “movimento insurgente”, apesar de suas atividades claramente criminosas. Eis um trecho da reportagem:
“O Foro reúne-se periodicamente com os partidos-membros e simpatizantes para avaliar estratégias e táticas que favoreçam o ideal que o gerou. Lula, que disse mais de uma vez que nunca foi de esquerda – e outras tantas que é -, divide com Fidel Castro as honras de personagem mais ilustre do Foro. 
Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Daniel Ortega (Nicarágua) e Rafael Correa (Equador) são outras figuras ilustres a integrá-lo. Nele, debatem-se as conjunturas dos governos do continente: impasses, soluções, ações e reações, de acordo com uma visão estratégica que se afine ao objetivo que o inspira. 
As Farc, apesar de seu perfil criminoso, sempre foram recebidas como grupo político legítimo no âmbito do Foro, participando intensamente dos debates. O PT diz que as relações das Farc com o Foro foram rompidas depois que abandonaram, a partir de 2002, as negociações para um acordo de paz na Colômbia e enveredaram pelo caminho dos seqüestros e do narcotráfico. 
O governo Lula diz jamais ter tido qualquer tipo de contato com as Farc, mas recusa-se a classificá-las como terroristas. Consideram-nas um grupo insurgente. Nada mais.”
Para quem quiser ler a íntegra da reportagem, o link está aqui.

Aliás, recomendo a leitura integral da reportagem para entender um pouco desse quebra-cabeças macabro. As conexões são irretorquíveis.

Obviamente, querida leitora, não sou ingênuo a ponto de ignorar que o crime organizado polui a política, e que a onda de protestos dirigida a Sérgio Cabral, às UPPs e à PM é comandada e organizada pela ala mais corrupta e radical da esquerda, que se beneficia direta ou indiretamente do narcotráfico.

A demagogia da campanha para localizar o corpo do tal do Amarildo clama aos céus e pede castigo. Hoje, o Amarildo está em vias de ser transformado em herói da esquerda radical, que se compraz em fabricar mártires para suas causas (que, além disso, fornecem nomes para o batismo dos tais "coletivos" e "espaços comunitários" dessa gente), pois o catecismo revolucionário pelo qual rezam prega que os fins justificam os meios.

Segundo o delegado Ruchester Marreiros, Amarildo era um bandido que favorecia as ações de narcotraficantes na favela da Rocinha. Deu no Terra em 8 de agosto (os grifos são meus, todos meus, o martelo também):
“O delegado assistente responsável pela investigação que resultou na operação Paz Armada, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, acusou, em entrevista à rádio CBN, que o delegado Orlando Zaccone descartou o relatório dele que indicava que o pedreiro Amarildo de Souza e a mulher, Elisabete, faziam parte do esquema de tráfico de drogas da comunidade. Segundo Ruchester Marreiros, Amarildo facilitava reuniões de traficantes na casa dele e permitia que a residência fosse usada como rota de fuga, além de dificultar ações policiais na favela. 
‘Fizemos um trabalho de investigação que não foi levado em conta pelo delegado e nem pela promotoria’, disse Ruchester, que indicou no relatório que Amarildo e outro adolescente ligado ao tráfico teriam danificado as câmeras da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha.”
Contudo, quando o delegado começou a investigar o caso com isenção e seriedade à toda prova para chegar à verdade dos fatos, ocorreu algo "mágico": seu trabalho foi para a lata do lixo. Sua versão e as provas obtidas foram varridas para debaixo do tapete. Afinal, para os esquerdistas, quem é ele para arranhar a imagem de mártir do Amarildo, n'est-ce pas?.

O poder da esquerda, exercido em grande parte pelo controle da imprensa e por seu dinheiro sujo, tem o condão de fabricar as versões mais proveitosas para ela (afinal, "estamos em guerra com a Lestásia. Sempre estivemos em guerra com a Lestásia). Tal é esse poder que vem se infiltrando nas instâncias investigativas oficiais e judiciárias. Alguém é irresponsável a ponto de duvidar disso?

Quem se lembra da engenheira Patrícia Amieiro, desaparecida desde 2008?



As esquerdas radicais "cantaram e andaram" quando a jovem que sumiu, muito provavelmente vítima de execução por maus policiais militares.

Ocorre que a imprensa não deu a esse caso um décimo da importância dada ao caso Amarildo. Pensem: a jovem era branca, não era favelada, na época praticamente não havia UPPs, e o caso não envolvia narcotráfico.

Enfim, as esquerdas se preocupam exclusivamente com o Amarildo. Quanto ao caso Patrícia, o máximo que farão será usá-lo em proveito da sua campanha pela extinção da PM.

Sei que o texto está longo, mas estou chegando aos finalmentes.

Amarildo já foi canonizado pela igreja (lato sensu) macabra das esquerdas. É perfeito para ser aproveitado como o arquétipo da vítima de abuso policial: negro, pobre, favelado, etc.

Nesse contexto, Amarildo é usado (e abusado post mortem) como mártir da causa da esquerda contra as UPPs, que levam a pecha de opressoras da população da "comunidade" (novilíngua para "favela"), muito embora a maior probabilidade, segundo as investigações do delegado Ruchester, seja de que Amarildo tenha sido mais um bandido morto pelos próprios traficantes.

Parafraseando Euclides da Cunha, "o esquerdista é, antes de tudo, um esquizofrênico". Esquerdismo é, sim, doença mental grave. Por isso, tratam casos semelhantes de maneira ambivalente e cínica. O caso Amarildo ganha os holofotes da imprensa unicamente mercê do perfil do defunto, do ambiente político do momento e dos interesses que circundam sua morte; o caso Patrícia, por sua vez, é simplesmente esquecido.

Para dizer a verdade, do ponto de vista humano, as esquerdas estão se lixando para ambos os casos.

A família de Patrícia, decente, não quis fazer da morte dela um fato político. Já a família de Amarildo (certamente tendo recebido "afago$ e agrado$"), deixa-se manipular pela caterva da esquerda radical interessada em canonizá-lo por ser ele uma vítima de suposta opressão policial e em busca de mero pretexto para a campanha contra a PM.

A articulação entre o narcotráfico nacional e internacional e a esquerda saltam aos olhos, tendo seu núcleo político e diretivo no Foro de São Paulo. O dinheiro gerado pelo crime organizado abastece o caixa-dois de partidos, movimentos sociais e ONGs de esquerda, e a repressão efetiva ao narcotráfico faz rarear esses recursos.

Para acabar: contar o caso Amarildo e falar sobre ele sem expor todas essas questões equivale a contar a versão "amputada" da comissão da "meia-verdade" de que os militares foram torturadores. É intelectualmente desonesto reduzir o assunto sem analisar os interesses desse macabro esquema internacional.