quinta-feira, 19 de junho de 2014

"Malévola": um filme malévolo

ATENÇÃO: ESTE ARTIGO CONTÉM REVELAÇÕES SOBRE O ENREDO. SE AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME COMENTADO, SUGIRO QUE PARE DE LER AGORA.



Na última terça-feira, logo após a partida Brasil x México, fui ao cinema (Cinemark do shopping Metrô Santa Cruz) e, após breve “reunião deliberativa” com minha namorada, decidimos por comprar ingressos para “Malévola” (título original “Maleficent”).

Após 1h37 de exibição, terminado o filme, saí do cinema bastante incomodado com o enredo do filme. Explico.

Contos de fadas “adaptados” já são tradicionais na cultura popular dos Estados Unidos. Jay Ward ficou famoso por um segmento exatamente com esse título no seu desenho animado “As Aventuras de Alceu e Dentinho” (The Adventures of Rocky and Bullwinkle). Mesmo nas doses homeopáticas administradas por Jay Ward, os contos de fadas privados de seu teor dramático original por meio de ironias, alusões, referências populares e, é claro, linguagem coloquial, acabaram se transformando em peças ao mesmo tempo banais e banalizantes. Muitas vezes tive a impressão de que eles diziam “Escuta, você não tem nada melhor para fazer? Acho que tenho aqui uma historinha, mas não espere muita coisa dela, está bem?”

Como acontece com tudo o que é banal, Hollywood pegou o conto de fadas adaptado e o amplificou a proporções astronômicas. Infelizmente, as proporções só fazem destacar a falta intrínseca de significado do produto e a condescendência com que os produtores passaram a encarar o público. Algum estudante de algum curso de Cinema pode acabar escrevendo uma tese (ou, vá lá, um TCC) sobre os significados mais profundos das animações “Shrek” (da Dreamworks) ou “A Onda Nova do Imperador” (da Disney) – e, o que é pior: tenho certeza de que alguém já fez isso, e, se fez, aposto dez contra um desconfio que foi na Escola de Comunicações e Artes da USP), mas o resultado seria um monstruoso vácuo intelectual.

E agora, nas telonas brasileiras, temos Malévola. Trata-se da reductio ad nauseum (para “adaptar” uma expressão) dos contos de fadas. O filme (bem, chamá-lo de filme é exagerar sua importância) é “produzido” e “estrelado” por Angelina Jolie, uma anoréxica que já foi atraente e que permanece igualzinha quanto à sua falta de talento perceptível como atriz. Malévola nem sequer se preocupa em indicar suas várias adaptações (ironias e alusões exigem um esforço demasiado). A produção é, na verdade, um negócio tão improvisado, que despreza tanto o público e o conto A Bela Adormecida que ela corrompe, que fico imaginando como os roteiristas conseguiam ficar acordados durante o trabalho. A rigor, é terrivelmente irônico que o filme tenha passado por tantas mudanças de roteiro e até mesmo de filmagem. Só posso imaginar que o resultado teria sido uma história tão esquisita, complicada e chata que os produtores acharam melhor simplesmente arrancar tudo o que fosse além do minimum minimorum de uma história que pretende “corrigir” o conto original.

Não se trata de uma história de “comédia”, então fomos (bastante) poupados de qualquer tentativa de humor da Angelina Jolie ou dos adereços ao seu redor na tela. O que vimos foi um “conto moral” tão tosco que foi incapaz sequer de suscitar a ira de qualquer adulto (ou adolescente) pensante que estivesse na sala de cinema.

O filme certamente nos mostra que a Bela Adormecida (Princesa Aurora) foi amaldiçoada não por uma fada má, mas por um Papel Feminino Forte que foi não apenas desprezada, mas também traída e mutilada por um idiota mentiroso determinado a usá-la para conquistar poder e riqueza. Embalada por uma falsa sensação de segurança criada por declarações de afeto, Malévola adormece e suas asas (negras) são cortadas. Com certeza o criminoso não é capaz de demonstrar remorso verdadeiro, e usa sua deslealdade para conquistar o trono de sua terra e procurar destruir a terra mágica governada por Malévola. Quase sem dúvida alguma (poderia dizer “previsivelmente?”) a fada boa (e Papel Feminino Forte) Malévola é levada quase à loucura e a um ato imprudente e hostil do qual ele logo se arrependerá. Tendo amaldiçoado a filha do rei a cair em sono eterno ao final do seu décimo-sexto aniversário (a menos que seja salva por um Beijo de Amor Verdadeiro, no qual ela não acredita mais), Malévola “amolece”, como era de se esperar. Enquanto seus súditos sofrem, ela (é claro) cuida da criança e acaba amando-a. E, com certeza, nossa heroína se redime no final, mostrando sua força, a fraqueza final do homem ganancioso que, no fim das contas, age movido por medo e culpa, restabelecendo a paz e o bem-estar para si, sua terra e o belo adereço de cena que é a Bela Adormecida.

Malévola até mesmo nos oferece uma cena em que um belo príncipe se mostra impotente para despertar a Bela Adormecida ao tentar curá-la com o Beijo de Amor Verdadeiro. Não tenho dúvida de que esse último toque tinha a intenção de surpreender o público. Mas não há tensão nenhuma na cena. Ficamos sabendo, a essa altura, que, nesse mundo, os homens têm pouco a oferecer além de sofrimento. E tudo isso é tão improvisado e terrivelmente “conveniente” que a mensagem politicamente correta é incapaz de comover a ninguém.

No final, como é de praxe, nos é servida uma cena de vitória, estando o Príncipe seguro em segundo plano, e Malévola reunida com a Bela Adormecida, a qual ela mesma despertou com seu beijo. Talvez, se os produtores tivessem esperado mais um ou dois anos para fazer esse filme, as moças teriam se casado. Mas não importa. Na verdade, nada nesse filme importa. Ele não passa de mero espetáculo. Uma coleção de efeitos especiais (o dragão é muito legal mesmo!) e cenas de luta bem desajeitadas servem para prender nossa atenção por tempo suficiente para comer a pipoca e beber o refrigerante. Além disso, e do desejo de “dar o recado” pelo próprio fato de ter um Papel Feminino Forte predominante, o filme não tem absolutamente nada que seja sequer digno de repulsa intensa. Talvez se os produtores tivessem mantido os personagens extras esquisitos o filme teria sido pelo menos detestável, mas até nisso ele fracassa.

Eu assisti a outro filme da Disney, ”Frozen: Uma Aventura Congelante”, e ele merece todos os meus elogios. A animação foi menos um conto de fadas adaptado do que uma história original inspirada por uma maravilhosa narrativa à la Hans Christian Andersen. Mas, em Frozen, existe narrativa e coerência normativa. A vitória é conquistada através do amor de uma irmã pela outra e a heroína ganha não apenas o amor da família, mas também uma abertura mais amadurecida para a possibilidade de um verdadeiro amor romântico. Os roteiristas de Frozen criaram uma bela história que pretendia apresentar uma virtude verdadeira. Em Malévola, a Disney enveredou por um caminho que a está tornando cada vez pior do que já é. Previsto, sem dúvida alguma, como mais um “filme subversivo” (como “Pocahontas”) que golpeia as normas tradicionais, o resultado final prevalece até mesmo sobre a correção política rastaqüera.

Malévola é literalmente degradante em todos esses aspectos, e sua atitude ficou tão comum que deixa evidente uma cultura degradada. A opinião dos produtores do filme parece ser que eles têm direito – desde que preguem as atitudes “certas e tenham um Papel Feminino Forte – de abrir mão de qualquer história real e bem trabalhada que mostre emoções e motivações reais que exponham tanto virtudes como vícios reais.

Quanto ao Papel Feminino Forte, é cada vez mais comum na nossa sociedade que todos afirmem exigir que todas as mulheres sejam “fortes” no estreitíssimo e limitadíssimo sentido de serem capazes de realizar atos vigorosos, exibir emoções fortes e sair derrubando tudo à sua volta. É triste observar que, para muita gente (especialmente hos homens) na nossa cultura, mulheres “fortes” são mulheres que podem ser usadas e descartadas sem remorso porque são “iguais” e “responsáveis por suas próprias vidas”, como se todos não fôssemos, no fim das contas, responsáveis uns pelos outros. A mulher realmente forte na nossa atual sociedade é aquela capaz de dar a uma bobagem tão pedante quanto esse filme o valor que ela realmente tem: doutrinação dirigida a privá-las de sua natureza humana e afastá-las de vocações mais elevadas, rebaixando-as ao nível dos reduzidos homens, que, hoje, aprendem que a força não significa na da além de rechaçar os papéis tradicionais, convergindo em ambigüidade sexual, depois seguindo seus desejos do momento. Ah, e sem se esquecer de ir regularmente ao cinema para assistir a filmes insípidos.


Muito obrigado por nada, dona Disney!

domingo, 30 de março de 2014

O esquerdismo contra a busca da felicidade

O egoísmo é uma coisa boa não porque “eleva o padrão geral de vida” nem porque “aumenta a produtividade dos trabalhadores”. Se não proporcionasse nenhuma dessas duas coisas, o egoísmo ainda seria uma coisa boa por um motivo ainda mais fundamental: ele é a motivação correta da nossa natureza enquanto seres humanos. Em resumo, o egoísmo é plenamente moral.

No entanto, a esmagadora maioria do debate público hoje em dia se dá dentro do paradigma moral estabelecido pela doutrinação esquerdista universal. Até mesmo pessoas de bons princípios que desejam defender a liberdade entram, muitas vezes, em debates confusos e invencíveis porque aceitaram, inconscientemente, as premissas morais da esquerda.

O paradigma esquerdista é difuso e sofisticado, mas pode ser resumido num único pensamento: “os indivíduos existem para o Estado, e não o contrário”. À primeira vista, essa idéia não é nova. A novidade é que essa idéia (que antes recebia o nome correto de tirania), foi reciclada e ganhou estatuto moral. Uma aliança entre pensadores sérios e subversivos espertos deslocou fundamentalmente o ônus da prova em questões morais em favor da presunção da autoridade coletiva sobre cada aspecto da vida. Esse princípio profundamente arraigado reduz todos que não se libertaram radicalmente dele à posição pírrica de argumentar que o afrouxamento do controle do Estado se justifica porque será benéfico de alguma forma para o Estado, defendendo a liberdade como uma maneira mais eficiente de atingir objetivos tirânicos, e não como nosso direito natural.

Se quisermos ter qualquer esperança de, por fim, recuperar a devida proporção das coisas, é essencial entender com exatidão como o ônus da prova moral se deslocou e como esse deslocamento distorceu o debate político.

Uma tradição intelectual desenvolvida no início da Era Moderna enquadrou a questão política básica da nossa época, da seguinte maneira: “Por que os homens livres precisam de governo?" Daí vieram as famosas teorias do “estado da natureza”, o vocabulário dos “direitos naturais” e “contratos sociais”, e o estabelecimento paulatino dos princípios do governo limitado.

Hoje em dia, o esquerdismo – tendo alimentado a humanidade por meio do seu moedor de carne educacional, artístico e burocrático – suplantou a questão política básica da Era Moderna e a inverteu: “Por que o governo precisa de homens livres?” 

A primeira questão surgiu da premissa de que seres humanos individuais e suas necessidades são naturais e primários, de forma que as imposições da autoridade coletiva sobre as relações sociais só se justificam na medida em que elas ajudam a promover nossos objetivos racionais e pré-governamentais. A segunda questão, que está implícita em toda a política contemporânea, decorre da premissa de que o coletivo é a realidade principal, de forma que qualquer liberdade individual que se permita desfrutar se justifica somente na medida em que atende aos objetivos da coletividade, os quais são definidos pelo Estado.

Como a civilização chegou a essa completa inversão metafísica e moral, da presumida prioridade do indivíduo racional concreto para a presumida prioridade de uma abstração denominada “sociedade”?

Foram os filósofos alemães revolucionários do final do século XVIII e do início do século XIX (Kant, Fichte, Hegel), seguidos por seus críticos e herdeiros intelectuais, de Schopenhauer a Marx, que desenvolveram as teorias que destruíram as almas e corroeram a Era Moderna. A base moral de sua influência corruptora era a visão de que o egoísmo (cujo significado é tão somente a busca da felicidade) é intrinsecamente imoral e servil, ao passo que a verdadeira liberdade implica a submissão da vida da pessoa aos interesses da coletividade, ou seja, do Estado. 

Essa virada histórica, do indivíduo como fonte de qualquer coletividade possível para a coletividade como fonte do que o indivíduo pode preservar, floresceu plenamente na Ética de Kant. 

O pensamento do século XVIII foi abalado pelas implicações aparentes da Física newtoniana: se o novo materialismo científico é mesmo abrangente – se a natureza mecanicista é tudo o que existe –, então o homem também deve ser redutível às leis de causa e efeito da ciência. Mas isso, temia-se, significaria o fim de todos os sonhos de singularidade humana, fazendo da liberdade moral uma mera percepção delirante do nosso lugar na cadeia causal da natureza.

A famosa solução de Kant, cristalizada em seu “imperativo categórico”, era que a única maneira de nos vermos como indivíduos livres, e não como parte de uma natureza mecanicista, seria rejeitar todas as motivações de interesse individual em favor da obediência a máximas morais universalizáveis. Em outras palavras, deveríamos obedecer a regras de comportamento “racionais” formadas independentemente de considerações contextuais, ou seja, independentemente de qualquer preocupação com nossa felicidade.

Esclareço: na maioria dos casos, as escolhas morais, entendidas da maneira clássica, são fundamentadas nas condições práticas da vida das pessoas, exigindo a combinação de um caráter bem-formado com um raciocínio prático maduro, ou seja, virtude, para encontrar e se dedicar à aurea mediocritas, definida pela situação específica e pela natureza humana. Portanto, a virtude não é apenas coerente com o nosso desejo de bem-estar ou felicidade (devidamente entendido), mas também sua realização. Viver de maneira virtuosa corresponde a buscar o bem – que é naturalmente desejável – através das escolhas feitas de acordo com nossas circunstâncias e com a natureza de um animal racional, que, por sua vez, é ser feliz. 

Essa fórmula é detalhada no mais influente de todos os tratados morais, a Ética a Nicômaco, de Aristóteles, mas sua base (de que o homem é o animal que busca a felicidade) pode ser facilmente encontrada no pensamento moral existente antes da obra, de Sócrates a Demócrito, passando por Pitágoras; posteriormente seguiram essa linha os filósofos cristãos da Idade Média, os racionalistas e empiristas do Iluminismo, e, a rigor, toda e qualquer filosofia moral digna do nome.

Kant rechaçava categoricamente essa concepção de virtude fundada no desejo natural de felicidade (o desejo de se sentir “completo” e “perfeitamente vivo”) em favor da exigência de dever e obediência, desconsiderando a avaliação contextual que revela a legítima virtude. Em outras palavras, ele exigia que os homens negassem sua busca pelo que era bom para eles em favor do “bem” abstrato dele (a máxima universalizável), o qual, explicitamente, não era o bem de qualquer ser humano individual per se, mas a forma de silenciar toda e qualquer motivação egoísta. Disso decorre que todas as ações voltadas a atingir o bem-estar individual devem ser consideradas não apenas alheias ao domínio do raciocínio moral legítimo, mas, com efeito, uma motivação neutralizante que deve ser eliminada do pensamento moral. Em outras palavras, segundo o Kantismo, o desejo de felicidade, antes considerado uma motivação moral definidora da natureza, é, na melhor das hipóteses, moralmente irrelevante e, na pior, um obstáculo à moral pura. (A explicação que Kant dá sobre a felicidade é manifestamente confusa, trivializante e contraditória, talvez porque ele quisesse eliminá-la do domínio dos objetivos morais, mas sem conseguir ver como negar totalmente o valor dela).

O discípulo esquerdista mais influente de Kant, o autoritário Fichte, extraiu todas as implicações da Ética kantiana, aplicando à política prática o que Kant havia deixado em grande parte no domínio da teoria. Fichte, possivelmente o primeiro verdadeiro esquerdista no sentido estrito, se opunha à preocupação de Kant com a salvação da dignidade e do livre-arbítrio humanos, considerando-os um retrocesso ilegítimo à antiga moral do egoísmo que, em termos sempre kantianos, deve ser eliminado pela raiz. Declarando o livre-arbítrio como inimigo da verdadeira moral e prescrevendo sua erradicação como a principal função da educação, Fichte defendia a obediência ao dever social por si mesmo e, especificamente, a submissão da consciência individual ao coletivo. O Estado suplantaria a função de um ser transcendental da religião tradicional, substituindo Deus por um novo Paraíso na Terra, também definido por Fichte como “a nação”, “Alemanha” e “o futuro”. 

Paradoxalmente, a vida espiritual da liberdade moderna estava longe de acabada, mesmo quando a implementação prática mais plena dessa vida, a América, ainda estava em sua infância. A primeira nação a fazer da “busca da felicidade” um princípio fundamental explícito – uma expressão sucinta e expressiva do liame entre moral e liberdade política – seria obrigada a crescer num mundo em que essa busca acabara de ser declarada ilegítima e imoral pelos principais intelectuais. A verdadeira vanguarda e esperança da modernidade foi, de repente, tachada de perdidamente retrógrada e superficial, aferrando-se a uma perspectiva moral antiquada que colocava o “simples” bem-estar individual acima do bem do Estado.

Daí foi um pequeno passo para o desenvolvimento do socialismo do século XIX e do comunismo – a Paz Perpétua de Kant estabeleceu o alicerce espiritual da Organização das Nações Unidas, e os Discursos à Nação Alemã de Fichte já exigiam a doutrinação compulsória contra a consciência e a propriedade privadas. Entre as elites intelectuais européia e norte-americana do século XIX, educadas nas novas filosofias alemãs da moda, muitas vezes estudando em universidades alemãs, a idéia de que a moral implicava a recusa de todas as motivações de interesse próprio se alastrou como fogo na floresta. Essa recusa da busca da felicidade pessoal (o coração do pensamento moral correto) seduz tanto os intelectuais rancorosos quanto os operadores da política, sedentos de poder, pois menospreza todas as esperanças ou motivações humanas que possam desafiar os grandiosos projetos, de um tipo ou de outro, artificialmente impostos. O despotismo paternalista e os ataques teóricos a todas as noções de governo estão enraizados na liberdade natural foram o “arroz com feijão” do pensamento Ocidental “avançado” durante todo o século XIX, impulsionaram as atrocidades totalitárias do século XX e são a essência da política institucional de hoje. 

Já o inevitável descompasso entre a evolução dos principais pensadores e a evolução das “massas” ou do “povo” pode ser atribuído à implementação gradativa da verdadeira sociedade esquerdista imaginada pelos precursores acadêmicos e políticos. A educação pública universal, que era o passo mais indispensável, chegou logo, calcada nas escolas prussianas originais inspiradas por Fichte. Pari passu à educação pública vieram a marginalização do papel da família no desenvolvimento das crianças (meta primordial dos primeiros defensores da escola pública), a diminuição da distinção entre homens e mulheres (transformando gradualmente as partes complementares da natureza em “operários” espiritualmente uniformes), e o enfraquecimento da fé religiosa em favor da deificação do governo.

Psicologicamente, a recusa da ética da felicidade em favor da auto-abnegação “desinteressada” diminuiu e desnaturou nossa espécie, gerando a personalidade moral dividida que assola a sociedade moderna – uma cruza de coletivismo sentimental com a busca niilista do “eu”.

Uma teoria defeituosa não pode mudar a natureza. Os seres humanos devem buscar e continuarão buscando sua preservação e seu desenvolvimento. Contudo, em virtude da difamação universal da felicidade individual como uma motivação imatura ou imoral, os homens foram deixados sem uma educação calcada na razão e sem a natureza para orientar sua busca pelo bem. O resultado político dessa dissonância moral é a corrente predominante de hoje: pessoas gananciosas, vorazes e irracionais em busca do prazer que, além disso, são idiotas úteis nas mãos de todo demagogo carismático que agite seu sentimentalismo niilista contra “os ricos”, “os cruéis”, e aqueles que têm “mais do que a parte justa que lhes cabe”. 

O ataque peçonhento da academia alemã ao individualismo e à ética da felicidade pessoal (ou seja, à virtude) infectou rapidamente cada órgão da modernidade, dos pináculos da torre de marfim às mais modestas escolas com uma única sala de aula. Os dogmas morais das filosofias idealistas e pós-idealistas alemãs (de Kant e Fichte a Marx Marx e Engels, chegando até a Escola de Frankfurt) se transformaram nas crenças que definem o mundo moderno ultimamente:
  • O indivíduo é simplesmente uma faceta ilusória da coletividade.
  • O egoísmo, que significa a preocupação com o próprio bem-estar, é imoral.
  • A busca da própria felicidade é mesquinha e superficial.
  • A verdadeira moral está na submissão da mente individual à coletividade.
O futuro pertence àqueles que aceitam a trajetória da História, que está paulatinamente dissolvendo todas as distinções entre nações, entre homens, entre homens e mulheres, entre adultos e crianças e entre razão e sentimento. Estamos sendo arrastados juntos pela corrente da História para sonho caleidoscópico de autocriação coletiva orientada pelo Estado ilimitado.

Contrárias aos brutamontes alemães mais impacientes, como Fichte e Marx, as formas pluralistas de autoritarismo esquerdista provaram, de maneira geral, ser o meio mais duradouro de incorporar ideais coletivistas a uma sociedade. Talvez isso se deva ao infindável gênio do homem democrático de embelezar o Inferno com correntes ricamente ajaezadas e chamas perfumadas. Assim, “o império do povo”, filtrado pelo prisma da ética coletivista, passa a ser a pretensão de cada homem de reivindicar legitimamente a vida, o tempo, e o trabalho de todos os outros homens. 

Esse é o mecanismo pelo qual o “despotismo de veludo” de Tocqueville foi implementado em escala mundial. O mecanismo tem dois lados (ou duas fases). O lado famoso é o que conhecemos por “mentalidade dos direitos”, que, em termos simples, é a pretensão de que cada integrante da coletividade é dono de todos os outros e, portanto, pode exigir coisas deles à força.

Contudo, o outro lado da moeda, igualmente importante, é a suposição de que cada homem é propriedade da coletividade e, portanto, deve render tributo à besta para ser considerado digno de viver. A função desse lado, do ponto de vista dos esquerdistas (que o cultivam com esmero), é reforçar a ética da negação do “eu”, inculcando a regra social da submissão ao Estado, pela qual quem resistir ao seu devido papel de servo da coletividade (ou seja, do Governo) deve ser proscrito como “egoísta” e punido e/ou reeducado.

Isso nos leva ao ponto em que começamos: até entendermos e rechaçarmos toda essa estrutura ética (a filosofia alemã que se tornou o pano de fundo moral da nossa civilização), nunca conseguiremos argumentar adequadamente em favor da liberdade. Se aceitarmos a premissa de que a busca da felicidade é imoral (indistinta da “ganância”), seremos reduzidos ao argumento tímido e autodestrutivo de que uma parcela da liberdade deve ser tolerada como maneira mais eficaz de gerar a prosperidade que sustenta o jugo autoritário. O Partido Comunista Chinês de hoje discordaria disso? Creio que não.

Vamos voltar ao único argumento digno do assunto: os indivíduos são metafisicamente e moralmente mais antigos que as coletividades. A felicidade é nossa motivação moral correta. O homem livre não precisa se justificar perante o Estado; o Estado, sim, deve se justificar perante o homem livre. Essas são as premissas que herdamos de nossa tradição e da nossa natureza, embora, hoje, procuremos por ela no escuro, envoltos pela névoa da filosofia despótica que domina nosso mundo.

Quero concluir com uma lufada de ar moral fresco que vem d’além dessa névoa:
Et ideo ultima et perfecta beatitudo, quae expectatur in futura vita, tota consistit in contemplatione. Beatitudo autem imperfecta, qualis hic haberi potest, primo quidem et principaliter consistit in contemplatione, secundario vero in operatione practici intellectus ordinantis actiones et passiones humanas, 
Portanto, a felicidade definitiva e verdadeira que se espera na vida que virá, consiste inteiramente na contemplação [da essência divina]. Mas a felicidade imperfeita, como a que se pode ter aqui, consiste primeira e principalmente na atividade do intelecto prático para a direção das ações e paixões humanas (...)
[Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, Tratado sobre o Fim Último, Quaestio III, Articulus VI, Iª-IIae q. 3 a. 5 co.]

domingo, 9 de março de 2014

A (i)moralidade das tatuagens e dos piercings

Muitas pessoas de bem sentem repulsa por modinhas modernas, inclusive tatuagens, o uso de uma infinidade de brincos e outras perfurações pelo corpo, mas lhes falta o equipamento intelectual para fazer um juízo claro sobre a moralidade dessas práticas ou para refutar a acusação de elevar suas preferências pessoais ao estatuto de um código moral. Neste artigo, exponho alguns critérios relevantes para fazer um juízo moral sobre essas coisas.

No Antigo Testamento, foi especificamente ordenado ao Povo Eleito:

.וְשֶׂרֶט לָנֶפֶשׁ, לֹא תִתְּנוּ בִּבְשַׂרְכֶם, וּכְתֹבֶת קַעֲקַע, לֹא תִתְּנוּ בָּכֶם: אֲנִי, יְהוָה


Não farás cortes em tua carne para os mortos, nem gravarás marcas em ti: eu sou o SENHOR. (Levítico 19:28).

Inspirado por Deus, São Paulo nos adverte:

ἢ οὐκ οἴδατε ὅτι τὸ σῶμα ὑμῶν ναὸς τοῦ ἐν ὑμῖν Ἁγίου Πνεύματός ἐστιν, οὗ [ἔχετε] ἀπὸ Θεοῦ; καὶ οὐκ ἐστὲ ἑαυτῶν;

Ou não sabes que teu corpo é um templo do Espírito Santo dentro de ti, que [recebeste] de Deus?(1ª Epístola de Paulo aos Coríntios, 6:19).

Sendo um templo do Espírito Santo, nosso corpo merece o cuidado, a proteção e o decoro devidos. Em algumas culturas, uma marca ou um desenho especial no corpo – na testa, por exemplo – significa uma determinada realização ou o estado civil, ou o que for, sendo socialmente aceitável. Os cristãos etíopes, para mencionar apenas um grupo, usa cruzes tatuadas em suas testas. Em Samoa, era amplamente habitual tatuar o filho ou a filha primogênito(a) da família governante local. Nas sociedades Ocidentais, brincos e maquilagem são aceitos como parte da moda feminina e de sua apresentabilidade pública. No entanto, em nossa sociedade, alguns tipos de perfurações e decorações corporais são radicais e não se justificam, e algumas delas são motivadas por sentimentos anticristãos.

Seria impossível fazer um juízo nítido e definitivo sobre todos os adornos corporais, mas podemos indicar alguns aspectos negativos que são relevantes para um cristão. Neste artigo, deixo claro que, salvo indicação em contrário, me refiro apenas às sociedades Ocidentais. Falarei primeiro sobre os aspectos mais sérios e, depois, dos mais leves.

1. Imagens diabólicas. Tatuagens de demônios são bastante comuns, e nenhum cristão deve jamais expor a imagem de um diabo ou símbolo satânico.

2. O triunfo do feio. Esta é uma marca de Satanás, que odeia a beleza da criação de Deus e tenta destruí-la e arruinar sua apreciação pelos outros. Mais do que apenas feios, algumas perfurações corporais são a expressão prazer de ser feio.

Eu reconheço ou mau gosto em tatuagens, anéis e pinos examinando sua natureza, seu tamanho, sua extensão e o lugar do corpo em que se encontra. Ironicamente, até mesmo tatuagens floridas e coloridas desbotam com o tempo e acabam com uma aparência escura e triste. Se pensarmos em como, nos campos de concentração, os prisioneiros eram tratados como animais e tinham seus braços marcados com um número, causa muita espécie pensar que, hoje em dia, as pessoas adotem marcas semelhantes como se fossem modernas ou elegantes. O comportamento de pessoas que não tem noção alguma de dignidade da pessoa humana é, sem dúvida, um sinal de volta à barbárie.

3. Automutilação e desfiguração. Esse é um pecado contra o corpo e o Quinto Mandamento. Alguns piercings beiram a automutilação. Na melhor das hipóteses, a multiplicidade de piercings não passa de maus tratos autoinfligidos. Uma forma de ódio ou rejeição por si mesmo leva certas pessoas a se perfurar ou decorar de maneira repugnante e prejudicial. O corpo humano não foi feito por Deus para ser uma almofada para espetar alfinetes nem para ser um mural.

4. Prejuízo à saúde. Médicos já se expressaram publicamente sobre essa questão de saúde. Em 2001, pesquisadores da Universidade do Texas e da Universidade Nacional Australiana publicaram artigos sobre o mal causado à saúde por tatuagens e percings. Alguns brincos (no umbigo, na língua ou no pavilhão auricular) são prejudiciais à saúde e causam infecções ou prejuízos duradouros, tais como deformações da pele. Eles também podem envenenar o sangue por algum tempo (septicemia). Algumas perfurações (por exemplo, no nariz, nas sobrancelhas, nos lábios, na língua) não se fecham mesmo quando o objeto é retirado. Portanto, essas perfurações são imorais, pois não se deve pôr a saúde em risco sem um motivo cabível. Se forem feitos sem higiene, as tatuagens e os piercings podem causar infecções. Um instrumento usado, se não for devidamente esterilizado, seguramente transmitirá hepatite ou HIV.

Algumas pessoas esperam evitar os riscos à saúde usando tatuagens de hena, que são pintadas, em vez de serem feitas com agulhas. A pintura com hena é um antigo costume hindu de casamento, que consiste em pintar motivos florais nos pés e nas mãos. Um estudo realizado por pesquisadores alemães em 2001, concluiu que os turistas que voltavam para casa com tatuagens de hena feitas em Bali, Bangcoc e outros lugares procuravam atendimento médico em virtude de graves infecções cutâneas e, às vezes, alergias crônicas. Em alguns casos, ainda, o pigmento usado fazia com que a tatuagem desbotasse, mas, depois de algumas semanas de irritação da pele, o desenho voltacva a aparecer na forma de uma tatuagem avermelhada, muitas vezes causando fortes dores no paciente. As alergias se manifestavam de 12 horas a uma semana após a aplicação da hena, causando comichão, rubor, bolhas e descamação intensos.

5. Desejo de chocar e causar repulsa. Pode ser adequado chocar as pessoas, por exemplo, quando se relata os dramas dos pobres e famintos, ou quando se protesta contra crimes ou trabalho escravo. Isso pode ser saudável se for feito da maneira devida e com o devido cuidado, para tirar as pessoas de um estado de abulia e fazê-las perceber que algo precisa ser feito. Mas chocar as pessoas pelo simples prazer de chocar, sem intenção de promover a verdade e o bem, não é uma virtude. Ao contrário, indica uma noção pervertida de valores.

Quando avalio as tatuagens sob o prisma da repulsa, vemos a natureza das imagens, o tamanho e o número de tatuagens, além de seu posicionamento no corpo. Quando avalio os piercings, levo em conta sua extensão e sua localização no corpo.

6. Indecência e irreverência. Sempre é imoral fazer ou exibir tatuagens de imagens ou frases indecentes, ou figuras sarcásticas de Nosso Senhor ou de Sua Mãe, ou de coisas sagradas.

7. Sinais de desorientação sexual. Em tempos d'antanho, os piratas eram os únicos homens que usavam brincos (fosse qual fosse o motivo!), e marinheiros e aberrações de circo eram praticamente as únicas pessoas que se tatuavam. O que antes era limitadíssimo se espalhou para camadas mais amplas da população. Na década de 1970, um brinco na orelha esquerda, direita, ou em ambas as orelhas de um homem representava um código da sua orientação sexual e, portanto, uma forma de atrair parceiros. Dessa forma, era algo flagrantemente imoral e, de maneira geral, um outdoor da imoralidade da pessoa. Meninos e homens usando brincos passaram a ser tão comuns que esse ato perdeu seu significado, mas esse adorno nunca é exigido em situações sociais, como paletó e gravata em determinadas ocasiões formais. Mesmo admitindo a falta de um simbolismo claro nos dias de hoje, eu espero que qualquer seminário ordene a qualquer candidato que tire brincos ou piercings antes de entrar e lhe questione quando e por que começou a usá-lo. Um seminarista ou padre que exibe um brinco não é socialmente aceitável na Igreja Católica. Um número considerável de paroquianos se perguntaria a respeito dos motivos ou das motivações mais profundos. Ninguém em tal posição pública começa a usar um brinco sem tomar uma decisão deliberada. Como um padre jesuíta bastante sábio me disse certa vez, “Ninguém muda o exterior sem antes ter mudado o interior”. Isso é considerado o que as pessoas chamam de “dar o recado”. O mesmo código de conduta esperada vale para homens em outras profissões, como policiais ou professores.

Os patrões e chefes devem criar regras para proibir o uso desses adornos por funcionários e alunos homens. Essas regras devem valer especialmente para os mais jovens, para protegê-los de si mesmo e da pressão dos colegas. O fato é que, mesmo hoje em dia, os brincos predominam entre as mulheres, e apenas uma minoria de homens os usa.

8. Inadequação. Às vezes as pessoas fazem uma tatuagem enorme de um crucifixo ou de outra imagem sagrada. O corpo humano é o lugar mais inadequado para essas imagens, mesmo que seja muito bela. Quando essas pessoas vão, por exemplo, nadar numa piscina, elas exibem essa imagem de maneira inadequada. Não vemos um sacerdote ir a um shopping center vestido para a Santa Missa, não porque haja algo errado com a vestimenta em si, mas porque existe hora e lugar certos para ostentar símbolos religiosos especiais.

9. Vaidade. Há pessoas que se comprazem em tatuar braço e antebraço para ostentar e impressionar. É um meio que têm de chamar a atenção para si. Ninguém que se encontrar com essas pessoas conseguirá ignorar as tatuagens, que chegam ao ponto de criar distração constante, desviando a atenção do que a pessoa tem a dizer para sua aparência exterior. Podemos dizer o mesmo de piercings na língua e na sobrancelha, argolas no nariz, ou brincos em toda a orelha. Nada disso faz parte da nossa cultura; no máximo, fazem parte de uma determinada subcultura, de uma minoria, sem nenhum significado social ou religioso positivo. Não estou dizendo que é errado se vestir bem, mas a questão, neste caso, é a moderação e a discrição. A Sagrada Escritura reconhece implicitamente ser adequado que a noiva se enfeite para seu marido, comparando a Jerusalém celestial a essa mulher:

καὶ τὴν πόλιν τὴν ἁγίαν Ἰερουσαλὴμ καινὴν εἶδον καταβαίνουσαν ἐκ τοῦ οὐρανοῦ ἀπὸ τοῦ θεοῦ,ἡτοιμασμένην ὡς νύμφην κεκοσμημένην τῷ ἀνδρὶ αὐτῆς.

(E a cidade sagrada, a nova Jerusalém, eu vi descer do Céu, de Deus, tendo sido preparada como uma noiva [que foi] adornada para seu marido.

(Revelação, 21:2).

É adequado que uma moça se vista bem e se maquile quando a ocasião pedir, mas todos reconhecem quando os adornos são exagerados.

10. Imaturidade e imprudência. Um ato aceitável ou indiferente em si pode se tornar errado se a intenção ou o motivo for errado. Alguns jovens seguem modas escandalosas pelo desejo imaturo de se rebelar contra a sociedade ou seus pais. Essa desobediência contra os pais é pecaminosa. Alguns fazem isso pelo desejo imaturo de imitar os amigos, e outros, pelo também imaturo desejo de se destacar de todos ao seu redor. Alguns fazem isso por tédio, por ser algo diferente, por ser emocionante, por ser algo que seus amigos poderão admirar e comentar. Seguir modas de maneira irrefletida sempre será sinal de imaturidade. Para os jovens que moram com seus pais, sob a autoridade deles, basta que os pais exponham seu desagrado com essas modas para que os filhos saibam que não devem prosseguir. Alguns jovens vão ainda mais longe, competindo entre si para ver quem consegue aplicar mais piercings. Os pais devem proibir totalmente esse comportamento.

É praticamente impossível que os jovens justifiquem o enorme gasto (para não falar da dor) de fazer uma tatuagem. Além disso, é injustificável e simplesmente estúpido marcar o corpo para o resto da vida com imagens que não valem grande coisa ou, inda pior, com o nome do(a) namorado(a) de plantão. Há pessoas que gastam uma pequena fortuna (até R$ 10.000) para tatuar um braço de cima abaixo. São sessões longas (chegando a até quatro horas).

As tatuagens são piores do que os outros adornos porque são marcas permanentes. Muitos homens e mulheres se tatuam na juventude, mas, anos depois (às vezes não muito) se arrependem quando passam a considerar as tatuagens uma desfiguração constrangedora. Quando amadurecem, pagam os olhos da cara pela remoção das tatuagens - uma tarefa difícil e de altíssimo custo, que invariavelmente deixa cicatrizes. A retirada de tatuagens de grande porte exige cirurgias com anestesia geral (e todos os riscos de uma cirurgia), além do custo elevadíssimo da internação e do tratamento posterior. Retirar tatuagens grandes pode deixar grandes partes da pele permanentemente desfiguradas ou manchadas, como se tivessem sofrido queimaduras Muitos adultos não conseguem determinados empregos porque as empresas se recusam a empregá-los com as mãos e os braços cobertos por tatuagens impossíveis de ocultar anos após a "aventura" na juventude.

Critérios Universais
Em qualquer cultura, as coisas podem surgir, ganhar aceitação e se tornar parte da cultura, mas essa aceitação não as transforma automaticamente em algo correto. Vou dar alguns exemplos de culturas estrangeiras (curiosamente, nenhuma Ocidental), que considero igualmente errados. Numa tribo africana, as mulheres ostentam brincos gigantes e pesados que mudam a forma dos lóbulos das suas orelhas. Noutro lugar, as mulheres põem argolas em seus pescoços para alongá-los artificialmente, ou põem chapas na boca para que seus lábios fiquem alguns centímetros mais longos. Na China, havia o costume de amarrar os pés das meninas com muita força para impedir que eles crescessem, pois pés pequenos e delicados eram admirados. Essas e outras alterações drásticas no crescimento natural do corpo humano devem ser consideradas imorais como formas de mutilação decorrentes da vaidade.

Nem sempre é possível traçar uma linha exata e dizer onde os limites da moderação foram ultrapassados, mas isso não quer dizer que não exista um limite. Ninguém pode definir a temperatura exata em que um dia passa de fresco para frio, mas todo mundo sabe que que, quando a temperatura se aproxima de zero, não há dúvida de que está frio. Nunca devemos cair no truque de quem tenta argumentar, com base em casos limítrofes ou difíceis, que não há diretrizes nem princípios, e que não existe média nem moderação só por causa da dificuldade de defini-las.

O corpo humano deve ser tratado com cuidado, e não maltratado ou desfigurado. Sua dignidade e sua beleza devem ser preservadas e cultivadas para que ele expresse a beleza mais profunda da alma.

Paraolimpíadas: o politicamente correto em sua melhor forma

Fernando Rocha compete na prova de esqui de fundo
nos Jogos Paraolímpicos de Sochi (
Ronald Martinez/Getty Images)
Domingão, e sou "brindado" pelo UOL com uma notícia constrangedora logo na home page:



Isso é de deixar hirta e pasma qualquer pessoa com um mínimo de bom senso.

Pessoas com deficiências físicas são seres humanos que, em princípio, são dignas de respeito como qualquer outro. Felizmente, essa é uma conquista do mundo civilizado. A compaixão pelos fracos é uma característica inerente ao ser humano civilizado e demonstra o triunfo da civilização Ocidental sobre a barbárie. Contudo, há um abismo gigante entre a compaixão pelos fracos (traço distintivo das sociedades civilizadas) e o culto à fraqueza.

Para que um ou outro leitor um pouco menos afeito à boa interpretação de texto não me entenda mal: o deficiente merece ser tratado com compaixão pelos demais seres humanos por estar em relativa vulnerabilidade. Grifei a palavra "relativa" porque nada impede um deficiente de se destacar por seu intelecto. Muito embora sua autonomia física tenha sido tenha tragicamente limitada, o deficiente não morre totalmente para vida por ter adquirido ou nascido com uma ou outra limitação física. Portanto, não causa espécie alguma ver deficientes físicos se dedicando a outras atividades que não lhes exijam ir além de suas limitações. No entanto, por motivos óbvios, é descabido exigir que os deficientes continuem buscando um modo de vida em descompasso com sua atual realidade física. O amável leitor que discordar de mim neste ponto demonstrará um raciocínio bastante infantil. Que um deficiente físico cuide da sua saúde é coisa meritória, mas querer ir além das suas limitações, como acontece nas paraolimpíadas, é reprovável.

O espetáculo deprimente que são as Paraolimpíadas (sejam de verão ou de inverno) carrega em si o nefasto e estúpido vírus do igualitarismo e a abjeta (e não menos estúpida) ideologia da "inclusão social". Essas competições são a quintessência do politicamente correto por exaltarem a inferioridade e cultuarem a fraqueza, diante das reações mais ensaiadas artificiais do (diminuto) público perante um espetáculo tão chato e sem emoção. Aliás, percebam que o público (presente e telespectador) das Paraolimpíadas é uma fração diminuta do público dos Jogos Olímpicos de verdade. E outra: não é cobrado ingresso para essas competições. A dura realidade se impõe.

É um teatro, puríssimo fingimento mútuo. Os atletas fingem que são o supra-sumo da competitividade, e o público finge que acredita nisso. A mídia entra no elenco no papel de explorar os apelos sentimentais mais piegas possíveis, para comover o público com o esforço alheio, muito embora a "emoção" do público seja totalmente fingida e/ou inexistente. É óbvio que essas competições não têm emoção alguma, pois os deficientes físicos jamais deveriam participar delas, uma vez que não reúnem plenas condições físicas para competir, e competição sem emoção não é competição. O resultado seria muito parecido se criassem competições esportivas olímpicas para velhos caquéticos acima de 80 anos para promover a "inclusão social" e depois, da maneira mais fingida possível, celebrar suas vitórias. Seria igualmente ridículo e patético.

Acredito que os amáveis leitores sejam adultos, e realistas e, portanto, concordarão comigo: esses espetáculos são pueris e patéticos. Repito: as Paraolimpíadas são uma das faces mais nojentas do politicamente correto. Ela cultuam a fraqueza em sua expressão mais fiel. Trata-se de um espetáculo deprimente cujo pano de fundo é o igualitarismo do mais estúpido. O resultado é desastroso.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Por que o utilitarismo é inútil

Eu quero que meus aparelhos funcionem. Eu quero que os aviões cumpram os horários de partida e chegada. Eu quero que a eletricidade e a Internet funcionem. Eu quero usar minhas coisas que são úteis. Eu quero utilizar meus utilitários. E quem não quer tudo isso? Todos valorizam as soluções eficientes, eficazes e econômicas, e é assim que deve ser. Para os problemas do dia-a-dia, somos todos utilitaristas.

No entanto, aplicado aos sistemas sociais, o utilitarismo é inútil. A proposta prática do utilitarismo é perguntar “o que proporciona o maior bem para o maior número de pessoas?” Esse lema foi cunhado pelo excêntrico inglês Jeremy Bentham (1748 -1832). Bentham também fez a seguinte observação: “A natureza pôs a humanidade sob o comando de dois mestres soberanos: a dor e o prazer” (The Principles of Morals and Legislation, p. 1, Capítulo 1).

“O maior bem para o maior número de pessoas. Motivado pela dor e pelo prazer”. Aparentemente, isso funciona. Contudo, os problemas do utilitarismo ficam claros quando colocamos um pouco mais de pressão teórica sobre seus pressupostos. O primeiro problema do utilitarismo é a opinião pessoal. Podemos concordar que queremos o maior bem para o maior número de pessoas, mas não é possível chegar a um acordo sobre o que, em princípio, é bom. As opiniões pessoais variam.

Sem critérios externos e mais universais, quem pode dizer o que é “bom”, e a quem cabe escolher? Basta examinar a Rússia estalinista para ver um exemplo histórico claríssimo de algumas pessoas decidindo qual seria “o maior bem para o maior número de pessoas”, tendo como resultado um grande bem para um pequeno número de pessoas, e um grande mal para um número muito maior.

O segundo problema do utilitarismo é o da proporcionalidade. Que nível de "bondade" procuramos atingir? É bom que um cidadão tenha o que comer, e é ainda melhor que ele tenha acesso à educação. Melhor ainda será se ele tiver pleno acesso à saúde. Mas e se o verdadeiro bem para uma pessoa for mais que isso? É bom quando as necessidades físicas são atendidas, mas melhor ainda é viver por algum objetivo ou alguma finalidade maior. E o amor, a beleza e a verdade? E a possibilidade de atingir a perfeição moral? Não há dúvida de que são exemplos de um bem muito maior.

A realização pessoal e a perfeição moral (que são grandes bens) só podem ser conseguidas através de dificuldades, autodisciplina e sacrifício pessoal. Para atingir esse bem maior, é necessário passar por dificuldades. Portanto, para conseguir o maior bem para o maior número de pessoas, pode-se, por exemplo, precisar fazer a guerra ou aceitar uma redução de salários ou trabalhar mais horas por dia. Agora, passo a levar em conta a proporcionalidade do bem. Queremos que o maior número de pessoas receba um bem realmente e incrivelmente muito grande, ou queremos que elas se contentem apenas com pão e circo?

O terceiro problema do utilitarismo tem a ver com o segundo. É o problema da dor. Se buscamos o maior bem para o maior número de pessoas, isso implica que queremos o maior prazer para o maior número de pessoas, mas o verdadeiro prazer não pode ser atingido sem dor. Quero dizer que qualquer coisa que valha a pena ter vale a pena pagar. Qualquer coisa que proporcione um prazer verdadeiro e duradouro custa alguma coisa. Pode custar tempo, dinheiro, autodisciplina, ou abnegação. Portanto, para que o maior número de pessoas possa ter o máximo prazer, elas devem passar por algum tipo de dor. Elas devem pagar por seu prazer (do contrário, não será um verdadeiro prazer).

Além disso, e se o “bem” que alguém decide ser necessário para o maior número de pessoas não for bom para mim? E seu eu não quiser o bem que alguém decidiu que eu devo ter? E se eu não quiser participar do programa de esterilização ou da política de "filho único" que o Estado impõe? E seu eu não quiser prestar o serviço militar obrigatório? Nesse caso, o ideólogo utilitarista deverá usar a força para impor esse “maior bem para o maior número de pessoas”. Portanto, ele não proporcionará o maior bem, mas um grande mal em sua ingênua tentativa de estabelecer o "bem maior".

Isso nos leva ao quarto problema do utilitarismo: o poder. Para que o utilitarismo funcione, alguém, nalgum lugar, precisa decidir o que é bom para o maior número de pessoas e, depois, impor essa decisão. Esse poder pode ser uma ditadura, ou pode ser a tirania do domínio da maioria. Seja como for, é possível impor um grande sofrimento e grandes crimes podem ser cometidos em virtude dos poderes de quem decidir o que proporcionará o maior bem para o maior número de pessoas. Cegos por seus sonhos utópicos, eles eliminarão sem pejos todos os que atrapalharem seu progresso para o admirável mundo novo.

É por isso que o utilitarismo, por si, não traz o maior bem para o maior número de pessoas, e sim o maior mal. O utilitarismo só pode funcionar como um critério menor de "bem". O louvável objetivo do "maior bem para o maior número de pessoas" precisa ser equilibrado e limitado por um código moral superior que não pode ser inventado pela humanidade, um código moral proveniente de uma autoridade superior e dado à humanidade por meio de revelação. Chamamos esse código de "Os Dez Mandamentos".

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Considerações sobre os pronunciamentos de Francisco (o papa)

"Habemus novus papam popem"

Sim, amáveis leitores! Uma coisa é inegável: depois do "popíssimo" João Paulo II, não há dúvidas de que o papa Francisco é pop.

Por pop, todos os pronunciamentos altissonantes desse papa (de fancaria, bien entendu!) Francisco são amplificados de maneira ensurdecedora e quase sempre positiva pela mídia.

Os discursos efeminados de Francisco, com foco puramente secular ou abertamente contra-mão dos ensinamentos da Igreja, soam como música aos ouvidos da mídia (predominantemente esquerdista). Uma leitura atenta desses discursos leva inescapavelmente à conclusão de que Francisco procura nivelar os ensinamentos da Igreja às tendências pagãs e politicamente corretas de hoje.

Esse simples fato já seria causa justíssima para que os verdadeiros católicos se afastassem do papa, com pesado voto de desconfiança. No entanto, a esmagadora maioria dos sedizentes católicos se pela de medo de se afastar do tacão do Vaticano, preferindo acovardar-se e mostrar complacência ante a face externa de Francisco.

Sendo certo que a mídia é pródiga em disseminar tudo o que há de mais imundo sobre a Terra (como campanhas socialistas, ecumênicas, pró-aborto, casamento gay etc.), como pode Francisco aceitar alegremente as calorosas loas dessa mesma mídia?

Something is rotting in the State of Vatican City.

De tanto defecar pela boca, Francisco conseguiu uma proeza: ser destaque de capa de um fortíssimo veículo de comunicação da militância gay, a The Advocate, para escândalo e horror dos católicos com um mínimo de honestidade moral e intelectual.

Entretanto, os católicos vêm discutindo muito pouco (por pura desonestidade ou até falta de preparo) a respeito do teor desses pronunciamento à luz da doutrina tradicional da Igreja, ou seja, a doutrina milenar que se estabeleceu com sólidas raízes antes de ser solapada pelos heresiarcas do Concílio Vaticano II.

Esses católicos de fachada preferem entoar cânticos de boiolices na Jornada Mundia da Juventude, fazer vistas grossas às declarações papais, ou, pior ainda, defender despudoradamente essas declarações, com um sem-número de acrobacias hermenêuticas e citações doutrinárias, tentando provar o impossível: que Francisco é católico, não um títere de uma seita abertamente anti-católica.

A verdade, meus caros, é que - apesar de eu me referir a Francisco como papa no início do texto, para facilitar a referência - Francisco não é papa, além de não se comportar como tal. A rigor, ele se comporta como uma espécie de líder de ONG de direitos humanos. Ele carece de qualquer preocupação legítima em ensinar o que é o verdadeiro catolicismo e, assim, converter os demais povos.

Da igreja de Francisco (que de católica só tem o nome) emanam lições e pronunciamentos com roupagem religiosa, mas cujo conteúdo consiste em propostas que andam de braços com o marxismo cultural.

Na conjuntura de hoje, faz muita falta a autoridade de um Papa com todo o peso da doutrina cristã, mas o cartão de visita de Francisco é apresentar-se como chefete de uma rasteira ONG de direitos humanos. Após as perturbadoras declarações sobre os ateus e gays (declarações essas que não fazem nada além de expor os católicos ao ridículo), não demora para que Francisco recomende o uso da camisinha e condene o fumo e o uso do álcool.

Francisco e seus capangas conseguiram reduzir a Igreja de Cristo a uma miserável caricatura. É preciso ser um asno juramentado e com antolhos, mas com pomposa pose católica, para não perceber o que está meridianamente claro à sua volta.

O problema de Francisco não está propriamente em suas amizades com integrantes de outras religiões e seitas, e sim em flexibilizar a própria religião que finge representar em virtude dessas amizades, em desabrido ato de traição, digno da tra(d)ição inaugurada pelo “apóstolo” Judas contra Jesus.

Ora, amáveis leitores, não é preciso renunciar às próprias convicções para se relacionar com o mundo. A religião cristã pede exatamente o inverso: renunciar a tudo o que for do mundo (inclusive às falsas religiões) para se unir de corde totaliter et ex mente tota com Cristo.

Francisco faz exatamente o contrário: ele abre uma larga avenida em direção ao Anticristo, e os idiotas católicos de fachado o seguem sem sequer questionar a si mesmos.

Pensemos bem, meus caros: se os sedevacantistas julgassem incorrer em erro, então teria a Igreja errado miseravelmente durante quase dois mil anos até o malfadado Concílio Vaticano II?

Afinal de contas, quem está com a razão?

domingo, 12 de janeiro de 2014

Uma história de ficção e uma advertência

Esta é uma história fictícia que anda circulando pela Internet. O professor mencionado na história não existe (infelizmente), e a brilhante estratégia para ensinar como o socialismo é perigoso e absurdo não foi colocada em prática (até onde eu sei).

Seja como for, a história é excelente como advertência.

* * * * *

Um professor de Economia de uma faculdade local afirmou que nunca havia reprovado um aluno sequer, mas recentemente havia reprovado uma turma inteira. A turma insistia em dizer que o socialismo funcionava, pois ninguém seria pobre nem rico. Seria um ótimo nivelador.

Então, o professor disse “Muito bem, vamos fazer uma experiência com o socialismo nesta turma. Vou tirar uma média de todas as notas as notas e todos receberão a mesma nota, assim ninguém será reprovado e ninguém vai receber nota 10”. [Podemos substituir as notas por reais, algo mais perto da experiência cotidiana e compreendido mais facilmente por todos].

Depois da primeira prova, foi tirada a média das notas e todos receberam nota 7. Os alunos que estudaram a sério ficaram perturbados e os alunos que não estudaram quase nada ficaram satisfeitos. Quando a segunda prova foi realizada, os alunos que não estudaram quase nada na primeira prova estudaram ainda menos na segunda, e os que haviam estudado a sério decidiram que também queriam uma folga e, portanto, estudaram pouco.

A média da segunda prova foi 4. Ninguém ficou satisfeito.

Quando a terceira prova foi realizada, a média foi 1.

À medida que as provas se sucediam, as notas nunca melhoravam, pois os bate-bocas, os xingamentos e a troca de acusações levavam a ressentimentos, e ninguém estudava em benefício dos outros.

Para surpresa de todos, TODOS FORAM REPROVADOS e o professor disse a eles que o “socialismo” também acabaria sendo reprovado porque, quando a recompensa é muito boa, o esforço para ter sucesso é muito grande, mas quando o governo acaba com toda e qualquer recompensa, ninguém vai tentar nem querer ser bem-sucedido.

Mais simples que isso, impossível.

O professor escreveu na lousa estas cinco frases para encerrar a lição:

1. Não se pode fazer os pobres prosperarem por decreto fazendo com que a lei tire a prosperidade dos ricos.

2. Para uma pessoa receber sem trabalhar, outra pessoa precisa trabalhar sem receber.

3. O governo não pode dar a ninguém nada que antes não tenha sido tirado de alguém.

4. Não se pode multiplicar a riqueza dividindo-a.

5. Quando metade das pessoas se der conta de que não precisam trabalhar porque a outra metade cuidará delas, e quando a outra metade se der conta de que não adianta trabalhar porque alguém vai receber aquilo pelo que ela trabalhou, esse será o início do fim de qualquer país.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Salgadinhos em geral (e em inglês)

Como os amáveis leitores já devem (ou deveriam saber), sou tradutor profissional desde 1997 (com pré-estréias em 1993 e 1995). E, sim, sou o que se chama de native speaker, mesmo tendo nascido cá no Brasil. Ocorre que fui criado com inglês, alemão e português falados diariamente em casa.

De vez em quando, encontramos em textos para verter do português ao inglês (e outros idiomas) coisas sobre as quais nunca paramos muito para pensar. Nesses casos, às vezes a memória (ou o conhecimento) nos trai com um ou outro termo e acabamos recorrendo ao "Pai Gugo", ao mal-afamado Proz.com, a fóruns de tradutores e outras fontes menos cotadas.

Hoje me deparei com um desses casos: como dizer "coxinha de galinha" em inglês? Vejam bem, não me refiro ao desairoso epíteto do qual lançam mão abundantemente os "pogreças" para se referir aos "reaças", e sim ao brasileiríssimo salgadinho.

A questão parece trivial, mas me leva a uma reflexão bastante pertinente, principalmente por estarmos às vésperas de receber quilotons de turistas de todas as partes do mundo para a Copa do Mundo e para os Jogos Olímpicos.

Quase sempre Muitas vezes, os restaurantes que pretendem receber clientes estrangeiros recorrem a "tradutores chutadores" que produzem deliciosos (lato sensu) dislates como este:


Ora, um anglófono que se depare com um cardápio destes certamente morrerá: ou de rir, ou de ódio ou de fome. Juro que eu teria muito medo de um lugar que serve giz de cera (crayon), uma lasanha de meias (stocking "lasanha"), ou páginas viradas de queijo ("turned pages of cheese").

Mas justiça seja feita: nós outros cá em Banânia somos arrogantes e queremos ser levados a sério com essas mal-ajambradas tentativas gastro-tradutórias. Os orientais em geral sabem que traduzem ainda pior, mas se divertem com as reações dos ocidentais angloparlantes ao mais perfeito Chingrish. Vejam isto:


"Garçom, quero uma porção de frango escorregadio em mingau de cogumelos". Bem, comparando lá e cá, não fazemos tão feio.

Eu fico hirto, pasmo e chocado com a tendência de traduzir tudo nos cardápios. Por que, meu Deus? Por que cacetes murchos eu traduziria "samba", "berimbau", "cuia", "pala", "lambada", "vatapá", "acarajé", "churrascaria", etc.? E não venham os "inteliquituais" me dizer que churrascaria é a mesma coisa que steakhouse. Uma churrascaria é mil vezes melhor. Conheço ambos os conceitos. Certas coisas são tão ligadas a uma cultura que é melhor deixá-las sem tradução mesmo. No máximo (e, sim, desejavelmente) deve-se apor uma explicação dos componentes do prato, tout court.

Mas, numa pesquisa rápida pelo Google, procurei saber como andam traduzindo para o inglês os nomes de clássicos da comida de boteco baixa gastronomia brasileira. Encontrei coisas de arrepiar os cabelos do Esperidião Amin.

NOTA AOS LEITORES MAIS DESATENTOS: Esta lista NÃO se trata de um glossário. Trata-se, sim, de como NÃO TRADUZIR para o inglês os nomes dos salgadinhos e outros acepipes.

Bolinhas de queijo > Cheese balls
Este foi o único caso em que a tradução parece aceitável. Para ser absolutamente correta, eu acrescentaria deep fried (fritas).

* * * * *

Coxinha de galinha > Chicken drumstick
Bem, até o Google Translate embarca nessa canoa furada. Experimentem. Seja como for, explico a confusão. Um drumstick é uma coxa de frango (ou galinha, para os não-paulistanos) com o osso. O salgadinho, como todos sabem, é feito com frango moído ou desfiado, ou seja, não é uma coxa de frango e muito menos tem osso. A diferença é brutal. O mais correto é manter a palavra "coxinha" no item do cardápio. A explicação entre parênteses embaixo do item poderia conter algo como chicken thigh-shaped... Melhor explicar do que inventar.

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Patê de atum > Tuna spread
Pode-se até argumentar que a tradução está correta. Nos Estados Unidos, os tuna spreads levam aipo, picles picados, pimenta, etc. Mais uma vez, há diferenças - não tão brutais, mas a mensagem é transmitida de maneira errada.

* * * * *

Ovo empanado > Coated egg
Esta foi um chute nos meus ovos peludos! Coated egg se refere a uma coisa totalmente diferente em inglês. "Ovo de casaca" ou, mais tecnicamente, "ovo revestido" é de um primarismo atroz. Eu até aceitaria breaded egg. O melhor, mais uma vez, é manter o nome em português e apor uma explicação do tipo "Brazilian-style breaded egg".

* * * * *

Batata frita > Deep-fried potato, French fries
French fries eu aceito toto corde*. O problema está em "deep-fried potato", que se refere àquelas batatas cortadas em cunha. O que faz uma French fry ser uma French fry é mais do que o modo de preparo. A maneira de cortar a batata é fundamental.

* * * * *

Quibe > Bulgar wheat meat balls
Para início de conversa "Bulgar" (1) se refere a uma pessoa que nasceu ou mora na Bulgária, ou ao idioma falando na Bulgária, e (2) é um substantivo, não um adjetivo. Além disso, "quibe" é de origem árabe, não búlgara.

Agora, vamos penetrar fundo (ui!) na psiquê do nosso querido aspirante a tradutor. Ele seguramente confundiu Bulgar com bulgur, que, em português, é "triguilho" (em árabe, برغل burghul). Quanto a meatballs, bem, todos sabem que uma almôndega (al-bunduqa, ou "a bola") não tem nada a ver com um quibe. Por incrível que pareça, a palavra árabe que deu origem a "quibe" é kubbah, cujo significado é "bola". Em inglês, a transliteração dessa palavra é kibbe ou kibbeh. Em espanhol argentino, diz-se quipe. Outros nomes desse prato vêm da palavra persa کوفته kofteh (literalmente "moído [carne]"), como içli köfte (em turco), իշլի քյուֆթա išli k’yuft’a (em armênio) e cafta (em português).

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Salsicha empanada > Coated sausage
Mais uma vez, o tradutor comete um crime tradutório. Breaded sausage é uma tradução muito melhor. E digo mais: a solução "esperta" de aproximar a salsicha empanada do corn dog é outro erro crasso, cometido apenas do tradutor que não tem idéia de como as iguarias são preparadas. Seja como for, coated sausage me remete a uma "salsicha encasacada". 

* * * * *

De todas as iguarias dessa lista, apenas French fries será reconhecida imediatamente por quem não for lusófono. Minha filosofia de tradução é a seguinte: se não estiver quebrado, não tem sentido consertar. Em outras palavras, repito minha orientação de usar o nome original do prato no idioma em que ele foi criado, mas explicá-lo no idioma de destino (inglês, neste caso).

Vou dar alguns exemplos da minha experiência pessoal. Passei quase um ano na República Dominicana, onde se fala espanhol. Não é raro ir a um restaurante internacional no país e receber do garçom ou maître um cardápio em inglês. Os nomes dos pratos são, muitas vezes, traduzidos para o inglês. Eu sei o que é um "lomito saltado", um "tacu-tacu", etc. O problema é que cada restaurante traduz os nomes dos pratos da sua própria maneira. Seria tão mais fácil se eles usassem o nome original (os pratos dos exemplos que dei são peruanos). Se eles quiserem explicar em inglês, ótimo, mas devem indicar o nome original em destaque para que os clientes saibam de que cazzo estão falando. Em Los Angeles, na Califórnia, eu perguntei num restaurante argentino se eles tinham molho para o asado. O garçom me garantiu que eles tinham um molho feito com azeite, salsinha, cravo, suco de limão, tomilho, orégano, pimentão, etc. Eu me dei conta na hora de que ele acabara de me dar a receita do famoso "chimichurri". Por que ele não disse o nome logo no começo?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pagãos, um papa e a queda de Sauron: como entender o Ano Novo?

Alguns ateus, muçulmanos e cristãos fundamentalistas gostam de reclamar e chiar pelo fato de que as comemorações de Natal e Páscoa são “pagãs.” Eles estão, ao mesmo tempo, certos e errados. Eles têm razão na medida em que a nossa cultura ocidental tem raízes profundas nas culturas pré-cristãs da Europa. Mas eles também estão redondamente enganados, pois os primeiros cristãos, como os judeus antes deles, consideravam sua religião um contraste e uma correção da cultura pagã predominante à época.

Devemos ser iconoclastas culturais e expurgar todos os vestígios de paganismo do mundo moderno? Devemos abandonar nossas árvores de Natal e jogar no lixo os ovos de Páscoa? Se assim for, deveriam os anglófonos, por exemplo, adotar os nomes cristãos dos dias da semana em detrimento da homenagem às divindades pagãs Tiu (Tuesday), Odin (Wednesday) Thor (Thursday) Frige (Friday) e Saturno (Saturday), isso para não falar do culto ao sol e à lua (Sunday e Monday)?

A "purificação cultural" deveria continuar, exigindo que os nomes do meses do ano fossem expurgados de suas absurdas associações demoníacas e pagãs! Fora com Janus, o deus de duas caras de janeiro! Fora com Marte (de março), com a deusa Maia (de maio) e com Juno! Dia de Ano-Novo? O horror, o horror! A comemoração do início do ano em janeiro é pagã "do primeiro ao quinto"!

O conservador nunca deve ser um iconoclasta. Ele afirma que o passado é o alicerce do futuro. Nossa cultura ocidental está profundamente arraigada nas civilizações clássicas da Grécia e de Roma, mas também nas culturas pré-cristãs da Europa. Os costumes ancestrais se fundiram, desenvolveram e adaptaram às mudanças dos tempos, mas não devem ser desprezados simplesmente por serem pagãos ou por serem do passado. Um bom exemplo de como um costume de origem pagã se transformou numa comemoração hodierna é o Dia de Ano-Novo.

Os primeiros registros de uma comemoração de Ano-Novo datam de 2000 a.C., na Mesopotâmia. Depois, na época do patriarca Abraão, o novo ano era anunciado não no meio do inverno (do hemisfério norte), e sim no equinócio de primavera (também do hemisfério norte), em meados de março. Em consonância com esses costumes já ancestrais, o primeiro calendário romano tinha dez meses, e também reconhecia o mês de março como o início do ano. Daí os nomes dos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro: contando a partir de março, eles eram o sétimo, oitavo, nono e décimo meses.

Numa Pompílio, segundo rei de Roma, acrescentou janeiro e fevereiro ao calendário e, em 153 a.C., surgiu o primeiro registro da comemoração do Dia de Ano-Novo no primeiro dia de janeiro. A mudança foi decretada por motivos civis (os cônsules iniciavam seu mandato nessa época), mas muita gente continuava reconhecendo o mês de março como o início do ano.

Quando Júlio César substituiu o antigo calendário lunar em 46 a.C. por um calendário solar, ele também formalizou o início de janeiro como Dia de Ano Novo. Com a queda do Império Romano e a transição da Europa para a nova religião e o domínio do cristianismo, os vestígios da cultura pagã foram expurgados. O Dia de Ano-Novo no início de janeiro foi oficialmente eliminado pelo Concílio de Tours em 597 e, em toda a Europa, o início do novo ano passou a ser comemorado em várias épocas: Natal, Páscoa ou, a data mais significativa, 25 de março.

A data de 25 de março não apenas guardava relação com as comemorações mais antigas do novo ano no equinócio de primavera, mas, no calendário cristão, 25 de março corresponde à Anunciação, ou seja, o anúncio do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria de que ela geraria um filho. A data de 25 de março foi determinada pela crença judaica de que os grandes homens eram concebidos no mesmo dia do ano em que morreriam. Jesus Cristo morreu em 25 de março (segundo reza a teoria), ou seja, ele foi concebido em 25 de março. Por acaso, essa é, também, a origem da data tradicional do Natal – nove meses a contar de 25 de março.

Os cristãos da Idade Média achavam que o início da vida do Filho de Deus no útero da Virgem Maria era o início da obra de Deus entre os homens, a restauração e a redenção do mundo e o início de uma nova Criação. Portanto, era teologicamente adequado que o dia 25 de março, ou o dia da Anunciação da Virgem Maria, fosse comemorado como o Dia de Ano-Novo. E assim foi por mil anos.

Então, em 1582, o papa Gregório XIII reformou o antigo calendário de Júlio César. Em virtude de uma imprecisão de cálculo, a data da Páscoa era móvel, e o papa decidiu torná-la fixa. Uma parte da reforma consistia em restabelecer o dia 1º de janeiro como Dia de Ano-Novo. Por considerar essa reforma uma ousadia do papa, a Igreja Ortodoxa Oriental rechaçou a reforma. Por considerar essa reforma não apenas uma ousadia do papa, mas também a restauração do paganismo, os Protestantes também rechaçaram o novo calendário gregoriano. Os ingleses só adotaram o novo calendário em 1752. Os gregos mantiveram o calendário antigo até 1923. Os monges do Monte Atos ainda mantêm o calendário juliano.

O amável leitor deve estar se perguntando por que eu mencionei no título do artigo a queda de Sauron, inimigo do Senhor dos Anéis? J. R. R. Tolkien foi muito astuto na maneira como urdiu o simbolismo cristão na trama de seu mito épico. Ele registra as datas dos grandes acontecimentos no ciclo do anel, e descobrimos que é em 25 de março que o anel do poder é lançado nos fogos da Montanha da Perdição e, assim, a destruição de Sauron  anuncia um novo começo para a Terra Média. Dessa forma, Tolkien assina embaixo da tradição cristã medieval de que o dia 25 de março é o verdadeiro Dia de Ano-Novo.

Quem comemorou a entrada do novo ano nesta quarta-feira deve ter em mente que, por mil anos, essa comemoração não foi uma simples data em vermelho no calendário, mas sim um acontecimento cultural e religioso que vinculava a renovação da natureza com a redenção do mundo.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Libertários: humanos, sim; humanistas, nunca

Todo mundo conhece os argumentos contra essa noção, mas eu chego à conclusão (relutando um pouco) de que os libertários são, de fato, humanos. Afinal de contas, a nossa espécie contém incontinentes verbais, deficientes mentais, os incuravelmente idiotas e Walter Block.

Walter Block é um acadêmico idoso inspirado por Ayn Rand, Nathanial Branden e Murray Rothbard. Os libertários o consideram agradável e até mesmo animado. Ele é professor de Economia na Universidade Loyola (da mesma ordem religiosa do papa Francisco, ou seja, jesuíta), mas na Louisiana (o centro histórico dos demagogos nos Estados Unidos), então empatou. Ele é adepto da Escola Austríaca (o que não é nada negativo), mas se intitula anarco-capitalista e “ateu praticante” (com 3,3 em 10 dá para passar?).

Em suas palavras (mas com grifo meu, sempre meu), ele “fortaleceu o libertarianismo para torná-lo mais coerente”. Ele pode ter se esquecido da idéia de Ralph Waldo Emerson, de que “uma coerência insensata é o duende das mentes pequenas” pois, ocupado com as grandes questões, ele reafirma o direito das pessoas de vender-se como escravos.

Talvez um contrato voluntário possa prever grilhões confortáveis e a escolha da chibata (por falar nisso, isso pode acontecer bastante no burgo nova-iorquino do Brooklyn, onde Block nasceu, especialmente depois de Cinqüenta Tons de Cinza).

Ele começa falando sobre o aborto, defendendo o direito da mulher de despejar o feto do seu útero como um inquilino indesejável num apartamento alugado (talvez, se o rebento tiver o dinheiro do aluguel, ele possa ficar). 

Ele sustenta que as grávidas podem chacinar os nascituros se (a) o feto for “inviável” fora do útero; depois (b) se a mãe abrir mão do seu direito à “guarda” da pessoinha à espreita dentro dela, e (c) se “ninguém mais tiver ‘reivindicado’ esse direito, oferecendo-se para cuidar do feto”. (Juro que não inventei nada disso). Talvez, com “inviável”, ele queira dizer "se o feto não conseguir um cartão de crédito até o terceiro trimestre. 

Então, se a mamãe publicar um anúncio no jornal dizendo ao seu "bacurinho" não-nascido que o contrato de aluguel venceu e que ele tem que sair, poderia outra mulher “reivindicar a posse”, oferecendo um útero a título gratuito com vista para o mar? Nesse caso, quem paga a mudança? Ou ela pode prometer uma adoção e obrigar a mãe biológica a carregar o nenê até o final? Ou, ainda, precisaria a candidata a mamãe pagar o aluguel do útero à mamãe titular e, nesse caso, com água e luz incluídas? É pra pensar. 

Então, ele explica que se “ninguém mais no mundo” quiser o feto, o nascituro pode ser usado por seu responsável para experiências científicas. Não, meus caros, não estou brincando. Isso é reconhecidamente econômico porque, se forem "extraídos" na época certa, os nascituros comem menos do que os hamsters e os ratos de laboratório. Não sei bem como oito bilhões de pessoas conseguirão o direito de preferência, mas acho que, como amam dizer os libertários, “o mercado se encarregará disso”. 

Talvez o amável leitor ache isso uma loucura, mas peço que você leve isto a sério: a coerência libertária está em jogo neste caso.

Walter Block pode até mesmo ser um tradicionalista. Os Estados Unidos têm uma tradição respeitável de ideólogos "excêntricos", começando pelo cristão-talibã comunista na Pedra de Plymouth, passando pelos jacobinos que havia entre os Founding Fathers, por cada camelô de remédios "milagrosos" do século XIX, pelos malucos racistas eugenistas do início do século XX, e chegando aos retardados aquecimentistas globais de hoje e ao Paul Krugman. O que eles têm em comum é a coerência interna.

O modus operandi de Walter Block pode ser simples. No tempo que corre, dizer qualquer coisa profundamente idiota garante espaço na mídia para ajudar a vender de tudo, até Afrin purgante, ou conseguir um emprego de professor na Loyola. 

Seja como for, ele é um outdoor ambulante que anuncia a bondade de uma sociedade relativamente livre. Vamos pensar: se eu estivesse num avião lotado, sentado ao lado dessa praga, eu pagaria feliz para mudar de classe na mesma hora. Se eu estiver num boteco e ele se sentar numa mesa ao lado da minha, eu pago a conta antes de pedir a primeira cerveja. Mas em vez de curtir uma solidão atroz, em vez de ser enxotado de uma cidade para a outra, ele anda pelos EUA de cidade em cidade, indo a reuniões após o horário de aulas em escolas onde autodidatas tão ideologizados quanto ele, mas menos fedidos, se matam para ouvi-lo. De certa maneira, isso é compaixão. 

Mas a coisa muda completamente de figura quando alguém difama os bengalis, que já estão bastante ocupados difamando uns aos outros. Eu gosto deles. Sim, Bangladesh é um dos países mais pobres, infelizes, corruptos, apinhados de gente, disfuncionais e desorganizados que existem (sim, são piores que o Brasil... mas não muito), mas o povo é gente finíssima (bom, o brasileiro também é, né?). 

Embora sejam muçulmanos, a grande maioria dos bengalis não é fanática; as belíssimas mulheres bengalis usam saris e bindis (aqueles pontinhos vermelhos) porque se trata de uma tradição cultural, não especificamente hindu (usar essas roupas em público pode custar um linchamento às moças muçulmanas em algumas partes da nação islâmica do Paquistão). A riquíssima cultura bengali é tolerante, e a cultura deles vem em primeiro lugar.

Bangladesh é prenhe de alegria e discussões acaloradas; de belíssima poesia e prosa cheia de vida; em média, os jornais passam por onze pares de mãos antes de virar embrulho de peixe na tão bengali e vizinha Calcutá. Eles se parecem com irlandeses bronzeados. Eles também fazem piqueniques artesanais, levando os visitantes em chalupas às suas verdejantes aldeias ancestrais onde parentes os esperam com toneladas de acepipes engordativos; especificamente, os doces bengalis são os presentes de jantar que toda anfitriã do sul da Ásia espera ganhar. Os bengalis podem ser artistas e artesãos talentosíssimos, mas o país pode ser um lugar terrível e cruel. Eu adoraria ir a Bangladesh a passeio, mas agradeço aos céus por não ter nascido e por não morar lá.

É aí que Walter Block entra na história. Há pouco tempo, mais de mil trabalhadores da indústria têxtil de Bangladesh morreram no desmoronamento de uma fábrica caindo aos pedaços em Dacca. Sapassado (os mineiros entenderão), o Wall Street Journal culpou os consumidores americanos que insistem em comprar roupas baratas feitas, supostamente por necessidade, em prédios precários (muito estranho... se eu quero comprar roupas caras, por que não comprar em Paris em vez de Dacca?). Como não poderia deixar de ser, Block culpou quem? Sim, ele, o Estado. O que mais poderia ter vindo de um anarco-capitalista confesso? A ideologia dele associa até a síndrome do refluxo gastroesofágico a tenebrosas conspirações do governo. Não seria ele uma espécie de Sakamoto libertário?

Ele diz que os códigos de segurança e edificações do governo induzem todos a acreditar que as construções (por assim dizer) são seguras. Isso implica que ele nem conversou com um bengali nem pôs as patas no país em que fazer piada de político e dos burocratas, assim como no Brasil, é uma arte. Ele poderia ter se "rebaixado" a falar pessoalmente com um bengali antes de escrever o artigo, mas isso poderia ter estragado o prazer dele.

Depois (surprise, Shanghai!”, já diria Fausto Fawcett) ele afirma que eles só precisam de um Estado libertário que não governe, em que seus custos de produção sejam tão baixos que todos prosperarão. 

Quem quiser vender chiclete, caneta ou cadarço pelas ruas de Dacca precisa pagar uma "semanada" por esse privilégio. Esse dinheiro vai para bandidos "avantajados" que atuam em nível de quarteirão ou até mesmo meio-quarteirão, e que fazem parte de redes maiores de malandros bem maiores. As construtoras "miguelam" no material, a menos que o cliente seja especialista e tenha recursos para fiscalizá-las 24 horas por dia. Os quitandeiros sempre "batizam" o leite com água de rio; a farinha, eles "batizam" com serragem. Remédios falsos letais passam despercebidos até pelo farmacêutico mais honesto e atento. Famílias e até aldeias inteiras morrem pela ingestão de óleo de cozinha contaminado. Qualquer pessoa que não seja ideologicamente contaminada verá que, no meio dessa bagunça toda, um governo é necessário.

O governo de lá atua na repressão de badernas que queimam carros e lojas e espancam pessoas até a morte nas ruas. Os bandidos partidarizados que promovem as badernas não deixariam de promovê-las se o governo e os partidos fossem abolidos; eles simplesmente continuariam sob outra roupagem. Então, quem poderia detê-los? Talvez “o mercado tomasse conta do problema” e os pobres subornariam os "tubarões", e assim por diante.

Segundo Walter Block, os problemas de Bangladesh se resolveriam com a eliminação do governo, administrando ao organismo social uma dose cavalar e catártica de óleo libertário aromatizado com pitadas de Ayn Rand e Murray Rothbard. Ele prega a anarquia. Mesmo assim, o safado do dono da construtora não tem praticamente nada a ver com o governo, além de pagar uma propinazinha para escapar dos impostos. O vendedor de cadarços também vive num estado de anarquia, e ele paga bem caro para que seu produto não seja usado (e lentamente apertado) em volta do seu precioso pescocinho. As cidades de Bangladesh já estão em relativo estado de anarquia, e não do tipo fictício teorizado pelos seguidores de Ayn Rand e pelos débeis mentais contumazes, mas do tipo real, o Estado da Natureza “com dentes e garras sujos de sangue” retratado por Hobbes.

Quem teve paciência de ler este artigo atentamente até agora pode ter tirado quatro conclusões. Primeiramente, nossa moral e nossa ética formam as circunstâncias nas quais vivemos, mais do que o governo ou a falta dele. Um holandês, um canadense ou um japonês podem ter uma visão mais consciente de trabalho, comunidade e cidadania do que, talvez, um grego, um brasileiro ou um bengali. Que o governo seja reduzido de maneira prudente, concordo, mas reduzi-lo em excesso pode acabar com uma série de problemas e, ao mesmo tempo, piorar outros.

Em segundo lugar, estejamos nós falando de Economia, Política ou cuecas, não existe "tamanho único". Cada cultura é diferente e muda muito devagar, isso se mudar. O amável leitor pode argumentar que os cambalachos e a brutalidade cotidianos de Bangladesh decorrem da superpopulação do país, ou do desemprego, ou da pobreza opressora, ou da frouxidão moral nas áreas de comércio e política, ou de uma cultura que oprime os fracos, ou de famílias gigantescas que sempre exercem uma pressão atroz para se portar mal em favor de primos pobres ou gananciosos. Ou pode ser por tudo isso junto. Não importa. Embora um dia seja possível que ocorra uma mudança, nem mesmo um século inteiro de disciplina draconiana ou incentivos ao mercado derrubarão hábitos milenares. Desencanem. Vamos amá-los por seus piqueniques e alimentar seus famintos, e ponto final.

Em terceiro lugar, sentar a rotunda bunda numa cátedra polpudamente financiada confere ao seu ocupante uma licença para falar "groselha" (fundamentada numa quantidade enorme de ignorância e vaidade) para qualquer um que seja suficientemente idiota para ouvir. No entanto, ser um ideólogo ajuda bastante. Daí, é só engolir as próprias merdas e acreditar que sua visão de mundo bem maquinada, prazerosa e de conto-de-fadas ainda merece um tiquinho e credibilidade por causa da... coerência intelectual. Marx, como alguns de vocês devem saber, foi coerente sem nunca se rebaixar a passar um tempinho que fosse com seu amado proletariado, ficando com seu furunculoso cuzinho confortavelmente alapado numa cadeira estofada da Biblioteca Britânica, e suas "brilhantes" idéias mataram mais de 100 milhões de pessoas. Se algum lugar deste mundo fosse idiota o bastante para seguir as instruções cretinas (mas bem urdidas) de Walter Block, o caminho da ruína estaria escancarado. 

Em quarto e último lugar, devemos perceber que a maioria das pessoas que se dizem libertárias é formada por conservadores normais que estão ou confusos ou humilhados pelos ilustres fascistas que falseiam o significado do conservadorismo. Mas se o amável leitor for como eu, às vezes encontrará verdadeiros libertários tão arrogantes quanto o Lúcifer da obra "Paraíso Perdido" (do poeta inglês seiscentista John Milton); tão sombrios quanto a noite; e tão malcheirosos quanto o enxofre dos infernos. 

Esses são pessoas como o "festivo" Walter Block. Embora eles sejam humanos, passam longe de serem humanistas.