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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Política de alimentos x escolhas individuais


O arroz é o alimento básico de bilhões de pessoas. Embora seja uma excelente fonte de calorias e carboidratos, o arroz branco não tem os nutrientes necessários para uma dieta equilibrada (Como me disse certa vez um cardiologista, "arroz não passa de excipiente q.s.p."). Até mesmo as populações que têm acesso a uma quantidade suficiente de calorias provenientes do arroz para seu sustento podem, mesmo assim, estar sujeitas à desnutrição. Uma forma especialmente universal de desnutrição é a deficiência de vitamina A.

A Organização Mundial da Saúde calcula que entre 250 mil e 500 mil crianças ficam cegas todos os anos devido à carência de vitamina A. Um dado ainda mais infeliz é que aproximadamente metade dessas crianças morrerão no espaço de 12 meses. Esse é um problema gravíssimo que os cientistas Ingo Potrykus e Peter Beyer esperavam solucionar com a engenharia genética.

Em 1982, os cientistas começaram a pesquisar uma maneira de fortificar o arroz para ajudar a combater a deficiência de vitamina A. Em 1999, Potrykus and Beyer apresentaram um protótipo chamado “arroz dourado”. O arroz dourado contém beta-caroteno, que, às vezes, é chamado de “pro-vitamina A” porque pode ser transformado pelo corpo em vitamina A. O beta-caroteno é encontrado em vários legumes, mas não no arroz. Os dois pesquisadores descobriram que o arroz tinha todos os mecanismos necessários para produzir o beta-caroteno, mas não tinha os genes para "ativar" essa capacidade. O novo arroz foi criado através de engenharia genética, primeiramente transferindo dois genes do narciso no arroz e, depois, incorporando um gene do milho e outro gene encontrado num microorganismo comum do solo.

Grupos ambientalistas se opuseram com veemência ao arroz. Embora os inventores ofereçam a semente sem custo algum, na esperança de que os agricultores de zonas rurais pobres do mundo consigam usar a invenção deles em proveito próprio, ninguém conseguiu, ainda, autorização para plantá-lo. Mesmo assim, a idéia de fazer com que lavouras básicas produzam beta-caroteno "pegou". Em Uganda, pesquisadores estão testando uma “banana dourada” criada por meio de engenharia genética, que, segundo eles, pode ajudar a combater a desnutrição em populações que têm na banana sua fonte principal de calorias.

Causa espécie um argumento dos ambientalistas contra esses alimentos "dourados". Eles dizem que esses alimentos não são bons o suficiente. O arroz dourado foi tachado de "falsa esperança" e acusado de ser uma “farsa”. O motivo? Essas pessoas argumentam que o arroz dourado não tem como ajudar a atenuar a deficiência de vitamina A, pois, aparentemente, os seres humanos transformam o beta-caroteno em vitamina A de maneira mais eficiente quando a dieta também conta com gorduras, e, provavelmente, as pessoas desnutridas não ingiram gorduras em quantidade suficiente.

Há alguma controvérsia quanto à quantidade de gordura extra necessária numa dieta para que o beta-caroteno seja mais bem aproveitado (a banana e o arroz contêm baixo teor de gordura). Também há algumas evidências de que, mesmo sem nenhuma gordura a mais, o beta-caroteno presente no arroz dourado (ou nas bananas douradas) pode ser transformado em vitamina A nos desnutridos e ajudar a aliviar os piores sintomas da deficiência de vitamina A. O arroz dourado ou as bananas douradas também podem substituir legumes verdes folhosos (que também contêm beta-caroteno) quando estes não estiverem à disposição para ajudar a reforçar a vitamina A.

Contudo, independentemente de as pessoas decidirem ou não se querem plantar e consumir o arroz dourado, elas devem ter a possibilidade de tomar essa decisão. Num mercado livre, fatos sobre nutrição naturalmente influenciariam as decisões dos indivíduos (nutricionistas, empresas produtoras de sementes, agricultores, organizações beneficentes e consumidores) sobre o desenvolvimento, o plantio e o consumo de um determinado alimento. Mas vivemos num mundo em que essas decisões são passíveis de coerção por parte do governo através de financiamentos de grande porte e programas de regulamentação.

Esse é, também, o tipo de decisão que grupos ambientalistas como o Greenpeace querem tomar pelas pessoas. Eles defendem “hortas caseiras e suplementos vitamínicos” para combater a deficiência de vitamina A e destroem de maneira boçal e soberana campos de teste onde alimentos geneticamente modificados são cultivados. Eles também pressionam os governos para que proíbam as populações desnutridas de tomar essas decisões com independências. Esses grupos consideram uma vitória quando os governos fazem com que o plantio, o consumo, a venda ou a importação de alimentos geneticamente modificados, como o arroz dourado, sejam atividades fora da lei.

Quando as decisões sobre alimentos passam a fazer parte da esfera política, todos os tipos de grupos de pressão têm o poder de influenciar o braço forte do governo. Eles usam esse poder para empurrar goela abaixo dos cidadãos programas que limitam as opções, atrapalham e até mesmo proíbem que alimentos cheguem às pessoas que podem querer consumi-los.

Esse é um dos motivos pelos quais o debate sobre alimentos geneticamente modificados é importante, e pelos quais tenho muito mais a dizer sobre essas questões.

domingo, 29 de setembro de 2013

O ano do estudo com ratos de laboratório

Esta semana marcou um aniversário um tanto ambíguo no mundo dos organismos geneticamente modificados (OGMs). Foi no mês de setembro do ano passado que o professor Gilles-Eric Séralini e um grupo de pesquisadores franceses publicaram o que viria a ser conhecido como o “estudo dos ratos”, de triste fama.

Se vocês acompanham o noticiário sobre esse assunto, certamente leram as afirmações que ganharam as manchetes nas semanas que se seguiram: “Transgênicos aumentam em até três vezes ocorrência de câncer em ratos”, “Ratos alimentados com milho da Monsanto desenvolvem tumores” ou “Pesquisa diz que transgênicos causam tumores”, entre outras. As manchetes, habilmente engendradas para causar temor, foram completamente ofuscadas pelo que as acompanhava: fotografias de ratos de laboratório ostentando imponentes tumores.

Combination image of two pictures featuring rats with tumors after they were fed a diet of genetically modified (GM) maize produced by US chemical giant Monsanto (AFP Photo / Criigen)

Quase imediatamente, o estudo foi condenado pela comunidade científica, que salientou problemas graves de metodologia e interpretação. Alguns, como Mark Tester, professor de fisiologia vegetal do Centro Australiano de Genômica Vegetal Funcional, questionou as afirmações fora do comum feitas no estudo. Afinal de contas, as plantas geneticamente modificadas são produzidas há 15 anos e trilhões de refeições que contêm ingredientes transgênicos já foram consumidas por seres humanos e animais. Ele fez o seguinte questionamento: “Se os efeitos são tão grandes quanto se supõe, e se o trabalho é realmente relevante para os seres humanos, por que os norte-americanos não estão morrendo como moscas?”.

Outros questionaram os métodos estatísticos empregados no estudo. Um grupo de cientistas enviou uma carta ao editor do periódico no qual o estudo foi publicado, pedindo a reconsideração da publicação. Eles criticaram as conclusões, afirmando que “[esse] estudo não apresenta provas sólidas que apoiem suas afirmações. Na verdade, as falhas do estudo são tão óbvias que o trabalho nunca deveria ter sido aprovado após a avaliação”. Até mesmo a Administração Européia de Segurança Alimentar entrou na conversa, dizendo serem “incapazes de considerar cientificamente legítimas as conclusões dos autores”.

Eu li atentamente o trabalho de Séralini et al. e não demorou para sentir cheiro de picaretagem no ar. Acompanhem meu raciocínio.

Os ratos usados no estudo são um tipo específico de rato de laboratório que costuma ser usado em pesquisas sobre o câncer. Eles são conhecidos como ratos “Sprague-Dawley”. Esses ratos podem ser úteis no estudo do câncer por causa de sua propensão ao desenvolvimento de tumores cancerosos. Alguns dos ratos alimentados com milho transgênico desenvolveram tumores (como se espera do tipo Sprague-Dawley), mas alguns ratos do grupo de controle (também ratos Sprague-Dawley) também desenvolveram. Isso não foi surpresa nenhuma. O que me causou espécie foi que os autores não acharam que valia pena indicar que todos os ratos usados se encaixavam nas porcentagens de todos os ratos Sprague-Dawley que desenvolvem tumores, independentemente da sua alimentação.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o fato de terem sido usados muito poucos ratos no grupo de controle: apenas 10 machos e 10 fêmeas. Foi dito que não houve tantos efeitos nocivos à saúde nesses grupos de controle minúsculos quanto nos 180 ratos do estudo. Mas isso não é exatamente surpreendente. Em Estatística, isso se chama “erro de amostragem”. Por exemplo, se eu pusesse uma venda sobre meus olhos e tirasse 10 Confetis™ de um saco, provavelmente não ficaria surpreso se não tirasse nenhum verde. Com uma amostra de apenas alguns docinhos, é impossível saber se aqueles que eu peguei representam a totalidade do saco. Como se diz em Estatística, “o tamanho (da amostra) conta”.

Tom Sanders, chefe da divisão de Ciências da Nutrição do King’s College de Londres, foi um dos tantos que salientaram problemas com o método utilizado. Ele afirmou que “aparentemente, os autores saíram para fazer uma pescaria estatística”. Parece que apenas um estatístico ficou satisfeito com o estudo, “pois ele é um belíssimo caso clássico para apresentar numa aula de Estatística sobre concepção, análise e apresentação incorretas”. Ele acrescentou: “Vou começar a usá-lo imediatamente”.

O estudo dos ratos e suas conclusões de que o milho transgênico causa câncer em ratos ou qualquer outro animal foi condenado praticamente por todos os outros pesquisadores como uma excursão absurda pelo reino da Estatística enganosa. O lugar desse estudo é o fundo da lixeira da pseudociência.

Mas vocês devem estar se perguntando por que eu estou desenterrando esse assunto um ano depois. Explico: é porque acho que o estudo foi significativo por outros motivos. Mas falo sobre isso daqui a alguns dias.

Por falar nisso, vocês leram o meu artigo sobre vacas e milhos? Quem perdeu, pode ler aqui.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sobre vacas e milhos: o que significa ser transgênico?

Velaquí, como é xenerosa a cara das vacas!
Neste fim de semana, voltando a São Paulo após sagrar-me vice-campeão num torneio de tênis em Limeira, cruzava o verdejante interior paulistano pela rodovia Anhangüera. É difícil não contemplar a agricultura. Às portas da primavera, já com temperaturas bem elevadas, já está quase tudo verdinho nas plantações. E, é claro, vaquinhas e boizinhos pastando alegremente.

Assistindo a esse cenário pela janela do ônibus, fiquei pensando o que significa para uma planta ou um animal ser chamado de organismo geneticamente modificado (OGM) - popularmente, transgênico. Boa parte do milho nas lavouras pela quais eu passei eram "geneticamente modificadas". Em geral, a modificação genética diz respeito à tecnologia de inserir, retirar, ou "ligar ou desligar" determinados genes do pé de milho. Os cientistas botânicos usam seu conhecimento do DNA para inserir no milho genes que o aperfeiçoam consideravelmente, por exemplo, tornando-o resistente a insetos (falarei disso em outro artigo).

Mas qual é a diferença entre essa "modificação genética" e a que a humanidade já vinha fazendo com os alimentos há milhares de anos?

Pense, leitora, no milho e no gado que eu vi nos campos e nas pastagens. O milho começou sua "carreira" como uma gramínea silvestre que produzia poucos e minúsculos frutos semelhantes a uma espiga. Mais de 5 mil anos atrás, os povos da América Central começaram a selecionar e plantar as sementes das plantas que preferiam, descartando o restante delas. A partir desse momento, depois que o milho começou a viajar pelos continentes, esse cultivo seletivo mudou intencionalmente o formato e o tamanho do milho, lentamente transformando-o nas variedades doce, bicolor e azul que conhecemos hoje.

Pense, também, na bela e generosa vaca. Dóceis produtoras de quantidades abundantes de nutritivos leite e carne, as vacas modernas são o resultado de mais de 10 mil anos de modificações influenciadas pelo homem. As vacas evoluíram do que eram: uma besta selvagem e com cascos chamada auroque. A domesticação do auroque começou há tento tempo que os arqueólogos se referem a esse período por sua denominação geológica, o Holoceno. Foi nessa época em que nossos antepassados começaram a selecionar e criar os animais que fossem mais úteis para eles, alterando, com isso, a conformação genética da prole.

Na verdade, todos os vegetais e animais que vi nas fazendas pelas quais passei passaram por transformações genéticas radicais desde o tempo de seus ancestrais selvagens.

Nossos antepassados, sem saber absolutamente nada sobre DNA ou genes, influenciaram mudanças na conformação genética do seu alimento, tornando-o mais saboroso, nutritivo e fácil de criar e plantar. Hoje, os cientistas sabem como o DNA dos vegetais e dos animais determina suas características. A ferramenta da engenharia genética (ou da modificação genética) é uma maneira de aproveitar esse conhecimento na busca incessante por alimentos melhores.

Os geneticistas descobriram inclusive maneiras de aperfeiçoar os alimentos através da transferência de genes de uma espécie para outra, como os mamões resistentes a doenças, que emprestam um gene do vírus que os ataca, ou os tomates que incorporam genes de uma flor chamada boca-de-leão. Esses métodos trazem reflexos dos nossos antepassados. Eles evocam os povos do Crescente Fértil que cruzavam o capim Aegilops cylindrica com trigo selvagem para produzir um grão mais resistente, ou os faraós do Egito, que cruzavam burros com cavalos para criar as fortes e robustas mulas. A diferença é a precisão, o conhecimento e a velocidade com que, hoje em dia, é possível fazer esses aprimoramentos.

Portanto, para responder à pergunta que fiz no título deste artigo, a moderna modificação genética é simplesmente um método diferente de conseguir exatamente o mesmo tipo de modificação genética que os agricultores conseguem há milênios. Nesse sentido, praticamente todos os alimentos, todas as lavouras e todos os animais domesticados que existem hoje podem ser considerados "transgênicos".

A engenharia genética dos alimentos não é novidade. A novidade está tão somente nas técnicas para realizá-la.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Conto dos Dois Tomates



Depois do furor sobre os produtos transgênicos cerca de uma década atrás, me peguei pensando sobre os "organismos geneticamente modificados" (OGMs, ou, no popular, transgênicos) quando passei em frente da pet shop da minha rua e prestei atenção no "T" preto dentro de um triângulo amarelo (ícone que indica a presença de transgênicos no produto). Voltei a pesquisar o assunto na "internê" e, nas duas primeiras, duas coisas me ocorreram: o enorme potencial da biotecnologia para melhorar os alimentos e o debate incrivelmente rancoroso em torno desses alimentos. Se minha (parca) disciplina e meu extenuante trabalho permitirem, pretendo, nas próximas semanas, me aprofundar bastante na polêmica que envolve os transgênicos. Hoje começo falando sobre alguns temores específicos e sobre a oposição enfrentada pelos alimentos criados pela bioengenharia.

Vou pegar "à unha" esses temores e essa oposição nas próximas semanas e examinar o que eles revelam sobre o movimento contrários aos OGMs. Mas antes de mergulhar nessas águas pantanosas, vamos refletir por alguns instantes para não perder o céu de vista enquanto estamos atolados no lamaçal das paixões argumentativas.

Começo dizendo que está bastante claro que os alimentos criados pela bioengenharia já lograram um êxito estrondoso. A biotecnologia tem sido usada para ajudar os agricultores a aumentar o rendimento de suas plantações e acrescentar vitaminas e minerais aos alimentos. Os avanços da biotecnologia também têm auxiliado na luta contra o inimigo número um das lavouras (as pragas), além de serem usados também para diversão e estética (basta ver o caso dos peixes fluorescentes e das rosas azuis). As lavouras de bioengenharia passaram a ser a tecnologia agrícola mais adotada da história da humanidade, e tudo isso foi feito em menos de duas décadas.

Mas isso significa que eu sou um defensor figadal dos transgênicos?

Vou contar a vocês a história de dois tomates: o Indigo Rose e o "tomate roxo". Ambos foram inventados para produzir um nutriente chamado antocianina, um nutriente normalmente encontrado em frutas como, por exemplo, a amora. Um deles (o Indigo Rose) foi criado pelo antiquíssimo método da hibridação. O outro (tomate roxo) foi inventado pela moderna técnica da engenharia genética, transferindo genes da boca-de-leão (Antirrhinum majus) para ajudar o tomate a produzir a antocianina. Em em ambos os casos, a idéia era criar um tomate que reunisse todos os benefícios do tomate à saúde com os benefícios nutricionais extras da ingestão de amoras, por exemplo. Ambos foram muito bem-sucedidos.

Então, como consumidor de tomates, qual eu escolheria? O tomate roxo se mantém fresco por muito mais tempo, ou seja, é possível deixá-lo amadurecer e desenvolver sabor na planta por um período mais longo. Por outro lado, o Indigo Rose é muito saboroso e ótimo para ser plantado em jardins. Ambos têm a antocianina, que lhes aporta uma coloração profunda e escura, e ambos têm um aspecto suculento e convidtivo. Se eu tivesse que decidir qual deles comprar, minha escolha seria fundamentada num leque amplo de fatores, como paladar, marca, frescor, tamanho, valor nutricional, facilidade de encontrar e preço. A variedade engendrada pela biotecnologia não seria necessariamente melhor, assim como a variedade híbrida. Eu escolheria a que fosse melhor para mim. E se eu achasse que uma era superior à outra, seguramente não defenderia que a outra fosse proibida ou impedida de chegar a qualquer país.

Sabem por que eu não faria isso? Porque sou um defensor empedernido do ser humano.

Quero que as pessoas tenham a liberdade de inventar, desenvolver, cultivar, vender e comprar qualquer alimento que melhore suas vidas. Às vezes isso implica dar tiros no escuro e procurar variações genéticas nunca dantes exploradas. Outras vezes, isso implica realizar uma hibiridação meticulosa do trigo para criar uma variedade robusta ou inserir na banana um gene que aporte resistência a doenças. Cientificamente falando, esses métodos de bio-inovação devem ser julgados com base no fato de melhorarem, prolongarem ou tornarem a vida das pessoas mais feliz; do ponto de vista político, eles devem ser julgados à luz da infração ou não de direitos de propriedade.

Por exemplo, talvez a engenharia genética nem sempre seja a melhor ferramenta para essa tarefa, cientificamente falando. Ela é, por natureza, uma ferramenta muito precisa. Estou falando de transferir ou retirar genes específicos que determinam características específicas. Se eu quiser, por exemplo, mudar a cor de uma rosa, essa pode ser a ferramenta ideal. Mas se eu quiser fazer brócolos resistentes ao calor, provavelmente a engenharia genética não ajude tanto, pois a resistência ao calor é, provavelmente, controlada por um número considerável de genes. Nesse caso, a hibridação pode ser a melhor opção. Se eu preciso derrubar uma parede, não vou atrás de uma lixadeira. Uma marreta seria uma solução mais "elegante".

O objetivo que a engenharia genética pretende atingir é melhorar os alimentos e, por via de conseqüência, as nossas vidas. Essa é uma finalidade digna.

Pelo que tenho visto, a engenharia genética é uma excelente ferramenta que está disponível na caixa de ferramentas identificada como “aprimoramento alimentar”. Do ponto de vista político, é uma ferramenta que os agricultores devem ter o direito de usar da maneira que julgarem conveniente, desde que - é claro - os direitos de propriedade de terceiros sejam respeitados. Se os alimentos geneticamente modificados são úteis para as pessoas ou se são algo que os consumidores querem comprar e preparar no jantar, cabe exclusivamente a elas decidir. Ou pelo menos deveria caber, por motivos que eu apresentarei em artigos futuros.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O Dia da Terra é contrário à vida humana


Hoje é um "feriado religioso" que deveria fazer com que todos nos tornássemos ateus. Vinte e dois de abril de 2013 é o aniversário do Dia da Terra. Para muita gente, não passa de um dia de pensar de maneira acolhedora e confusa sobre ar puro, rios cristalinos, florestas verdejantes e rouxinóis canoros. Até a década de 1990, o 1º de Maio marcava a idolatria dos comunistas por uma abstração denominada "os trabalhadores", às custas dos verdadeiros trabalhadores de carne e osso e de todos os outros seres humanos do planeta. O resultado foi uma carnificina. Agora, o Dia da terra marca a idolatria dos extremo-ambientalistas pelo planeta em si, às custas de todos os seres humanos que o habitam. Se a seita continuar crescendo, os resultados serão os mesmos conseguidos pelos vermelhos.

Não há problema nenhum se indivíduos quiserem preservar as florestas, as flores, os lagos, etc. em suas propriedades e em seu próprio benefício, nem se quiserem reduzir os danos efetivos e mensuráveis causados aos seres humanos, por exemplo, pela poluição do ar e das águas. Seja como for, os priores problemas de poluição já foram quase totalmente resolvidos nas últimas décadas.

Contudo, os extremo-ambientalistas transformaram preocupações legítimas em uma seita. Se eu disser a alguém que não reciclo o lixo, por exemplo, serei tratado como se eu fizesse troça de Maomé na Arábia Saudita. Quando a reciclagem fizer sentido do ponto de vista econômico e ambiental, surgirá um mercado para os materiais reciclados e não haverá necessidade de que o governo meta sua longa colher no assunto. Acontece que, muitas vezes, a reciclagem gera custos líquidos de milhões de reais e prejudica o meio ambiente. Levando em consideração as frotas de caminhões necessárias para recolher as suas garrafas (que você deve, antes, lavar) e as instalações usadas para moer ou derreter o vidro (que consomem uma quantidade absurda de energia), acaba sendo melhor simplesmente jogar tudo no lixo como sempre se fez.

Já se escreveu muita coisa sobre a incapacidade dos ambientalistas de de comprovar quantos supostos problemas realmente prejudicam os seres humanos. Faz mesmo alguma diferença reduzir a quantidade de uma determinada substância na água de duas partes por bilhão para uma parte?

Já se escreveu muita coisa sobre a ciência fajuta por trás de muitos programas ambientais e sobre os graves problemas que esses programas criam para as pessoas, em comparação com seus benefícios  minúsculos. O DDT não é o diabo que muita gente pinta, mas a falta de uso dele para erradicar insetos patogênicos causou milhares de mortes.

O que exige mais atenção é o problema dos valores fundamentais do extremo-ambientalismo. A origem definitiva e o padrão de todos os valores é a vida humana. Pedras, lama, oceanos, montanhas, peixes e aves não têm valor intrínseco nenhum em si mesmos ou por si mesmos. Eles não são nem bons nem maus. Eles simplesmente são. É na relação com nós outros, seres humanos, que as coisas apresentam seu valor.

Devemos usar nossas mentes racionais como indivíduos para descobrir os meios de sobreviver e prosperar. Um animal tem valor porque podemos usá-lo para nos alimentar ou admirar sua beleza. A água tem valor porque podemos bebê-la ou nadar nela. As pedras e árvores têm valor porque podemos construir casas com elas, ou podemos subir nelas por diversão. Os brejos talvez não tenham valor porque estão exatamente no ponto onde queremos construir uma casa.

E, naturalmente, "nós" não significa um coletivo abstrato, e sim cada um de nós, na qualidade de indivíduos. Essa é a questão da propriedade privada. Cada um de nós deve ter a liberdade de possuir e usar nosso patrimônio para o nosso bem enquanto indivíduos.

Os extremo-ambientalistas tiram os indivíduos da jogada. Eles falam do valor dos ecossistemas, habitats e pantanais sem se referir aos seres humanos em geral nem a indivíduos específicos que possam possuir patrimônio material e dele fazer uso. A rigor, os extremo-ambientalistas criam uma seita da deusa Gaia que põe os seres humanos em segundo plano. Muitos extremo-ambientalistas já dizem abertamente, por exemplo, que rotulam as pessoas como "poluição do planeta". Existe até mesmo um Movimento pela Extinção Humana Voluntária (podem procurar no Google um tal de "VHEMT"). O credo deles: "Reduzir progressivamente a raça humana, cessando voluntariamente a reprodução, permitirá que a biosfera da Terra recupere suas boas condições de saúde".

A maior parte das pessoas que comemoram o Dia da Terra retirando o lixo das ruas consiste, sem dúvida, em pessoas bem-intencionadas. Mas elas e todos nós devemos reconhecer que os fundamentos filosóficos sobre os quais uma pessoa age causará, inevitavelmente, determinadas conseqüências ao longo do tempo, independentemente da intenção. As premissas dos extremo-ambientalistas são contrárias à vida humana e, se forem levadas adiante de maneira constante, levarão a uma carnificina pior do que aquela promovida pelos comunistas. Afinal, "o verde é a nova cor do comunismo".

No Dia da Terra, devemos refletir não sobre o planeta, mas sobre os habitantes capazes de fazer com que ele valha alguma coisa.