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domingo, 29 de setembro de 2013

O ano do estudo com ratos de laboratório

Esta semana marcou um aniversário um tanto ambíguo no mundo dos organismos geneticamente modificados (OGMs). Foi no mês de setembro do ano passado que o professor Gilles-Eric Séralini e um grupo de pesquisadores franceses publicaram o que viria a ser conhecido como o “estudo dos ratos”, de triste fama.

Se vocês acompanham o noticiário sobre esse assunto, certamente leram as afirmações que ganharam as manchetes nas semanas que se seguiram: “Transgênicos aumentam em até três vezes ocorrência de câncer em ratos”, “Ratos alimentados com milho da Monsanto desenvolvem tumores” ou “Pesquisa diz que transgênicos causam tumores”, entre outras. As manchetes, habilmente engendradas para causar temor, foram completamente ofuscadas pelo que as acompanhava: fotografias de ratos de laboratório ostentando imponentes tumores.

Combination image of two pictures featuring rats with tumors after they were fed a diet of genetically modified (GM) maize produced by US chemical giant Monsanto (AFP Photo / Criigen)

Quase imediatamente, o estudo foi condenado pela comunidade científica, que salientou problemas graves de metodologia e interpretação. Alguns, como Mark Tester, professor de fisiologia vegetal do Centro Australiano de Genômica Vegetal Funcional, questionou as afirmações fora do comum feitas no estudo. Afinal de contas, as plantas geneticamente modificadas são produzidas há 15 anos e trilhões de refeições que contêm ingredientes transgênicos já foram consumidas por seres humanos e animais. Ele fez o seguinte questionamento: “Se os efeitos são tão grandes quanto se supõe, e se o trabalho é realmente relevante para os seres humanos, por que os norte-americanos não estão morrendo como moscas?”.

Outros questionaram os métodos estatísticos empregados no estudo. Um grupo de cientistas enviou uma carta ao editor do periódico no qual o estudo foi publicado, pedindo a reconsideração da publicação. Eles criticaram as conclusões, afirmando que “[esse] estudo não apresenta provas sólidas que apoiem suas afirmações. Na verdade, as falhas do estudo são tão óbvias que o trabalho nunca deveria ter sido aprovado após a avaliação”. Até mesmo a Administração Européia de Segurança Alimentar entrou na conversa, dizendo serem “incapazes de considerar cientificamente legítimas as conclusões dos autores”.

Eu li atentamente o trabalho de Séralini et al. e não demorou para sentir cheiro de picaretagem no ar. Acompanhem meu raciocínio.

Os ratos usados no estudo são um tipo específico de rato de laboratório que costuma ser usado em pesquisas sobre o câncer. Eles são conhecidos como ratos “Sprague-Dawley”. Esses ratos podem ser úteis no estudo do câncer por causa de sua propensão ao desenvolvimento de tumores cancerosos. Alguns dos ratos alimentados com milho transgênico desenvolveram tumores (como se espera do tipo Sprague-Dawley), mas alguns ratos do grupo de controle (também ratos Sprague-Dawley) também desenvolveram. Isso não foi surpresa nenhuma. O que me causou espécie foi que os autores não acharam que valia pena indicar que todos os ratos usados se encaixavam nas porcentagens de todos os ratos Sprague-Dawley que desenvolvem tumores, independentemente da sua alimentação.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o fato de terem sido usados muito poucos ratos no grupo de controle: apenas 10 machos e 10 fêmeas. Foi dito que não houve tantos efeitos nocivos à saúde nesses grupos de controle minúsculos quanto nos 180 ratos do estudo. Mas isso não é exatamente surpreendente. Em Estatística, isso se chama “erro de amostragem”. Por exemplo, se eu pusesse uma venda sobre meus olhos e tirasse 10 Confetis™ de um saco, provavelmente não ficaria surpreso se não tirasse nenhum verde. Com uma amostra de apenas alguns docinhos, é impossível saber se aqueles que eu peguei representam a totalidade do saco. Como se diz em Estatística, “o tamanho (da amostra) conta”.

Tom Sanders, chefe da divisão de Ciências da Nutrição do King’s College de Londres, foi um dos tantos que salientaram problemas com o método utilizado. Ele afirmou que “aparentemente, os autores saíram para fazer uma pescaria estatística”. Parece que apenas um estatístico ficou satisfeito com o estudo, “pois ele é um belíssimo caso clássico para apresentar numa aula de Estatística sobre concepção, análise e apresentação incorretas”. Ele acrescentou: “Vou começar a usá-lo imediatamente”.

O estudo dos ratos e suas conclusões de que o milho transgênico causa câncer em ratos ou qualquer outro animal foi condenado praticamente por todos os outros pesquisadores como uma excursão absurda pelo reino da Estatística enganosa. O lugar desse estudo é o fundo da lixeira da pseudociência.

Mas vocês devem estar se perguntando por que eu estou desenterrando esse assunto um ano depois. Explico: é porque acho que o estudo foi significativo por outros motivos. Mas falo sobre isso daqui a alguns dias.

Por falar nisso, vocês leram o meu artigo sobre vacas e milhos? Quem perdeu, pode ler aqui.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sobre vacas e milhos: o que significa ser transgênico?

Velaquí, como é xenerosa a cara das vacas!
Neste fim de semana, voltando a São Paulo após sagrar-me vice-campeão num torneio de tênis em Limeira, cruzava o verdejante interior paulistano pela rodovia Anhangüera. É difícil não contemplar a agricultura. Às portas da primavera, já com temperaturas bem elevadas, já está quase tudo verdinho nas plantações. E, é claro, vaquinhas e boizinhos pastando alegremente.

Assistindo a esse cenário pela janela do ônibus, fiquei pensando o que significa para uma planta ou um animal ser chamado de organismo geneticamente modificado (OGM) - popularmente, transgênico. Boa parte do milho nas lavouras pela quais eu passei eram "geneticamente modificadas". Em geral, a modificação genética diz respeito à tecnologia de inserir, retirar, ou "ligar ou desligar" determinados genes do pé de milho. Os cientistas botânicos usam seu conhecimento do DNA para inserir no milho genes que o aperfeiçoam consideravelmente, por exemplo, tornando-o resistente a insetos (falarei disso em outro artigo).

Mas qual é a diferença entre essa "modificação genética" e a que a humanidade já vinha fazendo com os alimentos há milhares de anos?

Pense, leitora, no milho e no gado que eu vi nos campos e nas pastagens. O milho começou sua "carreira" como uma gramínea silvestre que produzia poucos e minúsculos frutos semelhantes a uma espiga. Mais de 5 mil anos atrás, os povos da América Central começaram a selecionar e plantar as sementes das plantas que preferiam, descartando o restante delas. A partir desse momento, depois que o milho começou a viajar pelos continentes, esse cultivo seletivo mudou intencionalmente o formato e o tamanho do milho, lentamente transformando-o nas variedades doce, bicolor e azul que conhecemos hoje.

Pense, também, na bela e generosa vaca. Dóceis produtoras de quantidades abundantes de nutritivos leite e carne, as vacas modernas são o resultado de mais de 10 mil anos de modificações influenciadas pelo homem. As vacas evoluíram do que eram: uma besta selvagem e com cascos chamada auroque. A domesticação do auroque começou há tento tempo que os arqueólogos se referem a esse período por sua denominação geológica, o Holoceno. Foi nessa época em que nossos antepassados começaram a selecionar e criar os animais que fossem mais úteis para eles, alterando, com isso, a conformação genética da prole.

Na verdade, todos os vegetais e animais que vi nas fazendas pelas quais passei passaram por transformações genéticas radicais desde o tempo de seus ancestrais selvagens.

Nossos antepassados, sem saber absolutamente nada sobre DNA ou genes, influenciaram mudanças na conformação genética do seu alimento, tornando-o mais saboroso, nutritivo e fácil de criar e plantar. Hoje, os cientistas sabem como o DNA dos vegetais e dos animais determina suas características. A ferramenta da engenharia genética (ou da modificação genética) é uma maneira de aproveitar esse conhecimento na busca incessante por alimentos melhores.

Os geneticistas descobriram inclusive maneiras de aperfeiçoar os alimentos através da transferência de genes de uma espécie para outra, como os mamões resistentes a doenças, que emprestam um gene do vírus que os ataca, ou os tomates que incorporam genes de uma flor chamada boca-de-leão. Esses métodos trazem reflexos dos nossos antepassados. Eles evocam os povos do Crescente Fértil que cruzavam o capim Aegilops cylindrica com trigo selvagem para produzir um grão mais resistente, ou os faraós do Egito, que cruzavam burros com cavalos para criar as fortes e robustas mulas. A diferença é a precisão, o conhecimento e a velocidade com que, hoje em dia, é possível fazer esses aprimoramentos.

Portanto, para responder à pergunta que fiz no título deste artigo, a moderna modificação genética é simplesmente um método diferente de conseguir exatamente o mesmo tipo de modificação genética que os agricultores conseguem há milênios. Nesse sentido, praticamente todos os alimentos, todas as lavouras e todos os animais domesticados que existem hoje podem ser considerados "transgênicos".

A engenharia genética dos alimentos não é novidade. A novidade está tão somente nas técnicas para realizá-la.